Cidades
V�tima do golpe ajudou no flagrante
A investigação que levou à prisão de Júlio Ney Lima do Nascimento começou na semana passada, quando o coordenador do Núcleo de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público Estadual (MPE), promotor de Justiça Luiz Vasconcelos, foi procurado por um empresário que se disse vítima de extorsão. Ele opera no ramo de prestação de serviços, mas não teve seu nome nem o de sua firma revelados. ?Nós o orientamos a continuar com as ?negociações?, para que pudéssemos monitorar os envolvidos?, informou Vasconcelos. Segundo o promotor, o empresário teria prestado serviços ao Estado no ano passado, mas não recebeu todo o pagamento, estimado em cerca de R$ 100 mil. Parte dos créditos acabou inscrita como ?restos a pagar?. O promotor informou que Júlio Ney, ao abordar o empresário, segundo lhe revelou, foi bem direto, dizendo-lhe que só teria seus pagamentos liberados se pagasse propina a ele e a seu grupo; caso contrário, ?talvez não viesse a receber nem este ano mais?. O MPE gravou voz e imagens das conversas ocorridas em duas ocasiões em que o empresário foi procurado por Júlio Ney. Vasconcelos fez questão de frisar que os três outros homens presos ontem com Ney ficaram no carro e não participaram diretamente da extorsão. Os três foram apontados pelo próprio Júlio como integrantes do grupo, mas sua participação ainda está sendo dimensionada pelo Ministério Público. Flagrante No entanto, uma outra autoridade estadual que acompanhou a investigação ? esteve presente no momento da prisão, mas pediu para não ter o nome revelado ? disse não ter dúvidas de que eles ?estão tão envolvidos quanto Júlio Ney. Não é possível que não soubessem o que estava se passando?. Depois que reuniu indícios do caso, o promotor foi informado de que o encontro para pagamento da propina havia sido marcado. Informou à polícia e foi dado o flagrante. Servidores envolvidos O promotor Luiz Vasconcelos disse que são fortes os indícios que apontam para o envolvimento de funcionários da Secretaria da Fazenda no episódio da extorsão. O principal deles é o fato de, no momento da prisão, Júlio Ney estar de posse de documentos que são exclusivos da secretaria. ?São documentos cujas cópias só podem estar lá [na Sefaz] ou no banco?, chegou a comparar o promotor. Ele não quis, entretanto, revelar de que tipo são tais papéis. Outro indício é o que aponta para o trânsito, o conhecimento e a influência que Júlio Ney demonstrou ter na tramitação interna da secretaria. ?Nós fizemos questão de apurar isso, para que não ficassem dúvidas. Não se trata apenas de um caso de ele deter informações privilegiadas?, informou o promotor. Nesse caso, Júlio Ney poderia, por exemplo, saber com antecedência sobre as liberações de recursos no órgão e fazer a extorsão aproveitando-se de um desconhecimento do empresário. Mas, em vez disso, a investigação do Ministério Público comprovou que os pagamentos devidos ao denunciante não constavam da relação de pagamentos previstos pela secretaria. Júlio Ney fez com que o débito fosse incluído na listagem e liberado. ?Antes do pagamento, porém, houve um problema na liberação; um impasse relacionado a recolhimento de impostos. Até isso ele previu e informou ao empresário ? disse que ia resolver e foi resolvido?, acrescentou Vasconcelos. (FF)