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Nº 5718
Cidades

“O Brasil j� existia antes da vinda de Cabral”

Valmir Calheiros A historiadora e professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Leda Almeida, faz questão de deixar claro que a própria expressão “Descobrimento do Brasil” traz implícita a concepção, que ela julga inverídica, de que o Brasil p

Por | Edição do dia 21/04/2002 - Matéria atualizada em 21/04/2002 às 00h00

Valmir Calheiros A historiadora e professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Leda Almeida, faz questão de deixar claro que a própria expressão “Descobrimento do Brasil” traz implícita a concepção, que ela julga inverídica, de que o Brasil passou a existir a partir da chegada dos portugueses, ignorando-se completamente a existência do povo nativo que aqui já se encontrava desde os tempos imemoriais. “Portanto, não seria mais exato falar em chegada dos portugueses à costa brasileira do que usar a expressão Descobrimento do Brasil?”, indagou. De acordo com ela, a chegada dos portugueses às terras brasileiras foi uma conseqüência do processo expansionista português, onde se destacam quatro fases bem distintas. A primeira, foi a conquista do norte da África, quando se deu a subjugação de Ceuta, em 1415, ponto de apoio de piratas que incursionavam na costa portuguesa. Leda apontou como a segunda dessas fases a Ocupação das ilhas Atlânticas de Madeira, Porto Santo, Açores e Cabo Verde. “Destaca-se, nesta fase, a aglutinação em torno do infante D. Henrique, filho do rei, de uma verdadeira corte de navegantes, cosmógrafos e instrumentistas, em Sagres. Indica como a terceira fase a exploração do litoral africano, quando em 1434, Gil Eanes, vinculado à Escola de Sagres, consegue passar além do Cabo de Bojador. “Em português arcaico Bojador significa saliente, o que no imaginário português fortalecia a crença de que as técnicas desenvolvidas em Sagres eram, de fato, capazes de ampliar sobremaneira o horizonte dos mares navegáveis”. E diz que a quarta delas foi o Projeto Oriental - “fase em que se busca novas rotas para o Oriente à procura de especiarias cujo preço elevara-se em torno de 800% em conseqüência do bloqueio do Mediterrâneo pelas terras otomanas”. A esquadra de Cabral A mesma historiadora explicou que a famosa esquadra de Pedro Álvares Cabral, alcaide-mor de Azurara e Senhores de Belmonte, foi instituída na fase expansionista Oriental e tinha, oficialmente, como principal objetivo intensificar os contatos iniciais em Calicute por Vasco da Gama. “Era composta de 13 embarcações e de aproximadamente 1.500 homens, e partiu no dia 9 de março de 1500 da Praia do Rostelo, em Portugal, sob as vistas da família real, inclusive do rei D. Manuel”. Pelas explicações da professora Leda Almeida, só após 40 dias de viagem a expedição chegou ao litoral baiano, em Porto Seguro. As novas terras receberam, então, o nome de ilha de Vera Cruz, e, posteriormente, Terra de Santa Cruz. A chegada dos portugueses é relatada em três documentos: a carta do escrivão Pero Vaz de Caminha, a Carta do mestre João e o Relato do Piloto Anônimo. Os historiadores atribuem o pioneirismo português na conquista dos mares à centralização política precoce relativamente aos outros Estados europeus, à localização geográfica privilegiada de Portugal, aos interesses mercantis que levaram à busca de novas rotas marítimas e, por fim, ao desenvolvimento técnico implementado na Escola de Sagres. Aspectos culturais - Mas que povo é esse que toma de assalto o Novo Mundo? A pergunta é da própria Leda Almeida, que, ao mesmo tempo, declara: “Geralmente, quando se fala em Descobrimento do Brasil é comum não se chamar a atenção para a formação cultural portuguesa. Todavia, entendemos que este ponto é central na compreensão dos fatos que se sucederam. A origem remota do Estado português é latina. Mas a sua formação é marcada pela luta da Reconquista da Península Ibérica, que havia sido ocupada pelos muçulmanos do século VIII. As lutas travadas entre os séculos X e XI, época das cruzadas, tinham uma motivação fortemente religiosa, colocando no epicentro dos acontecimentos a Igreja Católica. A cultura portuguesa pode então ser descrita, grosso modo, como ocidental cristã com traços de influência árabe. O sistema de produção então vigente em Portugal e nos outros Estados europeus, nos séculos XIV e XV, era o feudal. Esse sistema caracteriza-se pela exploração camponesa, baseado na servidão e pelo domínio do principal meio de produção – a terra – por uma elite que também assume a posição de classe dominante. Isso explica o sistema econômico que os portugueses tentavam implementar nas novas terras conquistadas, fonte de tantos conflitos com os povos nativos que aqui se encontravam”.

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