Cidades
Profiss�es tentam superar tempo e modernidade
FÁTIMA ALMEIDA No tempo das máquinas fotográficas digitais, dos ternos de microfibra e de toda comodidade oferecida pelos tempos modernos, algumas profissões resistem e lutam para ter um espaço para sua sobrevivência. Manoel Engrácio do Nascimento, 68 anos, é um desses lutadores profissionais. Ele já trabalhou na roça, foi ?retratista? nas feiras do interior e laboratorista do extinto Jornal de Alagoas, único emprego formal que já ocupou. Desde a década de 70, virou autônomo e passou a exercer a atividade de ?lambe-lambe? no centro de Maceió. O ?lambe-lambe? é uma função secular, assim como outras atividades que sobreviveram à expansão e ao apelo comercial ditados pela globalização: o alfaiate, a bordadeira, o sapateiro, o consertador de panelas, o ferreiro, o amolador de facas. São apenas algumas dessas funções. Profissões não regulamentadas, que muita gente já julgava extintas, mas que têm ainda seu espaço e sua clientela em Maceió e em outros centros urbanos. Das fotos 3x4 e 5x7, com entrega quase instantânea para documentos, Manoel Engrácio tirou o sustento de sua família e continua, até hoje, garantindo seu próprio sustento. ?Acho que vou exercer essa atividade até o fim dos meus dias?, diz ele, que é reconhecido pelos colegas como o mais antigo e experiente ?lambe-lambe? em atividade em Maceió. É dele a explicação mais provável da origem do termo. ?É que antes, o material de revelação era salgado, e para que as fotos tivessem durabilidade o sal teria que ser totalmente removido com água, após a revelação. Para se certificar de que estava no ponto, o fotógrafo provava, com a ponta do dedo na língua, a água que lavava a fotografia?. Ao lado de Manoel Engrácio, numa espécie de galeria por trás do Ginásio Estadual, o mais novo colega de profissão, Cícero Benedito, está há 17 anos no ramo. Também veio do interior, aprendeu o ofício em família e com ele sustenta os dois filhos menores, mas acha que não sobrevive muito tempo nessa atividade. ?Daqui a dez anos só existirá na memória de algum museu?, diz. Na sua opinião a profissão será extinta, não pelo esgotamento natural, e sim, porque hoje ninguém se interessa em começar na atividade. Ele também reclama da falta de apoio aos que resistem no exercício da função. ?É só olhar para o local onde trabalhamos. Não tem atenção do poder público?, lamenta Cícero. Os tempos mudaram, a história da fotografia evoluiu e atingiu a instantaneidade da era digital. Nada grave para a atividade do ?lambe-lambe?, que é uma espécie de foto-estúdio ambulante. Eles também procuraram se modernizar, embora o aquecimento dos produtos químicos, dentro dos caixotes de madeira que são, ao mesmo tempo, câmara e estúdio, seja feito em banho-maria, com a chama de um candeeiro, daqueles que se usam nas comunidades mais distantes, onde a luz elétrica ainda é um sonho remoto. As fotos, hoje, são entregues em 15 minutos, e nada daquela amarelão de outrora, que em poucos meses acabava com a imagem. Os equipamentos também foram evoluindo. Ao invés da fresta para entrada da luz, com a contagem na hora do click, os caixotes, fechados com uma espécie de camisa preta, ganharam flashes eletrônicos, que possibilitam também as fotos coloridas. Um desses adaptadores, segundo Engrácio, foi inventado por ele e aprovado pelos colegas, que também utilizam o invento. O cronômetro e o termômetro são instrumentos indispensáveis. De acordo com os ambulantes da fotografia, as fotos do ?lambe-lambe? não deixam nada a desejar quando comparadas às fotos modernas dos estúdios digitais. ?Duram para sempre e não amarelam?, garante Manoel Engrácio.