Cidades
Antrop�loga defende o ensino da cultura negra
FÁBIA ASSUMPÇÃO A professora de Antropologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Maria de Lourdes Siqueira, defendeu ontem o cumprimento da Lei 10.039, que obriga o ensino da história e da cultura do povo africano nas escolas de ensino fundamental e médio, para que o povo conheça o processo histórico de formação da sociedade brasileira. Segundo ela, o desconhecimento dessa história faz com que a discriminação que existe ainda hoje contra o negro aumente. Maria de Lourdes foi uma das palestrantes do primeiro dia da Conferência Estadual de Promoção da Igualdade Racial. O encontro, que se encerra hoje à tarde, com a presença da secretária especial de Políticas de Promoção da Igualdade Social, Matilde Ribeiro, vai servir para levar propostas de representantes de várias etnias (negros, brancos, índios, ciganos e outros) de Alagoas para a Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, em Brasília, de 30 de junho a 2 de julho. ?O preconceito é uma forma de diminuir o valor, a dignidade e a competência do outro; tirar a sua auto-estima para ele pensar que vale menos?, afirma Maria de Lourdes. Segundo ela, ?o discurso de que não existe discriminação racial no Brasil faz parte de uma política de segregação, de hegemonia das classes dominantes para sufocar a luta dos que lutam pelo fim das desigualdades?. Um levantamento feito pela Comissão de Promoção da Igualdade Racial da Central Única dos Trabalhadores (CUT) mostra que a raça negra continua sendo uma das mais discriminadas do País. De acordo com o estudo, o Brasil é o país com a maior população negra depois da Nigéria. Oitenta por cento dessa população vive em favelas. A renda familiar do negro é de R$ 689,00 contra R$ 1.400 do branco. A evasão escolar é 65% maior entre os negros, e 87% das crianças negras estão fora da escola. A pesquisa indica, ainda, que os negros têm 75% a mais de chance de serem demitidos. Entre os homens, o analfabetismo chega a 40,25%, contra 18,5 entre os brancos. Setenta por cento dos negros trabalham em serviços técnicos e 62% dos homens ganham até dois salários mínimos. Já 80,9% das mulheres ganham menos de dois salários mínimos. Maria de Lourdes disse, também, que o sistema de cotas para negros nas universidades chegou com um atraso de mais de 500 anos. ?Mas deve ser encarado apenas como uma medida provisória. Se tivéssemos sido tratados com igualdade desde o início, não precisaríamos hoje desse sistema de cotas?, afirma a professora, acrescentando que é preciso adotar também medidas que garantam a permanência do estudante na universidade e a sua formação.