Cidades
Amigo de sala que providenciou mercadoria
O objetivo do encontro das cinco meninas, no apartamento de G., era ensaiar a coreografia que fariam no dia seguinte, durante o show da cantora baiana Ivete Sangalo, realizado no Clube da OAB, em Jacarecica, e definir os modelos da camiseta de acesso ao evento, o que a moçada chama costumizar. Entre brincadeiras, movimentadas pelo ritmo do axé-music, elas planejavam ?arrasar? no show. Mas já sabiam que a festa seria incrementada por lança-perfume. Um amiguinho da sala já havia providenciado a ?mercadoria? e eles se juntariam a outras turmas, que incluiria alunos do colégio Inei. Antes de encerrar o ensaio, as meninas decidiram viver de novo a experiência de cheirar lança-perfume. Sozinhas no quarto e no apartamento (há informações de que ao viajar, os pais de G. deixaram uma empregada cuidando dela), todas concordaram em chamar o coleguinha que havia comprado o lança-perfume. Ele, que mora num prédio próximo, chegou rápido ao Edifício Pablo Picasso, subiu, todos cheiraram e o colega foi embora. Não satisfeitas, as meninas decidiram fazer a mistura usando um tipo de desodorante. Foi na internet que elas conseguiram a informação de que desodorante, se aspirado com saco plástico, provoca efeito semelhante ao lança-perfume. A festa das meninas acabou quando perceberam que Simone, a terceira a inalar o produto, não saía do torpor em que se encontrava. Ao vê-la no chão do banheiro, para onde foi logo após inalar e começar a tossir fortemente, as meninas foram ver o que estava ocorrendo. Sem reação, Simone começou a ficar roxa, assustando ainda mais as colegas. As meninas jogaram água em seu rosto, deram tapas leves, mas nada adiantou. A situação começou a ficar desesperadora. Elas resolveram ligar para o atendimento de emergência do Corpo de Bombeiros, mas como não disseram a verdade e nem chamaram um adulto para falar ao telefone, a triagem do CB imaginou tratar-se de mais um trote. Essa situação demorou quase uma hora, até que elas decidiram chamar os pais de Simone. Só aí a menina começou a receber socorro. O próprio pai, médico, mesmo desesperado, adotou procedimentos de reanimação. Tudo em vão. O tempo conspirou contra a menina que, aos 13 anos, morreu depois de cheirar ?loló?. Convulsões A reação de Simone Almeida Vieira foi a mesma vista durante todo o show da baiana Ivete Sangalo. Informações não confirmadas indicam que, na noite do dia 22, data do show, dezenas de menores deram entrada na Emergência Cardíaca da Santa Casa em crise convulsiva provocada pelo uso intenso de ?loló? e lança-perfume. Os relatos posteriores revelam que, num determinado momento da apresentação, quando cantava a música ?Sorte Grande (Poeira)?, a própria Ivete Sangalo parou o show para pedir providência aos organizadores do evento. Do palco, ela podia ver o degradante espetáculo provocado por dezenas de meninos e meninas que cheiravam tanto a ponto de cair, sem controle do próprio corpo. ?Era um quadro degradante e assustador?, revela a jornalista Verônica Macedo, que assistiu ao show do camarote, como convidada da organização. Foi nesse ambiente, reve-la o delegado de Repressão às Drogas, Flávio Saraiva, que a Polícia apreendeu 79 tubos de lança-perfume, maconha e outras misturas. Pressão Embora não tenha qualquer responsabilidade sobre a morte de Simone, afinal correu tanto risco quanto ela, a menor G., também de 13 anos, está enfrentando momentos difíceis na escola. A menina tem sido apontada pelos colegas nos corredores, no pátio, no ginásio, enfim, onde circule, por ter sido em sua moradia que a tragédia aconteceu. Essa pressão social é um problema que G. e as colegas que fazem parte do mesmo grupo vão encarar durante certo tempo. Mas elas e as amigas, que se conhecem desde a pré-escola, estão recebendo apoio da família, indo às aulas e, apesar do constrangimento, tentando levar vida normal.