Cidades
MST promete novas a��es contra o Incra-AL
BLEINE OLIVEIRA O Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) promete complicar ainda mais a vida do superintendente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Alagoas, Gino César, com a chegada, hoje, de mais famílias integrantes do movimento espalhadas pelo interior do Estado, para o acampamento na Praça Sinimbu, no Centro de Maceió. De acordo com o MST, no acampamento já estão cerca de 3 mil pessoas e o movimento se organiza para duplicar essa quantidade, trazendo ?a companheirada toda, se for necessário?. O avanço do MST sobre a capital só vai acabar, garante José Roberto Silva, da coordenação nacional, quando toda a atual administração do Incra-AL for substituída. Eles querem a saída do superintendente Gino César, do chefe da divisão administrativa, Marcos João, do ouvidor agrário Valdevan Fernandes e do chefe de gabinete João Duda. A ?companheirada? a que se referem os dirigentes do MST representa cerca de 45 mil pessoas, entre adultos e crianças, vindas de todo o Estado. Em Alagoas, diz José Roberto, o movimento tem cerca de 6 mil famílias acampadas e 3 mil assentadas. ?Eles não pensem que vão mangar da cara da gente?, avisou José Roberto. No Palácio Ontem de manhã, os sem-terra foram ao Palácio dos Martírios pedir apoio ao governo. Conseguiram marcar para amanhã, às 16h, uma audiência com o governador Ronaldo Lessa. ?Não há possibilidade alguma de desocuparmos sem mudança na direção do Incra?, disse José Roberto à comissão formada por representante da OAB-AL, CUT e Comissão de Gerenciamento de Crises da Polícia Militar, com quem os sem-terra se reuniram à tarde, na sede da Ordem dos Advogados. Após a reunião na OAB, onde apresentaram um relato sobre fatos que motivaram a decisão de ocupar a sede do Incra, os líderes do movimento definiram as ações que serão executadas hoje. ?Não vamos ficar quietos. Teremos ação todos os dias, até que a questão seja solucionada?, anuncia José Roberto. A mobilização do MST de Alagoas contra a atual administração do Incra no Estado é, admite o líder sem-terra, uma ação política. O movimento, que há mais de 20 anos luta pela implantação da reforma agrária, acusa a tendência petista Democracia Socialista (DS), à qual Gino César é ligado, de pretender ?esfacelar o MST?. Dentro do Partido dos Trabalhadores, com o qual mantém uma aliança histórica, o MST esteve sempre mais próximo da DS. ?Mas agora essa aliança está desfeita. A intenção deles é desmoralizar o MST e isso não vamos aceitar?, afirma José Carlos, integrante da direção estadual. Segundo ele, a relação política com a tendência petista acabou, e ?eles agora serão tratados como inimigos?. /// ?Só não houve derramamento de sangue graças à paciência do MST? O embate político pode assumir proporções ainda maiores e atingir lideranças petistas, como o deputado estadual Paulo Fernando dos Santos. Ele é apontado pela direção do MST como responsável por todas as ações destinadas a enfraquecer o movimento. ?Paulão é o grande responsável pelo que está acontecendo no Incra?, afirma José Roberto. O MST deixou claro à comissão de negociação reunida na OAB que os problemas no campo podem se agravar e gerar violência. ?Há risco de derramamento de sangue, que não ocorreu até agora graças à paciência da direção do MST?, afirma o coordenador nacional. Além de reclamar que vem sendo preterido em projetos que viabilizam recursos para os sem-terra, o movimento acusa a direção do Incra de fomentar a discórdia entre as quatro organizações que lutam pela terra em Alagoas. ?Eles orientam ocupação de áreas que já são nossas?, reclama José Roberto, citando como exemplo as fazendas Buenos Aires e Santa Rita, em Maragogi. Essas áreas são reivindicadas pelo MST desde 1997, ?mas agora o Incra quer que a gente divida com o MLST?. Outros fatos relatados dizem respeito à construção de casas e à liberação de verbas para projetos nos assentamentos. O MST quer autonomia para construir um modelo próprio de moradia, mas a direção do Incra insiste em que as casas sejam construídas por empreiteiras. ?Não aceitamos porque nossas casas são maiores e melhores. Nós gastamos R$ 3,5 mil, enquanto eles gastam R$ 5 mil numa casa que em três meses está rachando?, declara José Roberto. Uma comissão do MST-AL estará hoje em Brasília para uma reunião com a direção nacional do Incra. O movimento se recusou a ser ouvido com o superintendente Gino César e seus assessores.(BL) /// ?Incra só muda dirigente por improbidade? FELIPE FARIAS A direção nacional do Incra não cogita atender à principal reivindicação dos sem-terra que ocupam Maceió desde a última segunda-feira ? a exoneração dos atuais dirigentes locais do órgão ? e reafirmou à superintendência em Alagoas que só deve negociar os outros itens da pauta com a desocupação dos prédios onde funcionam o gabinete, na Praça Sinimbu, e os setores técnicos, no edifício Walmap, na Rua do Livramento. Essas foram algumas das orientações passadas ao supe-rintendente Gino César Menezes, que até ontem esteve em Brasília, onde se reuniu com representantes da direção nacional do instituto. ?O Incra se dispõe a debater todos os itens técnicos da pauta, como processos de aquisição de terras e liberação de créditos, mas troca de equipe não se discute. Esse assunto o governo federal entende que é de atribuição privativa sua. Só se muda a equipe dirigente de uma supe-rintendência estadual por acusação de improbidade administrativa, o que não é o caso aqui?, afirmou o superintendente, que retornou a Alagoas no fim da tarde. Os cerca de 2,5 mil trabalhadores rurais ligados ao MST (estimativa da direção do movimento) que chegaram a Maceió na última segunda-feira e ocuparam o prédio onde fica o gabinete do superintendente, na Praça Sinimbu, levavam uma pauta de reivindicações que inclui itens como a desapropriação de áreas reclamadas para a reforma agrária. Reunião em Brasília Em Brasília, o superintendente Gino César teve reuniões com a direção do Incra e do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), ao qual o órgão está vinculado. ?Eles se dispõem a realizar uma reunião amanhã [hoje] com a presença MST e do MDA?, informou. O encontro serviria também para negociar a desocupação do prédio do Incra em Maceió. Caso não haja avanço, ele diz já ter sido decidida a medida a ser adotada: a procuradoria jurídica do órgão entrará na Justiça Federal com um pedido de reintegração de posse do prédio. ?Não é uma escolha nossa; é uma decisão nacional do órgão. Aqui, esse problema era tradicionalmente resolvido pela negociação, e é o que esperamos?. Ele rebateu as acusações de beneficiar alguns movimentos em detrimento de outros. ?Dos R$ 3,5 milhões de recursos disponíveis para a reforma de casas em assentamentos, R$ 1,4 milhão, ou 42%, foram para associações ligadas ao MST. E dos R$ 2,9 milhões para assistência técnica, R$ 700 mil vão para uma prestadora de serviços indicada pelo movimento. O que existe é uma disputa entre eles. Antes, não havia recursos; quando esses apareceram, começou a disputa?.