Esperança
VENEZUELANOS BUSCAM EM ALAGOAS A CHANCE PARA RECOMEÇAR
Após atravessar a fronteira e peregrinar pelo Brasil para fugir da crise econômica do país de origem, famílias veem no Estado uma esperança
Da zona rural da cidade de Tucupita, localizada no estado venezuelano de Delta Amacuro, Anibal Perez Cardona, de 35 anos, levou três anos para chegar a Maceió com sua família: dois filhos de 5 e 3 anos de idade, sua esposa e outros parentes. Desde 2019, ele perambula de estado em estado em busca de condições favoráveis para recomeçar a vida. Naquele ano Aníbal saiu da Venezuela para fugir da crise econômica que até os dias atuais assola o país.
Eles fazem parte da tribo indígena venezuelana Warao. Na Venezuela, eles sobreviviam da pesca marítima, mas tinham experiência também com o artesanato. A desvalorização da moeda venezuelana fez o salário mínimo perder o poder de consumo e aumentou significativamente o preço dos produtos, incluindo dos materiais que eles compravam para pescar e, assim, obter o sustento. Para chegar ao Brasil, Aníbal vendeu tudo, até mesmo as embarcações.
Aníbal relata que, ao chegar ao Brasil, passou por Boa Vista, em Roraima, onde ficou com a família por 56 dias na rua. A cidade estava cheia de venezuelanos e ainda tinham os haitianos, o que dificultava para ele encontrar trabalho e sobreviver dignamente. Por lá, morou irregularmente em galpão, catou latinhas e pedia dinheiro na rua, até que decidiu sair e migrar para outros estados brasileiros. Foi quando a família peregrinou pelo Amazonas, Pará, Maranhão, Ceará, Bahia, Rio Grande do Norte – onde ficou por dois anos – e só então, já em 2022, foi que Aníbal e família chegaram a Alagoas. Com o português arrastado, mas de fácil compreensão, ele relata as dificuldades encontradas pelo caminho. “A gente precisava alimentar a criança, mas não tinha dinheiro para comprar. A gente ficou procurando ajuda, porque é difícil para conseguir trabalho. A gente tem experiência da pesca, artesanato, nossa profissão é isso. Mas, morar na cidade, é um mundo diferente, porque a situação da cidade tem que ter algum crescimento de nível acadêmico para inserir no mercado, como a gente não tem, é difícil, por isso que a gente ficou também na rua pedindo”, relata.
Em Alagoas, a primeira cidade que Aníbal se instalou foi Arapiraca, onde seus pais já o aguardavam. Por lá, ele moraram em um galpão, alugado no primeiro mês pela sociedade civil e depois pela Prefeitura, segundo ele conta. “Pensei: vamos para Alagoas, que tem lagoa, tem praia, e a gente pode ver de sair para pescar, como pescador. Agora foi uma luta também. A gente decidiu e saiu para ficar em Maceió e vamos ver o que se pode conseguir aqui”, comenta.
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Aníbal chegou a Maceió há cerca de quatro meses. Viveu algum tempo nas ruas, mas chegou a conseguir alugar um imóvel no Jacintinho. Hoje ele e família estão sendo acolhidos pela Casa de Ranquines, que foi escolhida pelos órgãos públicos para prestar assistência a essa população pela experiência já conquistada com o amparo a moradores em situação de rua. Há duas casas de Ranquines que acolhem essa população. Uma no Centro e outra no Farol. A casa do Farol, onde a Gazeta de Alagoas esteve, possui cinco quartos e cada quarto abriga uma família Warao. São cerca de 30 venezuelanos que estão nela, sendo que 17 são crianças. No imóvel, eles permanecerão por seis meses, que é o prazo estipulado pelo projeto, podendo se estender por mais seis meses. Para Aníbal, o abrigo é um paliativo que tem ajudado as famílias, mas que é necessário uma política pública mais eficiente, com o propósito de trazer solução duradoura para o problema dos imigrantes. Algo que vá além de dar abrigo e comida. Eles querem autonomia, preservar suas culturas, e pretendem criar uma associação dos imigrantes.