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Transposi��o traz risco de novos apag�es no NE
MÁRIO LIMA A geração de energia na Região Nordeste deve ficar profundamente afetada, com risco de novos apagões, caso o projeto de transposição do Rio São Francisco seja cumprido à risca. ?O próprio relatório do Ibama sobre a transposição inclui os riscos da geração de energia, mas não aponta soluções?, afirma o pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e um dos maiores especialistas brasileiros em recursos hídricos e agroecologia, engenheiro agrônomo João Suassuna. Em entrevista exclusiva à GAZETA, Suassuna fala do cenário de incertezas do projeto de transposição do Velho Chico, que para ele já está com o potencial gerador de energia ?praticamente esgotado?. ?Por incrível que pareça, houve o reconhecimento de que a transposição vai afetar a geração de energia no Nor-deste, mas mesmo assim o projeto foi considerado ambientalmente viável?, ressalta Suassuna. Em outras palavras, ele diz que o rio está perdendo a luta. ?Caso a transposição seja realizada, é possível que o São Francisco venha a ter o mesmo destino do Rio Colorado, nos Estados Unidos, que submetido à intensa transposição de suas águas, já não vai mais até o mar. O seu grande delta é, atualmente, uma vasta planície seca e salgada?. /// - Qual o impacto e conseqüências do projeto de transposição, quanto à vazão e à operação das seis hidrelétricas de grande e médio portes, sobre o próprio Rio São Francisco e a população ribeirinha? - A questão da geração de energia é um dos pontos principais, acerca dos quais nos posi- cionamos contrários ao projeto de transposição. O Rio São Francisco é responsável por mais de 95% da energia gerada na região. Possui um potencial gerador estimado em cerca de 10 mil MWh (incluindo o parque de termelétricas), que por sua vez gera anualmente cerca de 50 milhões de MWh para o atendimento das demandas da região. Com essas características e com o crescimento atual da demanda elétrica, estimado em 6% ao ano, prevê-se para o setor elétrico a necessidade de dobrar, nos próximos 12 anos, a geração de energia no Nordeste para satisfazer suas demandas, ou seja, em 2017 teremos que produzir, necessariamente, cerca de 100 milhões de MWh. É nesse cenário de incertezas, com o potencial gerador do rio praticamente esgotado, com o rio dando sinais de esgotamento (não podemos nos esquecer da mais séria crise energética de nossa história, em 2001), e com riscos hidrológicos evidentes para se transportar energia de outros centros geradores (em 2001 a usina de Tucuruí também racionava sua energia em 20%), que se pretende transpor as águas do Rio São Francisco para o abastecimento de 8 milhões de pessoas. Seguramente, isso não será possível sem antes se pôr em risco os investimentos já realizados no setor elétrico nordestino, estimados em cerca de US$ 13 bilhões. - Existe algum trabalho sobre a relação hidrelétricas x transposição? O Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima) do Ibama prevê alguma medida quanto às hidrelétricas que cortam o Velho Chico ? Três Marias (MG), Paulo Afonso (BA e AL), Sobradinho (BA), Moxotó (PE), Itaparica (BA) e Xingó (AL)? - O EIA-Rima incluiu no rol de vetores de risco do projeto as questões da geração de energia, mas não apontou alternativas para solucionar os problemas existentes. Por incrível que pareça, houve o reconhecimento de que a transposição vai afetar a geração de energia do Nordeste, mas, mesmo assim, o projeto foi considerado ?ambientalmente viável?. - Uma dos questionamentos apontados, já em 1983, pelo Instituto Miguel Calmon, diz que o projeto de transposição esquece, por exemplo, que ao retirar águas do leito do rio que alimentam suas hidrelétricas, simultaneamente passam a consumir um volume impressionante de quilowatts nas futuras eletrobombas destinadas às elevatórias das águas desviadas. Essa energia seria equivalente ao consumo de algumas cidades ribeirinhas. Estudos demonstram que para cada metro cúbico por segundo retirado do rio, deixam de ser produzidos no final de cada ano cerca de 22 milhões de KW, o suficiente para abastecer de energia elétrica uma cidade de 35 mil habitantes. Esse seria o principal problema? - O problema que vislumbramos nesse ponto é que o atual projeto de transposição vai demandar volumes de até 127 m³/s. Seguindo o raciocínio ?volume retirado versus produção de energia?, serão 127 cidades, com população de 35 mil pessoas, que deixarão de ser energizadas a cada ano no Nor-deste. Se considerarmos, para cálculos, a vazão média de 63,5 m³/s, prevista na transposição, que corresponde a 23,4% da vazão alocável menos o uso atual consuntivo (360-92 = 269 m³/s), e a 3,4% da vazão regularizada de Sobradinho (1.815 m³/s determinados na foz), a potência instalada no conjunto (cerca de 9.000 MW após Sobradinho) é reduzida proporcionalmente de 3,4%, isto é, de 313 MW. Acrescentando-se aí a potência instalada para elevação desta vazão de 63,5 m³/s a 165 m, que corresponde (somente no Eixo Norte da transposição, em Cabrobó, abaixo de Sobradinho), aproximadamente a 66% do primeiro dado, tem-se 313MW (potência instalada perdida nas hidrelétricas) mais 207 MW (potência instalada necessária à elevação) igual a 520 MW. Esta potência equivale a 1,31 da potência instalada na hidrelétrica de Três Marias (396 MW) e a 1,18 da potência instalada em Moxotó (440 MW), numa conjuntura de escassez de energia, o que invibializa a transposição em termos energéticos. - As secas periódicas também trazem problemas? - A represa de Sobradinho, principal responsável pela regularização da vazão do Rio São Francisco, recebe água de sua parte alta, de novembro a abril, e utiliza o volume acumulado, regularizando a sua vazão, de maio a outubro. Ocorre que Sobradinho verteu (sangrou) em 1997 e voltou a verter em 2004. O que ocorreu com o seu regime hídrico durante esses sete anos? Houve secas sucessivas, em 1999 o Nordeste já importava 800 MW (15% do seu consumo elétrico) da usina de Tucuruí, localizada na região norte do País. Em 2001, o Nordeste amargou uma crise energética nunca vista na sua história, na qual as autoridades tiveram que se valer dos feriadões para não ocorrerem os apagões e em 2003, o parque de termelétricas foi acionado, auxiliando as hidrelétricas no atendimento às demandas da região. Numa avaliação feita por hidrólogos, em reunião promovida pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) no Recife, em agosto do ano passado, chegou-se à conclusão de que a represa de Sobradinho, a cada 10 anos, enche em apenas 4, ou seja, a represa enche em 40% dos casos. - A construção de Xingó provocou uma redução da vazão do rio, de tal modo que o mar, sem encontrar resistência da antiga força das águas, vem aos poucos penetrando rio acima com a crescente salinização da água. Podemos dizer que realmente a salinização do Velho Chico é irreversível? - Esse é um problema sério e de difícil solução. Ao se projetar uma represa visando à geração de energia, é necessário que haja um projeto estruturador, com alternativas para a solução dos problemas causados na ictiofauna do rio. As espécies de piracema, por exemplo, estão desaparecendo do rio, devido à impossibilidade que têm de fazer seu trajeto natural de subida das corredeiras, para a realização das desovas. As represas foram construídas nos locais em que, antes, havia corredeiras. Ademais, as águas no interior das represas tiveram a turbidez e a temperatura modificadas (devido ao depósito de sedimentos), confundindo a fisiologia das fêmeas e abortando as desovas. Ainda com relação a essas questões, o sistema Chesf, após a construção das represas, regularizou a vazão do São Francisco. Esse aspecto fez com que começassem a surgir críticas muito fortes, por parte dos que habitam as localidades ribeirinhas, os quais alegam que o rio está correndo com pouca água. Isso despertou o imaginário das pessoas no sentido de começar a entender a razão da captura de peixes de espécies marinhas, como o camurim e o xaréu, em localidades distantes do estuário do rio, como vem ocorrendo no município de Porto Real do Colégio, a aproximadamente 100 km de sua foz. Ora, se o peixe de água salgada consegue adentrar a uma distância de 100 km do seu habitat natural, é porque os níveis de sal nas águas do São Francisco estão tão elevados que possibilitam a formação de um ambiente favorável à sobrevivência de tais espécies. Diante desse fato, está nos parecendo que as incursões das águas do mar para o interior do rio estão sendo maiores do que as incursões naturais das águas do rio em direção ao mar. Em outras palavras, o rio está perdendo essa luta. Portanto, caso a transposição seja realizada, é possível que o São Francisco venha a ter o mesmo destino do Rio Colorado, nos Estados Unidos, o qual, submetido à intensa transposição de suas águas, já não vai mais até o mar. O seu grande delta é, atualmente, uma vasta planície seca e salgada. - Outro grave problema é a inexistência de saneamento básico das cidades ribeirinhas, com o lançamento no rio de dejetos humanos. Há projeto para sanear essas cidades? - É outro problema grave que necessita de soluções urgentes. A Grande Belo Horizonte, por exemplo, despeja seus esgotos (domésticos e industriais) nos rios das Velhas e Paraopeba, dois importantes afluentes do Rio São Francisco, poluindo suas águas com coliformes fecais e metais pesados, elementos extremamente nocivos à saúde das pessoas. Essas questões estão previstas para serem solucionadas por meio do projeto de revitalização da bacia do rio, mas pelo que foi orçado em 2005 para esse projeto, cerca de apenas R$ 100 milhões (10% do que foi alocado para o projeto de transposição) é de se supor que essas atividades não estão recebendo a devida prioridade do governo federal para serem realizadas. - Já se compara a transposição com um processo de transfusão sanguínea, só que o doador já é um doente em profundo estado de anemia. Como o senhor vê essa comparação? - Não resta dúvida de que existe um indesejável risco hidrológico no Rio São Francisco que não permite, no momento, a retirada dos volumes necessários ao atendimento das demandas existentes no projeto. É de fundamental importância que se inicie, primeiro, a revitalização da bacia do rio, garantindo a recuperação do seu ambiente natural para, no futuro, se terem as garantias hídricas necessárias ao atendimento das demandas do povo nordestino, com água de boa qualidade. Da forma como o projeto tem sido apresentado à sociedade, é realmente como se fazer uma transfusão em um doente em estado terminal. - Por último, como o senhor vê Alagoas no contexto na transposição? - Existe um fato curioso com relação a essa questão. Os estados que estão ao sul de Pernambuco (Bahia, Sergipe e Alagoas) são contra o projeto, porque são estados doadores das águas do São Francisco e, portanto, não têm participação efetiva no projeto. Já os estados localizados ao norte de Pernambuco (Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará) são a favor do projeto, pelo fato de serem estados receptores de suas águas. Pernambuco, que está localizado no divisor de águas do projeto, ainda não se definiu: está literalmente em cima do muro. A tendência desses estados que são contra o projeto (aí incluído Alagoas) é a de buscar compensações futuras para suas economias, tendo em vista terem ficado às margens do processo, embora doando as águas do Velho Chico.