Cidades
MATERNIDADE REAL: AS DORES POR TRÁS DO AMOR INCONDICIONAL
Mães relatam mudança de vida, sensação de solidão e necessidade de autocuidado após chegada dos filhos
O ditado popular “Ser mãe é padecer no paraíso” nunca fez tanto sentido como nos dias atuais. As mulheres que são mães estão cansadas, esgotadas e precisando de ajuda. Sem tempo para cuidar de si mesmas e abrindo mão das coisas que gostavam de fazer antes da maternidade, as mulheres têm chegado ao limite para conseguir cuidar dos filhos e dar conta de todos os outros afazeres. O que as motiva? O amor incondicional e único. Mas é preciso ficar atento aos problemas psicológicos que esse tipo de comportamento pode trazer.
Quando a maternidade chega, atividades simples do dia a dia, como um banho mais demorado, um café da manhã sem pressa, uma ida ao salão de beleza e uma saída para tomar um café com as amigas se tornam algo, muitas vezes, impensável. E quando alguma dessas coisas acontece, é resultado de muitos dias de planejamento para que tudo possa dar certo.
A pesquisa “Mommys e Saúde Mental”, divulgada pelo portal Mommys, em 2022, apontou que 62,7% das mães entrevistadas, quando questionadas sobre a saúde mental, afirmaram que têm sensação de vazio, sendo os sentimentos de sobrecarga e cansaço os mais mencionados.
Mulheres diversas, com condições financeiras, estilos de vida, profissões e famílias diferentes, mas que se unem pelo sentimento de exaustão misturado ao de realização pessoal. Algo realmente inexplicável. Isso é a maternidade.
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A enfermeira Vitória Lira é mãe de dois e se vê presa a uma “dura” rotina, como ela mesma descreve. Sem dormir bem há cerca de três anos, ela conta que gostaria de se priorizar mais e ter mais momentos para cuidar de si, mas ao mesmo tempo, sabe que Mateus, de 3 anos, e Benício, de 2, precisam dela para quase tudo e, por isso, quando não está no trabalho, está cuidando das crianças.
Ela ainda consegue um espaço para os estudos do mestrado e, para isso, conta com o apoio do esposo e também de familiares, uma rede de apoio necessária e que sempre esteve presente, desde o nascimento dos meninos, fato que a faz se considerar uma “mulher de sorte”.
Apesar da rotina movimentada, Vitória conta que, por inúmeras vezes, sentiu-se e ainda se sente sozinha, mesmo sabendo que tem com quem contar. “A maternidade é solitária. Me senti sozinha e ainda me sinto várias vezes. Parece incoerente se sentir só tendo filhos, mas é verdade. Por mais que se tenha pessoas dispostas a ajudar, tem coisas que ninguém pode fazer por você. É só você e Deus”, afirma.
Dormir até não querer mais é um dos desejos dela, algo considerado impossível diante da realidade atual. “Eu sinto falta de poder dormir a hora que eu quiser. Os meninos nunca dormiram bem desde recém-nascidos e, como eles são próximos, eu digo que estou há pelo menos três anos sem dormir direito. Gostaria de me priorizar e reservar um tempo pra mim, mas no momento, mesmo quando eu tiro um tempinho pra mim, os meninos estão junto. Tem dias que eu só sento pra fazer as refeições. E, às vezes, como em pé mesmo. Mas hoje eu compreendo que é uma fase”, conta, sem conseguir esconder o amor que sente pelas crianças.
Diante de tudo isso, Vitória confessa que já pensou em buscar ajuda psicológica para compreender melhor o momento que está vivendo desde que a maternidade chegou em sua vida, mas que ainda não tomou a iniciativa. “Já pensei diversas vezes em procurar ajuda psicológica. Tenho amigas que estão tendo essa ajuda e que já relataram que está sendo muito importante pra entender os processos pelos quais estão passando. Mas ainda não tomei a decisão de me permitir ser ajudada nesse sentido”, relata.
O fato é que a romantização da maternidade é algo ainda muito presente na sociedade, com as mulheres sendo julgadas o tempo inteiro por quem ainda não vivenciou essa experiência. Falar sobre o que a incomoda como mãe, querer cuidar de si mesma e pedir ajuda sempre que se sentir exausta não torna nenhuma mulher menos mãe, pelo contrário, mostra o quão forte e consciente ela é, diante dos seus limites e da realidade que está vivendo.
Vitória é uma dessas mulheres que se deparou com uma vida completamente diferente da que imaginou quando engravidou pela primeira vez: é a melhor coisa da vida, mas também a mais difícil.
“Eu imaginava a maternidade um pouco mais leve. Na minha realidade, ela é bem mais dura. A maternidade que a gente idealiza não tem filhos doentes, cansaço e exaustão materna e nem brigas no casamento”, pontua Vitória, que dá um sábio conselho para quem deseja ser mãe. “O conselho que eu daria é um que eu vi numa rede social: pra quem quer ter filho, tenha, pois é a melhor coisa da vida. Mas quem não quer, não tenha! Também é a coisa mais difícil da vida”, reflete.
‘TER UMA VIDA ALÉM DA MATERNIDADE É NECESSÁRIO PARA TODA MULHER’
A jornalista Luana Lamenha, de 40 anos, também teve a vida revirada ao avesso após o nascimento do Caio, hoje com 3 anos. Menos de um mês após a chegada dele, teve início a pandemia da Covid-19, e ela precisou se virar, junto com o marido, para dar conta de cuidar do bebê. Aprendeu tudo, literalmente, na prática.
Ela conta que uma das mudanças mais marcantes foi o fato de começar a ser responsável por outra pessoa, de forma que todas as decisões, desde o nascimento do Caio, passaram a ser pautadas por ele. Sobre o que sente falta? De ter a liberdade para fazer o que quiser ao longo do dia.
“Hoje faço tudo mediante os horários do meu filho, de levá-lo na escola, de arrumá-lo, de estar em casa na hora que a babá vai embora. Então essa liberdade de poder escolher, apenas pela minha vontade, o que vou fazer, é o que mais sinto falta”, pontua Luana, ressaltando que, atualmente, após a pandemia, conta com rede de apoio, mas como Caio se acostumou a ficar muito tempo com ela, em diversas oportunidades ele acaba querendo contar somente com o colo da mãe. Diante disso, o tempo para si mesma tem sido conquistado aos poucos, sendo ainda bem escasso.
“Estou tentando, cada vez mais, inserir esses momentos na minha vida. Então, depois de 3 anos, voltei a fazer atividade física pela manhã, que é muito importante para o meu bem-estar, mesmo que seja às 5h da manhã. Tem também meu momento de terapia, fundamental para mim e do qual não abro mão”, falou.
Luana conta, inclusive, que a terapia foi algo fundamental para ela. Primeiro vieram as sessões individuais e, depois, uma orientação de pais com psicóloga. Tudo para tentar fazê-la compreender melhor as fases comportamentais da criança e a vivência materna, na qual, a cada dia, surgem um novo desafio e uma nova culpa.
A culpa, inclusive, é um dos sentimentos mais presentes entre as mães. Elas se culpam por tudo. Se chega tarde em casa do trabalho, se não consegue comprar a guloseima que ele pediu, se reage impaciente diante de algo que a criança fez sem saber que era errado, se não tem tempo para fazer a comida preferida ou se esqueceu de comprar a fruta que ele comeria no café da manhã. Tudo é motivo.
E Luana sabe bem disso. “A terapia é fundamental para mim. Primeiro voltei para a terapia individual, e uma das grandes questões para mim é a maternidade. É se encontrar no meio de tantas mudanças, é saber lidar com sentimentos, até então, desconhecidos, e principalmente, com a culpa que nos acompanha o tempo todo no maternar. A culpa de sair de casa para trabalhar e deixar o filho chorando porque queria ficar com você; a culpa de chegar em casa depois de um dia de trabalho e estar cansada demais para brincar, a culpa por deixar na TV, porque não preparou a refeição mais saudável no dia, culpa, culpa, culpa. Então tudo isso despertou em mim uma necessidade de buscar ajuda, porque até então é tudo muito desconhecido. São sentimentos que nunca existiram. E lidar com o cansaço também, com a exaustão de ter que equilibrar tantos pratinhos no dia”, fala.
Luana considera que ter uma vida fora do maternar, focada nas atividades profissionais, é fundamental para a saúde mental de qualquer mulher. Se arrumar, sair de casa e encontrar outras pessoas é algo que fez a diferença, pelo menos para ela.
“No início precisei trabalhar em home office, e foi muito difícil para mim. Sempre gostei de sair, de me arrumar, de ver gente. Quando veio a maternidade junto com a pandemia, foi uma avalanche. Foram muitas mudanças que eu não imaginava, então foi muito difícil essa adaptação de tudo. Quando meu filho estava com um pouco mais de 2 anos, comecei a trabalhar fora de casa, e digo com total propriedade que foi a melhor coisa que fiz por mim e por ele. Ter uma vida além da maternidade é algo necessário para toda mulher, porque afinal de contas, não somos só isso”, afirma.
O conselho que ela dá para quem quer ser mãe? Que seja! Mas que esteja consciente de todas as mudanças que a maternidade trará. Muitas coisas são boas, mas não é só isso. “Não dá pra desistir no meio do caminho. Muitas vezes, você precisa estar inteira, mesmo se sentindo só metade. Mas ao mesmo tempo, é impressionante como, muitas vezes, você está vazia e só uma gargalhada do seu filho lhe preenche. Eu costumo dizer que meu filho me salva todos os dias”, conclui.
MÃE DE PRIMEIRA VIAGEM: A FILHA E UM NOVO OLHAR SOBRE O MUNDO
A engenheira civil Thayane Sales, de 33 anos, foi mãe de primeira viagem há pouco mais de quatro anos, quando chegou Beatriz, a Bia, que trouxe uma nova forma de fazer Thayane enxergar as coisas e as pessoas à sua volta, sem julgamentos.
Ela conta que, antes da chegada da Bia, só importavam as coisas que eram referentes a ela. “Eram os meus problemas, o meu tempo, a minha vida. Dia após dia eu cruzava com inúmeras pessoas nas ruas, no trabalho, em qualquer lugar, mas eu não as enxergava, porque eu só estava vivendo a minha vida e não ligava pra mais nada ou ninguém. A maternidade me trouxe um novo olhar e hoje eu realmente ‘vejo’ as pessoas ao meu redor, vejo diariamente relatos de luta, de superação, de conquistas. São pessoas que carregam uma bagagem, um sonho ou uma dificuldade que ninguém faz ideia do peso que têm”, afirma Thayane.
Mas Bia trouxe mais. Trouxe para a mãe de primeira viagem a prática diária da empatia. “Aprendi a ver uma criança chorando no supermercado, e não julgar, apenas entender aquele momento, sem apontar como ‘a criança mal educada’ ou como a ‘a mãe ou pai permissivos’, como muitos fazem, e eu também fazia”, diz.
Com pouco mais de 2 anos, Beatriz foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que fez Thayane parar e recomeçar do zero. Tudo para aprender sobre o assunto, buscar formas de ajudar no melhor desenvolvimento da Bia e compreender a nova realidade que passaria a ter a partir dali.
O diagnóstico trouxe com ele um sentimento de solidão, que já existia, mas ficou ainda mais forte. “Esse sentimento é bem frequente. Os primeiros anos foram bem difíceis. Foi quando o tempo foi passando e descobrimos o autismo da nossa filha. Tive que recomeçar do zero novamente. Aprendendo e pesquisando tudo sobre o assunto, de médico em médico, e formas de ajuda para minha pequena. E daí recomeçou a fase da solidão onde somos pouco entendidas, ouvidas e reconhecidas pela sociedade. É uma luta diária em vários sentidos, apesar de ter um marido muito presente, experimento de um misto de exaustão, amor, preocupação, admiração, e vários sentimentos juntos diariamente”, relata Thayane, que dedica grande parte do seu dia, de segunda a sexta, para acompanhar Beatriz nas terapias.
Thayane sente falta de trabalhar em tempo integral na profissão que escolheu, mas a prioridade dela é o acompanhamento e o cuidado com a Bia e a família como um todo. Hoje, ela trabalha de forma autônoma, porém não constante. Os momentos para cuidar de si também são raros e ela conta que gosta quando fica sozinha em casa, sem obrigações para cumprir, e consegue assistir a uma boa série na TV.
Recentemente, Thayane descobriu que sofre de ansiedade, o que aconteceu após várias crises. Diante do quadro, além do acompanhamento neurológico, ela também iniciou o acompanhamento psicológico há poucos meses.
Sobre a maternidade como ela realmente é, Thayane conta que não imaginava que ser mãe fosse algo tão prazeroso e, ao mesmo tempo, tão difícil. “A imagem que eu tinha sobre a maternidade antes de viver ela de fato, era só o que eu via na televisão, comerciais com famílias felizes, dos almoços de domingo. Vivenciei essa experiência linda de gerar uma criança dentro de mim, e isso é algo que palavras não conseguem traduzir. É a obra mais perfeita de Deus, algo que me mudou pra sempre. Um amor único e imensurável”, fala.
E completa: “Mas o que está por trás das fotos felizes das redes sociais, e as pessoas não falam, são as noites sem dormir, os vários saltos de desenvolvimento, a preocupação constante com aprendizado e alimentação, a escolha entre sair e tirar a criança da rotina, trabalhar ou não trabalhar?, ter tempo pra estar bonita e arrumada, cozinhar e limpar, ser esposa, ser amiga, entre tantas e tantas outras preocupações e cobranças da sociedade”, relata.
O conselho que ela dá a quem quer ser mãe é que procure se informar, ler e estudar sobre a maternidade, pois estar preparada faz toda a diferença. “A maternidade é uma das coisas mais maravilhosas e mais desafiadoras que vivi na vida! Então estar mais preparada e consciente é o que eu aconselho à futura mãe. Leia, estude, veja relatos positivos e negativos sobre a maternidade real. Saiba que vão ter momentos inesquecíveis e de muito amor e felicidade, mas que junto virão muitos problemas e adversidades com os quais vai precisar lidar. É importante saber também que sempre será julgada, independentemente de qual decisão tomar, então é bom estar consciente de que você estará fazendo o melhor por vocês”, completa.
Falar sobre o que sente e vivencia todos os dias, trocar experiências com outras mães e quebrar o silêncio é, muitas vezes, a melhor opção para mães que carregam o peso e todo o amor que nascem com a maternidade.
“Minha filha é o bem mais precioso que existe nessa vida. Tudo que vivemos juntas até aqui nos trouxeram ao lugar que estamos hoje, e sou muito grata a Deus por tudo. Porém, sim, me sinto sozinha algumas vezes e muito cansada, desanimada, e por muitas vezes desejando apenas o silêncio e a ausência de pensamentos. Ainda assim, não me faz amar menos minha filha ou me faz uma mãe ruim. Me faz apenas ser humana, e muitas mães acabam não assumindo ou falando esse fato em voz alta”, diz Thayane.
Sejam mães de primeira viagem, de dois, de três, de quatro. Não importam os números. Cada mulher vive sua maternidade à sua maneira. É, sem dúvida, um desafio individual. Mas se tem uma coisa que não deve mudar é o amor que faz cada uma delas levantar todos os dias, enfrentando seus medos e angústias, para dar o melhor para os filhos. O Dia das Mães é uma data importante não só para reconhecer essas lutas, mas também para que outras pessoas - que são filhas, mas não mães - reflitam sobre o que podem fazer por aquela mulher que enfrenta diariamente os desafios da maternidade. É importante ser suporte, apoio e ombro amigo. Ser rede de apoio. Isso realmente faz a diferença.