loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6283
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Cidades

Cidades

Na periferia, crime eleitoral � livre e amplo

Ouvir
Compartilhar

RODRIGO CAVALCANTE FERNANDO COELHO FELIPE FARIAS No domingo passado, mais de 1,7 milhão de eleitores alagoanos puderam escolher os vereadores e prefeitos dos 102 municípios do Estado. Somente em Maceió, 441.868 pessoas estavam habilitadas ao voto. Desse total, 367.057 utilizaram a urna eletrônica para votar, tecnologia que praticamente reduziu a zero a possibilidade de fraude na contagem dos votos. Sem registros de casos graves de violência, a eleição de 3 de outubro tinha tudo para ser lembrada como o dia em que os alagoanos celebraram a festa da democracia. Menos de dois dias após o pleito, contudo, denúncias envolvendo candidatos a vereador, alguns que haviam acabado de se eleger, revelaram um lado nada glamouroso dessa festa: o esquema de compra de votos na capital. Tudo começou na tarde da terça-feira passada, quando dezenas de eleitores foram protestar em frente ao comitê de campanha do vereador eleito Paulo Corintho (PV) por, supostamente, não terem recebido o dinheiro prometido por venderem os seus votos ao candidato. No dia seguinte, outros eleitores fizeram o mesmo, dessa vez reivindicando o dinheiro prometido pelo vereador eleito José Márcio (PTB) que, também supostamente, teria comprado votos desses eleitores. ?É claro que a compra dos votos não é um fenômeno novo?, diz o historiador Douglas Apratto. ?O curioso é a constatação de que, nessa eleição, esse mercado está tão explícito e ?moderno? que alguns eleitores estão em busca do dinheiro prometido como qualquer cidadão que vai ao Procon em busca dos seus direitos de consumidor?, diz. Segundo a legislação, contudo, além de não ser nenhum direito, a compra e a venda de votos é crime eleitoral. Por isso mesmo, a Polícia Federal e o Ministério Público já entraram em campo para investigar e denunciar essa prática cada vez mais comum nas eleições em todo o Estado. No início da semana, a GAZETA DE ALAGOAS visitou diversos bairros de Maceió para entender como funciona o mercado da compra de votos na capital. Segundo nossa apuração, o valor médio do voto vendido na capital ficou em torno de R$ 30, para vereador, e R$ 50 para prefeito. De cada dois entrevistados, ao menos um declarou ter feito algum tipo de negócio em troca do voto ? ainda que alguns não tenham recebido o valor prometido. Esse é o caso do casal Terezinha Adília e José Bezerra. Eles moram no Tabuleiro do Martins e vivem, há mais de 20 anos, da venda de frutas e verduras na feira do bairro. Os dois confessam que venderam os votos, por R$ 30 cada, a um candidato, mas o dinheiro não apareceu. ?Deixei de votar no meu candidato para votar em outro e terminei não recebendo nada?, queixa-se a feirante Terezinha Adília. No mesmo bairro, o vendedor de ervas Júnior da Silva é outro eleitor que diz que não se deu bem ao vender seu voto. Ele conta que recebeu a promessa de cabos eleitorais de cinco candidatos a vereador, sendo cada voto vendido a R$ 30. ?Eles pediram até o canhoto do voto, e quando fui buscar o dinheiro, todos eles sumiram?, comenta. Ele diz que utilizaria o dinheiro para uma reciclagem profissional. ?Ia fazer um curso de vigilante, mas não deu certo. Eu sei que vender meu voto é errado, mas sou pobre e preciso de dinheiro?, justifica-se o eleitor. Outros tiveram ?mais sorte?, como o pintor A.S., eleitor que não quis se identificar e é morador do Tabuleiro. Ele conta que recebeu R$ 40 de um candidato a vereador. ?Coloquei o dinheiro dentro de casa?, diz o eleitor. ?É melhor pegar o dinheiro deles agora do que depois, quando eles somem?, explica. O desempregado A.L.L, 33 anos, é outro que também vendeu seu voto ? e recebeu o pagamento combinado. Morador do Vergel do Lago, ele diz que recebeu R$ 30 para votar em dois candidatos a vereador e a prefeito. F.P.S., 20 anos, é autônomo e vota no Clima Bom. Diz que conseguiu vender seu voto por R$ 50 a um candidato a prefeito. ?Investi o dinheiro em minha filha?, conta. ?Com os votos vendidos da minha mãe e da minha esposa, faturamos 150 contos?, conta. Ele diz que representantes do candidato pegaram o número e o canhoto do seu título de eleitor. ?No sábado mesmo, eles pagaram. Eu nem acreditei?, diz, surpreso. ?Teve outro candidato a vereador que prometeu 30 reais, mas não pagou. O pessoal ficou indignado e vai meter um processo nele?, afirma, como se fosse possível processar algum candidato por não ter pago por um voto comprado. ?Eu não achei errado o que eu fiz. Acho errado o que eles fizeram?. Multa de trânsito Com quase 30 mil eleitores, o Benedito Bentes é um dos maiores colégios eleitorais da capital e um dos principais alvos dos candidatos. Desempregada e com uma filha recém-nascida, a moradora do bairro Pollyana Nascimento, 20 anos, diz que não pensou duas vezes quando, nas semanas que antecederam as eleições, lhe ofereceram R$ 30 em troca de um voto para vereador. ?Comprei leite para minha filha e paguei umas contas com o dinheiro?, conta. ?No segundo turno, vou tentar vender de novo. Todo mundo sabe que eles compram mesmo?, diz. Quando o voto não é trocado diretamente por dinheiro, é possível trocá-lo por um favor. Dona de um salão de beleza no Benedito Bentes, Maria de Lourdes, 38 anos, revela ter votado em um determinado candidato a vereador em troca do abono de uma multa de trânsito. ?Foi como se tivesse ganho 400 reais. Eu sei que vender voto não é certo. Mas, se eu acertei com ele, sinto que tenho um compromisso com ele. É uma questão de consciência?. Alguns eleitores se gabam de conseguir vender o mesmo voto para mais de um candidato. É o caso de E.C.R., 22 anos, carregador em um depósito de bebidas no Benedito Bentes. Ele diz que vendeu o mesmo voto para dois vereadores, mas não votou em nenhum deles. ?Eu não acho certo, mas, quem está precisando, deve fazer isso mesmo?. Ele diz que a sua família votou em um candidato que ofereceu 30 reais por voto. ?Era só mostrar o comprovante depois da votação. Fui lá, peguei o dinheiro e fiz uma feirinha?. Outro motorista, que se apresentou com o nome de Edson, diz que recebeu R$ 30 pelo seu voto. A prova para o pagamento seria por um carbono que, ao ser colocado sob a urna eletrônica durante a votação, indicaria os números digitados. Edson diz que não votou no candidato mas, mesmo assim, levou os R$ 120 por ter encontrado três carbonos no chão da seção eleitoral. ?Saí do comitê do candidato com R$ 120?, comemora. ?Usei o dinheiro para a reforma da minha casa?. O cabo eleitoral O processo para conquistar o cidadão começa com o cabo eleitoral. É ele quem visita os domicílios, marca reuniões, cadastra pessoas e explica todo o mecanismo de apuração e repasse das quantias para os ?clientes?. Os métodos não são muito sofisticados e, em geral, os acordos são feitos informalmente ou mediante a apresentação do comprovante de votação (veja os mecanismos usados para a compra na página seguinte). Enquanto alguns faturam alto, outros não têm a mesma sorte e ficam com o prejuízo e a cobrança dos eleitores. Aos 18 anos, o representante comercial J.S.M. já está bem gabaritado no comércio ilegal de votos. Em sua segunda eleição como cabo eleitoral, ele diz ter faturado R$ 2 mil por ter conseguido cerca de 100 votos para um candidato a vereador na Chã de Bebedouro. ?Paguei umas dívidas e coloquei o resto no banco?, diz. ?Estão dizendo que no segundo turno o voto para prefeito pode valer até R$ 70?. A.F.S., 38 anos, é doméstica e mora no Village Campestre. Ela exerceu o papel de cabo eleitoral por R$ 500 para um candidato a vereador. O político tentava a reeleição para o terceiro mandato e prometeu R$ 30 por voto. A doméstica fez reuniões com a presença do candidato na sua própria residência e conseguiu cadastrar 79 eleitores dispostos a vender seus votos. ?A partir das cinco horas da tarde, depois que todo mundo votasse e entregasse o comprovante, eu iria na casa dele para ele me entregar o dinheiro?, explica. Em sua busca pelos eleitores, ela diz ter conseguido títulos de todas as quatro zonas eleitorais da cidade. ?Na segunda-feira à tarde [dia seguinte à eleição], o motorista do candidato me recebeu dizendo que ele estava muito deprimido porque não tinha sido reeleito e não podia me atender naquele momento?, diz a doméstica. Ela diz que virou cabo eleitoral porque tem uma irmã que está passando por muitas privações. Disposta a não ficar no prejuízo, A.F.S. fala com segurança sobre a nova tentativa. ?Agora, eu vou tentar no segundo turno?, frisa. Outra que não conseguiu o dinheiro prometido foi M.K.C., 22 anos, moradora do Benedito Bentes. ?O candidato disse que eu poderia trabalhar com ele como cabo eleitoral?, diz. Ela conta que teria combinado cadastrar as pessoas com número do título de eleitor, identidade, CPF e endereço. Após as eleições, o comprovante da votação validaria o recebimento de 30 reais por voto. ?Ele [o candidato] ficou de vir na véspera da eleição com a grana, mas só chegou aqui com umas camisas?, diz. ?Até hoje espero por ele, e o pior é que tem gente vindo atrás de mim, alegando que eu fiquei com o dinheiro?.

Relacionadas