Cidades
Amor e drogas tiram a liberdade de jovens
BLEINE OLIVEIRA Os cabelos longos e encaracolados, o corpo esguio, a voz mansa levam qualquer um a pensar que aquela jovem tem, no máximo, 18 anos. É um engano. Ana Paula já tem 23 e confessa, sem qualquer sinal de arrependimento, que começou a fumar maconha aos 16 anos. ?Por curtição, porque em casa não tinha nada para fazer?, diz. Na rua, com um grupo de amigas mais experientes e também usuárias, Ana Paula buscava a diversão. A escola, onde cursava a 5ª série do Ensino Fundamental, foi substituída por discotecas e bares. Numa dessas curtições conheceu o marido. Com ele, passou a se divertir ainda mais, e sempre ter um ?baseado? disponível. Os quatro anos de curtição custaram três anos de prisão, dos quais já cumpriu 2 anos e meio. Sua esperança, agora que está bem perto de concluir a pena, é conseguir um emprego e ter uma vida comum, ?longe da cadeia?. Ana Paula confessa que, no presídio, pode compreender que a liberdade é ?a coisa mais importante da vida?. Mas não quer abandonar o marido, que tem ainda vários anos para cumprir. Além do emprego, a jovem sonha e garante que vai lutar para ele não voltar a delinqüir. ?A decisão é dele, mas vou fazer tudo para que deixe essa vida?, declara. Retirantes As dificuldades eram tantas na localidade onde viviam, no município de Chã do Pilar, que a família, formada por mãe, pai e quatro filhos, não teve outra saída senão emigrar, buscando a sobrevivência na capital. Quase como retirantes, foram morar na casa de uma tia, no bairro da Levada. O ano era 1979 e Maria José do Espírito Santo Santos estava com cinco anos de idade. Nos primeiros anos, as mudanças foram poucas. O pai doente, a mãe sem alternativa de emprego, se juntaram à tia, com graves problemas de saúde, e aos filhos desta para enfrentar a vida em Maceió. O tempo passa e nada melhora. As dificuldades provocadas pela falta de emprego são iguais as que enfrentavam no interior. Seis anos se passam e a vida continua difícil. Filhos sem escola, marido sem acesso à assistência médica, a mãe não percebe que sua família corre risco. Somente quando Maria José é presa, ela vê que a mudança apenas trouxe para dentro de sua casa a ilusão das drogas e do ganho fácil. Por volta dos 11 anos, Maria José, a ?Peba?, desiste de esperar que a vida melhore e vai para as ruas ?onde tinha mais o que fazer?. A menina de olhos verdes, sorridente, é facilmente cooptada. Hoje, aos 29 anos, Peba se lembra com clareza de como foi iludida por uma amiga que lhe entregou a um traficante. ?Essa amiga me chamou para comer um passaporte. Lá, apareceu esse rapaz que era namorado dela. Me lembro apenas que me ofereceram vinho, tomei um gole ou dois e só acordei um dia depois?, relata a presidiária Maria José do Espírito Santo. A partir daí sua vida mudou. Estuprada, a menina continuou nas ruas, enfrentando todos os riscos a que tantos menores estão sujeitos. Peba roubava, pedia esmolas, até que por volta dos 16 anos começou a fumar maconha. A droga foi oferecida por um primo. ?Era a saída para esquecer todos os problemas?, afirma ela. Os anos se passaram, Peba se apaixonou seis vezes e em cada uma delas teve um filho. Todos os homens com quem viveu tinha ligação com o tráfico, o que acabou levando-a para a cadeia. Acusada de tráfico, ela assumiu a culpa do delito, livrando o marido, pai de seus dois últimos filhos. Hoje Maria José, ou Peba, como todos a conhecem, está só. Já não usa mais droga e tem o sonho de reconstruir a vida. ?Quero trabalhar e cuidar de meus filhos. Com fé em Deus espero não voltar a me drogar e nem me envolver com homens que são marginais?, declara. As que querem ajuda contam com o apoio da diretora do Santa Luzia, psicóloga Sheila Cristina Costa Andrade. ?Temos diversas atividades que podem ajudá-las a ter meios de sobrevivência quando saírem?, afirma ela, citando os cursos de alfabetização, artesanato, cabeleireiro e outros oferecidos no presídio. Mas, pelos depoimentos, além da profissionalização, o que essas mulheres precisam é aprender a lidar com a paixão sem deixar a emoção tirar-lhes a razão.