Cidades
Sem-terra: invas�o, bloqueio e amea�a de saque
Uma ?terça-feira vermelha?. Foi assim o dia de ontem para manifestantes dos principais grupos de sem-terra em Alagoas. Mais de 1.300 manifestantes, com bandeiras em punho, foices e enxadas, escolheram locais diferentes para realizar as manifestações. O Movimento dos Sem-Terra (MST) voltou a insistir na saída do superintendente do Incra, Gino César, e invadiu a ex-sede do instituto, arrombando portas e causando evacuação das pessoas que trabalhavam no Walmap, Centro da cidade. Logo depois, outro grupo do MST ocupou o pátio do supermercado Bompreço, o suficiente para a gerência temer saques e distribuir cestas básicas para acalmar os ânimos. No interior do Estado, o Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST) organizou mais um bloqueio de rodovia, que durou toda a manhã até às 16 horas, fechando os acessos a Murici, Joaquim Gomes e Porto Calvo. As reivindicações dos movimentos e ações são diferentes, e há contestação da invasão do MST pelo Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL). /// Ex-sede do Incra é invadida no Centro FÁTIMA ALMEIDA Após ocupar a nova sede do Incra na Praça Sinimbu ? onde estão acampados desde a segunda-feira ? integrantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) invadiram ontem escritórios do Edifício Walmap, na Rua do Livramento, no Centro de Maceió, onde funcionava a Superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Eles ocuparam a frente do prédio, arrombaram portas das salas onde ainda funcionam setores do Incra, e provocaram a evacuação geral do Walmap. Os elevadores foram desligados e mesmo os escritórios de empresas particulares e de profissionais liberais, diante da falta de condições de trabalho, dispensaram os funcionários e tiveram que fechar as portas. O movimento veio em marcha, da Praça Sinimbu, em direção à antiga sede do Incra, quando as lideranças tomaram conhecimento de que vários funcionários e parte da diretoria estavam trabalhando no Walmap. ?Tinha gente no quarto e no quinto andar, onde ainda funcionam escritórios do Incra. Pedimos para eles descerem?, diz José Carlos Silva, líder do MST. A ocupação durou até por volta das 10h30. Tumulto Se no calçadão, em frente ao prédio, a grande concentração de sem-terra já gerava tumulto, do lado de dentro a situação era de caos. Sujeira e água por todo lado, torneiras quebradas, pessoas amontoadas por todos os cantos. ?Os prejuízos ficam para nós, que não temos nada a ver com isso?, reclamava um condômino. ?Não tínhamos mais vivido esses problemas desde que a superintendência do Incra mudou-se para a Praça Sinimbu?, destacou o advogado Dorgival Lemos, que já foi feito refém de uma ocupação do movimento sem-terra ao prédio, em outra ocasião. Segundo ele, os prejuízos sempre ficam. ?Perdemos clientes e nosso trabalho é prejudicado. Hoje eu tinha uma reunião com uma cliente, mas ela não entrou. Para ter acesso ao meu escritório, tive que pedir permissão a pelo menos três pessoas?, diz ele. Dorgival está no edifício Walmap desde 1977, mas quer vender sua sala. ?Falta pulso do governo para conter os abusos?, reclama. É o que pensa também a arquiteta Ana Lúcia Omena. Ela tentou entrar com seu carro no estacionamento da Defensoria Pública, onde trabalha, vizinho ao Incra, na Praça Sinimbu, mas foi impedida. ?Eles pularam na minha frente com foices, enxadas, facões. Isso é um abuso. Eu tenho direito de ir e vir, como todo cidadão. Eles podem ocupar a praça, mas não podem cercear meu direito de chegar ao trabalho ou onde quer que seja?, reclamou ela. /// Bloqueio causa 10 km de engarrafamento FÁTIMA ALMEIDA CARLA SERQUEIRA Trabalhadores rurais ligados ao Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST) bloquearam rodovias em quatro municípios, na manhã de ontem. Um engarrafamento de 10km foi provocado pelos manifestantes, que queimaram pneus no local. Muitas pessoas tiveram que esperar por mais de quatro horas para seguir viagem. Os trabalhadores pediam a desapropriação de terras do INSS para fins de reforma agrária. As áreas estão localizadas, em sua maioria, em Murici, Joaquim Gomes, Porto Calvo e Flexeiras, onde os trabalhadores permanecem acampados há mais de 45 dias. ?Queremos uma definição em relação à Fazenda Brejinho, em União, de onde já fomos despejados oito vezes?, reivindicou Edmilson Miguel, um dos líderes do MLST. O bloqueio das rodovias começou às 8h. Apenas os carros que transportavam pacientes eram liberados para seguir viagem. Em outros casos, os motoristas tinham que esperar as liberações que ocorriam em intervalos médios de meia hora, para cinco carros, em cada sentido. A Polícia Rodoviária Federal acompanhou a movimentação, mas a ordem, segundo o policial Ranieri, que estava no local, era observar e cuidar para que não houvesse excessos. ?Na verdade, são eles que estão determinando a liberação ou não?, explicou. Desbloqueio As pistas só foram liberadas às 16h, após uma hora de negociação com representantes do Incra, com o juiz da comarca de União dos Palmares, José Neto, com o procurador de Justiça, Tácito Yuri, com o Centro de Gerenciamento de Crises da Polícia Militar e com a presença da Polícia Rodoviária Federal. Segundo líder do MLST, Marcos Antônio dos Santos, ?o clima já estava ficando tenso. Após uma hora de conversa, conseguimos marcar uma agenda de reuniões para encaminhar as desapropriações?, afirmou. No local da manifestação, duas reuniões ficaram agendadas para a próxima semana. Segundo o líder do MLST, Marcos Antônio, na próxima segunda-feira, dia 7, o Movimento vai se reunir com o Centro de Gerenciamento de Crises da PM, às 9h, no Centro, para mapear as áreas com mais riscos de conflitos entre proprietários de terras e trabalhadores. Outro encontro, no mesmo dia, está marcado para as 11h, na sede do Incra. ?Queremos a desapropriação de 29 fazendas do Grupo Nivaldo Jatobá, totalizando 23 mil hectares de terra?, disse Marcos Antônio. Segundo ele, os documentos da desapropriação já foram assinados e entregues ao Incra, e as negociações já duram três anos. /// Bompreço dá cestas para evitar saques FÁTIMA ALMEIDA REGINA CARVALHO No fim da manhã, mais um grupo de sem-terra ameaçou invadir o supermercado Bompreço, da Buarque de Macedo, a uma quadra do acampamento do MST, na Praça Sinimbu. Temendo possíveis saques, a direção do supermercado decidiu distribuir cestas básicas para os sem-terra. Enquanto as cestas básicas prometidas não chegavam, trabalhadores rurais descansavam em colchonetes, outros dormiam e as mulheres despejavam o resto de comida dos caldeirões nos pratos para servir aos manifestantes. Alguns foram à Praia da Avenida munidos de máquina fotográfica para registrar o momento. Depois do mar, água foi retirada de uma cisterna do Incra para que trabalhadores tomassem banho. Doações Por volta das 15h30, cerca de 100 cestas básicas foram ?doadas? pela direção do Bompreço aos manifestantes, que aguardavam nos fundos do supermercado a comida. A gerência do supermercado não quis se pronunciar sobre o assunto. ?Não tinha como ficar aqui sem ter o que comer. Essa comida já vai para o fogo, para o jantar?, ressaltou Hercílio Leandro, da direção estadual do MST. Segundo a direção estadual do MST, uma comissão de Brasília virá a Alagoas para tentar negociar com os líderes a desocupação da sede do Incra. ?Mas nós não queremos negociar, queremos a saída do Gino César?, afirmou Hercílio Leandro. Ele criticou o deputado estadual Paulo Fernando dos Santos (PT), o Paulão. ?Não queremos tirar o cargo do PT; que assuma outra pessoa independente do partido político, mas que tenha compromisso?, disse. Hercílio Leandro informou que enquanto a direção do Incra não for afastada, eles continuarão acampados no local. ?Enquanto o Gino continuar à frente do Incra nós vamos ficar aqui ocupando a sede?, desafiou o líder do MST. Briga política O superintendente Gino Cezar disse à GAZETA que já sabia com antecedência da manifestação e que ela teria sido planejada ?e discutida em uma reunião com o ex-superintendente [Mário Agra] e a informação vazou?. O ex-superintendente Mário Agra considerou ?ridícula e despropositada? a afirmação de seu sucessor, de ter articulado a ocupação do órgão pelos trabalhadores rurais ligados ao MST para exigir sua destituição do cargo. ?O MST não é massa de manobra?, reagiu Mário Agra. Ele assegura que há muito tempo não tem contato com os movimentos. ?A verdadeira ameaça está na inabilidade [de Gino] em lidar com o exercício da função?, conclui Mário Agra. O presidente nacional do Incra, Rolf Hackbart, em nota oficial, divulgada no começo da noite de ontem, reiterou apoio à atual superintendência do Incra em Alagoas e descartou a possibilidade de substituições. Ele disse ainda que só negocia com os sem-terra ligados ao MST depois da desocupação do prédio, no centro de Maceió.