Cidades
M�e acorrenta filho na Ch� da Jaqueira
FÁBIA ASSUMPÇÃO Acorrentar os dois filhos adolescentes de 13 e 14 anos ao pé da cama foi a decisão tomada pela vendedora ambulante Cícera dos Santos Gomes para impedir que se drogassem e praticassem crimes. Ela mora numa pequena casa de apenas três cômodos, ainda sem acabamento, na Rua do Arame, em Chã da Jaqueira, e sustenta a família com bastante dificuldade, vendendo feijão verde no Mercado da Produção. Todos os dias, ela acorda às quatro horas da manhã para conseguir alguns trocados para o sustento da família. ?Às vezes falta até o que comer?, lamenta Cícera, que foi abandonada pelo marido, com os três filhos. Os dois adolescentes abandonaram a escola há mais de um ano, depois que se tornaram viciados em cheirar cola de sapateiro e fumar maconha. Para manter o vício, eles começaram a roubar a vizinhança. A mãe perdeu quase tudo o que tinha em casa para pagar dívidas feitas por eles. Sobrevivência ?Eu tenho que fazer isso, para não ver meus filhos serem assassinados?, desabafa Cícera, para justificar o motivo de manter os filhos acorrentados ao pé da cama. Por causa da denúncia de vizinhos, o mais velho, de 14 anos, foi levado pelo Conselho Tutelar na última quinta-feira para o Centro de Atendimento à Criança, no Poço. O mais novo, de 13 anos, conseguiu fugir do cerco dos conselheiros tutelares e só voltou para casa de madrugada. Ele é quem costumava ajudar a mãe na venda de feijão verde no Mercado da Produção. ?Ele só vive fugindo, mesmo quando a gente coloca as correntes?, conta Cícera, que tem mais uma filha de 12 anos portadora de deficiência física. Sem estudo Segundo Cícera, os filhos começaram a estudar tarde porque não tinham registro de nascimento. W., o mais velho, só estudou até o primeiro ano do ensino fundamental e W., de 13 anos, até o segundo ano. Vendo que os filhos estão cada vez mais envolvidos com as dro-gas, praticando furtos na região, Cícera quer apenas encontrar um local para interná-los até completarem 18 anos. ?Eu não tenho mais condições de ficar com eles em casa, pois vejo a hora de serem mortos por causa desses roubos?. Deitado na cama, W. não parecia muito interessado em mudar de vida. Segundo Cícera, ele chegou a ameaçá-la, quando voltou para casa, dizendo que não se deixaria levar pelos conselheiros, como aconteceu com o irmão. Demonstrando ser uma criança bastante esperta, W. mostrou que é muito fácil se desvencilhar das correntes que a mãe usa para prendê-lo em casa. E não demonstra nenhum interesse em voltar para a escola. Perguntado sobre o que pretende ser quando for adulto, ele respondeu simplesmente: ?Nada?.