Cidades
Reeducandos se preparam para fazer a prova do Enem em Alagoas
No estado, 289 pessoas privadas de liberdade irão passar pelo exame em 10 e 11 de janeiro de 2023
Na preparação para realização do Enem, 289 reeducandos intensificaram a rotina de estudos para encarar as provas que ocorrem nos dias 10 e 11 de janeiro de 2023, nas unidades penais. Em Alagoas, o número de inscritos para o exame é 4% maior que o registrado no ano passado, quando 276 se inscreveram no Exame Nacional do Ensino Médio para Pessoas Privadas de Liberdade (Enem PPL). Atualmente, há no Sistema Prisional, 112 reeducandos cursando o ensino superior na modalidade EAD (Educação à Distância). O Enem PPL pode ser feito por presos dos sistemas fechado e semiaberto que tenham ensino médio completo.
Com aulas dentro do próprio Complexo Penitenciário, nos horários regulares da manhã, tarde e noite, os 286 reeducandos passam pelo processo de revisão com aulões e simulados. Com a proximidade do exame, a rotina de estudos está mais puxada. A reportagem da Gazeta de Alagoas esteve no Presídio Baldomero Cavalcanti nessa terça-feira e acompanhou um pouco da preparação dos estudantes.
A gerente de Educação, policial penal Cinthya Moreno explica como é a rotina de estudos dos reeducandos.
“Temos aulões ao longo do ano, hoje também teremos, mas na parte da noite, com os professores da Escola Estadual Paulo Jorge e também as maratonas preparatórias junto com o Depen (Departamento Penitenciário Nacional), do Ministério da Justiça. Funcionam com videoaulas ao vivo pelo Youtube, mas nem sempre a gente consegue colocar na hora para o aluno assistir, então, a gente grava essas aulas e passa para eles. A maioria dos 289 passam por essa preparação. Hoje, temos uma dificuldade apenas no presídio feminino porque está passando por reforma, mas assim que terminar, elas também terão direito”.
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As provas serão aplicadas dentro do próprio sistema prisional. O nível de dificuldade é o mesmo da versão regular.
“A prova acontece não só em Alagoas, mas em todo o Brasil. A prova também ocorre para o pessoal do socioeducativo, os menores, e toda movimentação é do Enem comum. A CesgranRio manda o pessoal deles para cá, tem a aplicação da prova, os envelopes vêm lacrados, tem os fiscais de prova, o tempo, tudo igual. O nível de dificuldade é igual, não tem diferença. O que difere do outro é o dia da prova porque é uma outra logística”.
Os presos que tiverem bom desempenho no Enem PPL poderão usar o resultado para inscrição em faculdades quando forem para o semiaberto ou estiverem em liberdade, enquanto a pontuação for válida. Os candidatos têm acesso ao Ensino Superior com programas como Sistema de Seleção Unificada (SISU), o Programa Universidade para Todos (ProUni) e Financiamento Estudantil (Fies).
A gerente explica que as aulas são ministradas por professores da rede pública estadual. “Todo sistema prisional tem uma escola do estado de referência e o nosso é a escola Paulo Jorge. Algumas universidades mandam alunos para nos ajudar. Isso ocorre tanto na preparação para o Enem como no ensino regular, já que a maioria dos privados de liberdade chegam analfabetos ou alfabetos funcionais”.
“A gente começa a tratar da base. Eu tenho alunos que estão na segunda pós-graduação e chegaram aqui sem saber ler. Para nós é muito gratificante, sensação de dever cumprido, porque você tem a chance de devolver à sociedade um pedagogo, um professor de letras, uma pessoa que pode trabalhar com o que ele adquiriu aqui dentro. É triste, porque a pessoa precisou chegar até o presídio para ter acesso a uma educação de qualidade, porém, se ele estivesse longe, talvez, eles não teriam essa oportunidade. Nas salas de aula eles têm lanche, professores capacitados, fazem a prova, não pagam para fazer o Enem, porque é obrigação do estado oferecer isso. Ele está preso, está cerceado o direito de liberdade, mas ele tem todos os outros direitos e você precisa entregar à sociedade uma pessoa melhor”, ressalta.
Atualmente, 112 reeducandos estão inseridos no ensino superior por meio do EAD. Em Alagoas, não existe, por enquanto, detentos estudando de forma presencial, porque a logística é a maior dificuldade.
“Se for autorizado pela Justiça, pela 17ª Vara e a gente tiver escolta, ele pode estudar presencialmente. Para ele ir estudar, é necessário que tenha um policial penal acompanhando”, disse Moreno.
Além da questão educacional, os PPL também podem ter a remição de pena por estudo. “Todo processo de escolarização, além de oferecer a questão da educação, ele tem a remição de pena, onde ele pode diminuir o tempo de prisão através dos estudos. Junto com a 16ª Vara Criminal, a gente conseguiu fazer a portaria da remição por leitura, que vai ajudar pessoas que não sabem ler, a ter a remição de pena. São escalas que a educação proporciona para os indivíduos saírem muito melhor do que entraram aqui. Mas não é fácil”.
“O interesse deles é imenso, eles são muito agradecidos. Eles dizem que se não estivessem presos, não estariam numa faculdade. É triste porque eles precisam estar aqui para se tornarem pessoas melhores”, finaliza.