Cidades
Sem-teto: a vida amarga nas ruas de Macei�
FERNANDO COELHO Pouco tempo depois que as últimas lojas do Centro fecham as portas, uma cena se repete diariamente: dezenas de moradores sem-teto se aconchegam em ?camas? de papelão e montam a morada a céu aberto no calçadão mais movimentado de Maceió. Ali, em meio ao desamparo das ruas e ao sossego inquietante da noite, eles dividem a esperança de dias melhores. A cena não é exclusiva do Comércio e se estende por praças, pontes, mirantes, marquises e até na porta de prédios públicos, confirmando o déficit habitacional crônico que flagela a cidade. A Secretaria Municipal de Habitação calcula que 110 mil maceioenses vivem em ?assentamentos subnormais? ? termo técnico usado para enquadrar os residentes de ruas, favelas, grotas ou moradias irregulares. Muitos vieram de municípios do interior, outros herdaram a miséria das favelas crescidas no entorno da capital. Homens solitários, famílias inteiras, jovens entorpecidos, crianças abandonadas e pequenos grupos de moribundos dividem os lamentos da sarjeta. Em comum, o sonho de um lar e um trabalho decente. No que depender dos órgãos governamentais, a solução para a falta de moradia parece um sonho longínquo e uma realidade ainda mais distante. O secretário Municipal de Habitação, Nilton Nascimento, diz que, de imediato, a secretaria tem engatilhado apenas um projeto, que contempla a construção de três mil unidades residenciais populares. ?Estamos tentando conversar com o governador para permutar algumas áreas, como o platô acima da grota Santa Helena, em Ouro Preto, e outro nos arredores do lixão?. O secretário reclama que a antiga gestão não deixou projetos de moradia. ?Estamos nos estruturando para começar a fazer nossos projetos?. A idéia da secretaria, diz ele, é implementar programas habitacionais em que as prestações terão preços reduzidos, entre R$ 20 e R$ 50. ?Se começarmos a dar casa de graça, no outro dia o morador está colocando placa de aluguel ou venda?, acusa. Sobre os sem-teto que moram em ruas e praças, Nascimento diz que a melhor solução é fazer projetos e convênios com a Secretaria de Ação Social e as prefeituras, para estimular a volta das pessoas para suas cidades de origem. A Secretaria Municipal de Ação Social deu um passo à frente e diz ter encaminhado, desde janeiro, 27 famílias para seus municípios. Para a secretaria, nem todas as pessoas que dormem nas ruas são sem-teto, e cerca de 90% delas possuem algum tipo de abrigo.