Cidades
Familiares ainda buscam justi�a para mortes
RODRIGO CAVALCANTE ?Augusto hospitalizado?. Ao receber o telegrama com esta mensagem, no dia 6 de fevereiro de 1971, quando estava em Natal (RN), a então estudante de Economia e militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Maria Yvone Loureiro, soube que seu marido, o alagoano Odijas Carvalho, havia sido preso em Recife. Esse era um dos nomes usados por ele na militância política do PCBR. Alagoano de Atalaia, Odijas foi torturado durante vários dias em Recife até morrer no Hospital da Polícia Militar de Pernambuco, no dia 8 de fevereiro de 1971. Segundo o atestado de óbito fornecido pelo Instituto Médico Legal daquele Estado, a causa oficial da morte de Odijas teria sido uma ?embolia pulmonar?. Mas, como foi comprovado mais tarde, ele apresentava várias fraturas de ossos, ruptura nos rins, baço e fígado. Presa em Natal poucos dias após a detenção de seu marido, Maria Yvone só soube da morte do Odijas por acaso, quando um carcereiro do Dops de Recife ? para onde havia sido transferida ? disse ter reconhecido a foto dele num jornal. Para confirmar a morte de seu marido, Yvone se dirigiu a uma ala do Dops que abrigava militantes conhecidos do marido e começou a assobiar uma das canções preferidas de Odijas. ?Acho que foi um samba de Paulinho da Viola?, lembra Yvone. ?Do outro lado, os presos assobiaram uma canção com a palavra morte, e aí eu confirmei a informação?. Sem esconder a emoção ao recordar do marido, Yvone diz que a indenização foi importante como uma oficialização de que o Estado foi o responsável pela morte de Odijas. ?No momento em que houver clima para isso, acredito que os tribunais superiores devam julgar os responsáveis por essas mortes?, diz Yvone. Ela diz que governo Lula tem se mostrado sensível à necessidade da existência de maior transparência sobre os documentos destes casos. ?Não se trata de revanchismo contra as Forças Armadas, que têm um importante papel de defesa no país. Trata-se apenas de se fazer justiça para impedir que isso se repita?, diz. Punição Vereador pelo PT de Maceió, Thomaz Beltrão concorda com Maria Yvone. ?Com a indenização, o Estado já reconheceu que é culpado?, diz Beltrão. ?Mas agora é preciso ir até o final na busca de justiça?. O vereador tinha 12 anos quando sua irmã, a militante comunista Gastone Beltrão, foi morta no dia 22 de janeiro de 1972, oficialmente em uma troca de tiros com militares no Largo de Cambuci, em São Paulo. ?Só soubemos da morte dela meses após por meio de padres dominicanos?, conta ele. Thomaz diz que ainda sente saudades da irmã que, segundo ele, costumava fazer todas as suas vontades. ?A perda dela ainda é uma lacuna irreparável na família?, diz Beltrão. Segundo o vereador, o Estado tem a obrigação de impedir que torturadores que ainda estão vivos possam continuar livres, como se nada tivesse acontecido.