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Aids: um perfil cada vez mais feminino em AL

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FÁTIMA ALMEIDA Maria (*) é uma das quase 1.700 pessoas registradas em Alagoas como portadoras do HIV, o vírus da Aids. Ela descobriu que era soropositivo quando buscava diagnóstico para uma série de problemas de saúde que a deixavam prostrada: perda excessiva de peso e de cabelos, uma fraqueza inexplicável que a impedia de cuidar sozinha até mesmo da higiene pessoal, e, o pior, a falta de reação aos medicamentos que tomava. O diagnóstico veio como uma bomba, que estilhaçou ainda mais o mundo fragilizado de Maria. Por mais de um ano, ela viveu o processo comum a quase todas as pessoas que se descobrem com Aids: a negação, a revolta, duas tentativas de suicídio (uma no próprio hospital e outra na ponte do Reginaldo), o preconceito da sociedade e da própria família, a reclusão, a depressão e, finalmente, a aceitação e o tratamento. Hoje, cinco anos depois, quem olha para Maria nem desconfia que ela é HIV positivo. Desde que iniciou o tratamento, ela recuperou uma aparência bastante saudável: forte, disposta; desempenha normalmente suas atividades domésticas, trabalha como voluntária no Grupo Conviver (ONG de ajuda a pacientes com Aids) e exerce atividades profissionais numa casa de passagem. Ganha pouco, mas, segundo ela, o suficiente para o próprio sustento e para sentir-se útil. ?O restante, Deus ajuda?, diz. Maria recebe gratuitamente do governo os remédios para combater os efeitos do vírus sobre as células de defesa do organismo. ?É um direito de todos os portadores do vírus da Aids que têm indicação de tratamento. São os pacientes sintomáticos ou com nível das células CD4 (de defesa) abaixo de 350?, explica a médica Margareth Medeiros, do Centro de Referência em Aids Dr. Marcelo Constant (Craids), do Hospital de Doenças Tropicais (HDT), o maior centro de tratamento do Estado, responsável pelo acompanhamento de 502 vítimas da doença (os outros centros estão no PAM Salgadinho e no Hospital Universitário). Maria também recebe acompanhamento de uma equipe multidisciplinar, que inclui médico infectologista, profissional de enfermagem, assistente social, psicólogo e nutricionista. Mesmo não precisando estar internada (apenas os pacientes graves são internados), ela é freqüentadora assídua ? quase diária ? do Craids. ?Gosto de ficar aqui. Encontro muita gente com meu problema e o apoio que preciso?, diz. Esse apoio, segundo Maria, é fundamental para fugir da depressão que vez por outra tenta abatê-la. ?Moro perto da família, mas sou muito sozinha. E quando há qualquer problema, qualquer discussão, eles jogam na cara que sou uma aidética?, lamenta. Casadas A história de Maria é a mesma de muitas outras Marias, anônimas ou não, que ilustram o novo perfil da doença em Alagoas, no Brasil e no mundo. A mulher, principalmente a casada, está ocupando cada vez mais um lugar de destaque dos chamados grupos de risco, posto que antes era dos homossexuais e profissionais do sexo. O avanço da feminização da Aids tem preocupado as organizações de saúde nos últimos anos e revisto os conceitos. Sem prevenção, ninguém está imune à doença, nem mesmo quem tem um único parceiro a vida inteira. ?Atualmente, os números mostram que de cada três novos casos de contaminação em Alagoas, um é em uma pessoa do sexo feminino?, diz a coordenadora de DST/Aids da Secretaria Estadual de Saúde de Alagoas, Fátima Rodrigues. Segundo ela, existem registros de 89 gestantes soropositivos no Estado. Entre as pessoas em tratamento, 776 são do sexo masculino e 336 do sexo feminino. A pseudo-segurança de uma relação estável é o calcanhar de Aquiles da prevenção da Aids entre o sexo feminino. Tanto que, segundo a infectologista Margareth Medeiros, hoje as grandes vítimas são as mulheres casadas, mais até do que as profissionais do sexo, porque acham que não precisam usar preservativos. ?Ao contrário dos homossexuais e profissionais do sexo, que aprenderam a se prevenir, a mulher casada pensa que, por ter um único parceiro, está livre, e não faz prevenção?, explica. No caso de Maria, ela estava no seu primeiro casamento e tinha um único parceiro, que, no entanto, não era tão fiel quanto preferem acreditar muitas mulheres que vivem uma relação duradoura. ?Ele era muito mulherengo?, reconhece. Mas mesmo assim a prevenção não fazia parte da rotina do casal. Algum tempo depois que o marido foi assassinado, Maria arrumou outro parceiro. Viveu com ele quatro anos, e só então descobriu que era portadora do HIV. ?Felizmente ele não foi contaminado?, diz ela. Nesse ponto, a história ganha um diferencial da maioria de outras histórias. Mesmo não sendo portador e nem o responsável pela transmissão, o companheiro de Maria lhe deu apoio e permaneceu do seu lado por muito tempo. Separaram-se há cerca de três meses, ?mas por outros motivos?, garante. A feminização não é o único fenômeno que compõe o perfil atual da Aids. Segundo a enfermeira Lygia Alves Antas, do Craids, os dados mais recentes mostram também um processo avançado da doença nas classes mais baixas e de incidência entre adolescentes e idosos (neste último caso, é atribuída uma relação com o surgimento do Viagra). Efeitos colaterais Ainda não existe cura para a Aids, mas há controle. A evolução dos anti-retrovirais nos últimos anos, que ajudam a combater a ação destruidora do vírus no organismo humano, tem desenhado um quadro cada vez mais favorável de convivência com o chamado mal do século, aumentando a expectativa de vida, com qualidade, das pessoas contaminadas. De acordo com Lygia Antas, há pacientes no Craids em tratamento há mais de 16 anos, e com uma boa qualidade de vida. Esse processo se torna mais favorável, segundo a infectologista Margareth Medeiros, quanto mais cedo for descoberto o vírus. ?Na fase final, quando o sistema imunológico já está muito deteriorado, fica difícil a recuperação, mesmo com o uso dos anti-retrovirais. O portador se torna muito mais vulnerável a infecções diversas?, explica ela, acrescentando que, por outro lado, a maioria das pessoas com uma boa adesão ao tratamento tem condições de retomar a sua vida normal, incluindo as atividades profissionais e o convívio social. Essa situação, no entanto, está sujeita aos abalos dos efeitos colaterais da pesada medicação. Segundo Lygia, há pacientes que têm de engolir, diariamente, até 18 cápsulas de enormes comprimidos. A sonolência é um dos efeitos mais freqüentes, que prejudicam a rotina social, mas o efeito mais temido pelos pacientes em tratamento é a lipodistrofia, um processo irreversível de absorção da gordura de determinadas partes do corpo, como a face, acumulando-a em outros locais. Esse processo mexe com a aparência e abala a auto-estima do paciente. O tratamento encontra suas dificuldades também nas condições financeiras de muitos pacientes, prejudicando a adesão. A maioria dos anti-retrovirais geram uma necessidade de adição de mais 300 calorias diárias, e pelo menos 70% dos pacientes tratados nas instituições públicas não têm condições de fazer essa reposição. Há também a necessidade dos exames de controle, que devem ser feitos, em algumas pessoas, pelo menos uma vez por mês. Os exames, segundo a médica Margareth Medeiros, são feitos no Lacen, e são de alto custo, mas têm cobertura do Ministério da Saúde. ?O tratamento não discrimina classe social. Se o paciente for a pessoa mais rica do Estado, ele pode até procurar acompanhamento em consultórios particulares, mas a medicação vem buscar aqui, e é gratuita?, explica. A barra do preconceito O preconceito e a discriminação ainda são as maiores barreiras no combate à Aids, prejudicando não apenas a prevenção, o apoio necessário aos portadores do vírus HIV, a assistência e o tratamento, mas, principalmente, o diagnóstico, que precede a tudo isso. Por causa dele, muita gente tem medo de fazer o teste, de freqüentar os locais de tratamento e ser visto por algum conhecido. Outros mergulham por muito tempo na fase de negação, só reaparecendo para tratamento anos depois. ?A maioria das pessoas que se descobrem portadoras do vírus da Aids acaba sendo abandonada pelos amigos e pela família. Tem muita gente sozinha entre os que fazem tratamento conosco?, diz a enfermeira Lygia Antas. Muitos escondem de todos e até se isolam, temendo a discriminação, e isso torna mais difícil ainda a convivência com a doença e o tratamento. ?Como justificar um monte de cápsulas na geladeira? Como justificar a necessidade de ingerir tanto medicamento diariamente? Muitos arrancam o rótulo do remédio para ninguém descobrir. Outros desaparecem de casa?, comenta Lygia. Segundo a coordenadora de DST/Aids da Secretaria Estadual de Saúde de Alagoas, Fátima Rodrigues, o preconceito e o medo da discriminação também prejudicam as estatísticas da doença, fazendo com que os números oficiais da Aids se mantenham a uma distância considerável da realidade, por causa da subnotificação. ?Existem 22 municípios alagoanos totalmente silenciosos, sem nenhum caso notificado até hoje. Fica difícil acreditar que estão imunes; que nunca tiveram nenhum soropositivo?, destaca. Oficialmente, a Aids já matou mais de 500 pessoas em Alagoas, segundo dados da coordenadoria. Fátima Rodrigues informou que desde o primeiro caso notificado, em 1986, até 2004, foram registrados no Estado 1.691 casos de Aids, dos quais 1.254 em pessoas do sexo masculino e 437 do sexo feminino. Os números parecem favorável às mulheres, mas a coordenadora afirma que, a exemplo do resto do mundo, a feminilização da doença avança a passos largos. Dados recentes divulgados pelo Ministério da Saúde revelam que a epidemia de Aids no Brasil está num processo de estabilização, mas em patamares elevados. Em 2003 foram diagnosticados 32.247 novos casos com uma taxa de 18,2 casos a cada 100 mil habitantes. Entre os anos de 1980 e 2004 foram registrados um total de 362.364 casos no País. A tendência à estabilização da incidência da doença é observada apenas entre os homens. Foram registrados, em 2003, 22,6 casos por 100 mil homens, taxa menor do que a observada em 1998, que era de 26,3 casos a cada 100 mil. Entretanto, observa-se ainda o crescimento da incidência em mulheres, tendo sido registrada a maior taxa de incidência em 2003: 14 casos por 100 mil mulheres. Os números estão sendo trabalhados como instrumentos de sensibilização e alerta para a sociedade. ?É preciso conscientizar para a necessidade de diagnosticar a doença?, afirma Fátima, informando que qualquer pessoa pode fazer o teste gratuitamente. Para isso, existem seis Centros de Testagem e Aconselhamento em todo o Estado (dois em Maceió e um nos municípios de Arapiraca, Delmiro Gouveia, União dos Palmares e Coruripe). Onde não há centros, as unidades básicas de saúde podem encaminhar os procedimentos. Durante esta semana, dentro da programação do Dia Mundial de Luta Contra a Aids (01/12), várias ações foram desenvolvidas para levar informações e reduzir o preconceito e a discriminação associados à doença. Entre elas estavam palestras, entrevistas, debates e um encontro estadual e municipal para profissionais de saúde, educação e organizações não-governamentais, com o tema Mulheres em tempos de Aids. O desafio da prevenção. (*) O sobrenome de Maria, assim como sua imagem e informações que possam identificá-la, foi mantido em sigilo a pe-dido da paciente.

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