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S�culo 19: funeral era registrado em cart�rio

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FELIPE FARIAS Os ritos têm função religiosa, mas servem de amparo psicológico para a família e para os amigos. Por mais curioso que pareça, do ponto de vista antropológico, tais cerimônias são voltadas mesmo para os vivos. ?A morte provoca um trauma muito forte, que precisa ser amortecido por alguns mecanismos. Afinal, a morte alheia é a forma pela qual caminhamos para a aceitação da nossa própria morte?, diz o antropólogo Bruno Cavalcante. Assim, por mais que a morte toque a quem quer que seja, o falecimento de um amigo é recebido de uma forma diferente da chacina de crianças do outro lado do mundo, por exemplo. ?No momento em que a pessoa sepulta um ente querido, ela está de alguma forma dialogando com a própria morte?. Cuidados pós-morte A forma como a morte é encarada hoje difere muito de como era há mais de cem anos. Segundo o antropólogo Bruno Cavalcante, era comum à época do Império, por exemplo, fazer uma poupança para custear as despesas com os serviços funerários; um cuidado que não estava restrito apenas às pessoas de muitas posses, mas que era tido até por escravos. ?Assim como se designava com quem ia ficar a herança, era comum se deixar registrado em cartório todos os detalhes de um serviço funerário que se queria para si?, explica ele. Os cuidados chegavam ao requinte de a pessoa deixar descrita a cor do caixão em que seria velada e sepultada, as músicas a serem executadas em cada etapa dos rituais e até o que deveria ser servido aos convidados. ?Mas, a secularização da vida moderna nos afastou dessa relação?, explica. Mais do que uma simples excentricidade, tais cuidados traduziam também a posição social de quem os ostentava. Para o antropólogo, mostra dessa concepção está nos mausoléus, construídos com requintes de uma obra de arte. ?Era uma distinção que se pretendia levar para a eternidade?, explica. E os cuidados não se resumiam ao momento em que ocorriam os serviços funerários; iam bem depois deles. ?Outro costume muito comum era deixar igualmente registrado em cartório um determinado valor a ser repassado ao padre da paróquia local, para que este celebrasse, por exemplo, cinco mil missas em favor da alma daquela pessoa?, relata. A contratação incluía até músicos para executar o repertório escolhido pela própria pessoa para tais celebrações e carpideiras, as mulheres contratadas apenas para chorar os mortos, mesmo sem parentesco nenhum com eles.

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