Cidades
O f�lego acabou quando sa� do meio da lama
FÁBIA ASSUMPÇÃO O operador de tratores Everaldo Anísio dos Santos poderia estar entre os mortos do acidente ocorrido na noite de terça-feira, com o ônibus que fazia o transporte de trabalhadores da Usina Cachoeira, de Maceió para a fábrica. Ele ia sentado no banco da frente, ao lado do motorista do ônibus, José Soares, que não conseguiu sair com vida. ?Tudo aconteceu de repente. Quando o ônibus caiu na vinhaça, todo mundo entrou em pânico?, lembra. A vinhaça é o resíduo final da fabricação do álcool. De acordo com a química Andréa Melo, ?é um efluente de destilarias com alto poder poluente e alto valor fertilizante, cerca de cem vezes mais ofensivo que o esgoto doméstico?. Foi nessa lagoa de ?garapa? que Everaldo conseguiu sair do veículo por uma janela e chegou à superfície da lagoa com muita dificuldade. ?O fôlego estava quase acabando quando sai do meio da lama?. Já recuperado do susto, apresentando apenas alguns arranhões nos braços e nas pernas, ele disse que não sabe o que pode ter provocado o acidente. Mas garante que o ônibus não vinha em alta velocidade e que havia apenas algumas pessoas em pé, sem saber precisar quantas. Everaldo foi contratado há três meses pela usina e mora no Conjunto Cabo Luiz Pedro, na região do Benedito Bentes. O operador de tratores diz que tentou salvar algumas pessoas e chegou a fazer respiração boca a boca em algumas delas. ?A gente aprendeu a fazer isso num curso de primeiros socorros na usina?. O bituqueiro ? que transporta a cana para o caminhão ? Antônio Manoel também escapou com escoriações e um ?galo? próximo ao olho. Como estava na parte traseira do ônibus, ele nem chegou a afundar na lagoa de vinhaça. Levou uma pancada próximo ao olho e sofreu escoriações na perna, e ontem de manhã passou pelo posto médico da própria Usina Cachoeira. Ele também confirma que o ônibus não estavam em alta velocidade e havia poucas pessoas em pé. De acordo com os dois trabalhadores, algumas pessoas nem chegaram a dar entrada nos hospitais e voltaram para casa logo após o acidente. O gerente geral da Usina Cachoeira, Leonardo Pinto Costa, classificou o acidente como ?uma fatalidade?. E adiantou que a empresa vai garantir toda a assistência às famílias das vítimas do acidente, inclusive o custo do enterro dos mortos. Transporte terceirizado Leonardo explicou que o transporte de trabalhadores da usina foi terceirizado e é feito há três anos pela empresa J.U. Moraes de Andrade. ?A orientação nossa e da própria empresa responsável pelo transporte é que o ônibus circule com a carga normal de passageiros, que é de no máximo 45 sentados?. O gerente da Usina reconhece que é difícil fazer o controle do número de passageiros nos ônibus. ?Às vezes ocorre de trabalhadores perderem um ônibus e pedirem carona em outro?. A Usina Cachoeira, pertencente ao Grupo Carlos Lyra, tem 4.200 trabalhadores. Destes, cerca de 2.400 são da Grande Maceió, incluindo Messias e Rio Largo. A empresa tem 80 ônibus para o transporte desses trabalhos, que trabalham por turnos de oito horas. Entre 20 e 30 ônibus percorrem a Grande Maceió, em bairros como Clima Bom e Benedito Bentes, onde há um grande número de trabalhadores contratados pela usina. A maioria deles trabalha como operadores de máquinas, tratores e bituqueiros. Fiscais Fiscais da Delegacia Regional do Trabalho (DRT) estiveram na usina ontem de manhã para verificar a documentação dos trabalhadores e as condições de trabalho e transporte. O coordenador Jurídico da Usina Cachoeira, Carlos André, avalia que o fato não pode ser caracterizado como acidente de trabalho. ?Foi uma fatalidade?, disse, adiantando que o setor jurídico da empresa vai acompanhar todas as implicações do caso. O delegado regional da DRT, Ricardo Coelho, informou ontem que, caso seja comprovado, depois da perícia, que o ônibus estava com superlotação de passageiros, deverá ser autuado e multado. A DRT não soube informar quantos acidentes em média ocorrem na região. Mas de acordo com relatos dos sobreviventes e feridos na tragédia, só neste mês houve pelo menos três acidentes.