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Promessa de bom sal�rio ilude canavieiros

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CARLA SERQUEIRA Promessas de bons salários e garantias de vistos na carteira de trabalho fazem muitos cortadores de cana deixarem Alagoas e embarcarem em viagens longas e desconfortáveis, quase sempre para o norte do País, para trabalharem em usinas, no período de colheita. No início da noite de terça-feira, dia 8, num trecho da BR- 104, que beira a cidade de União dos Palmares, seis cortadores de cana narraram à GAZETA a situação subumana e humilhante a que foram submetidos quando aceitaram uma proposta de emprego na Usina Alcopan, em Mato Grosso, em junho de 2003. Paulo Roberto da Silva, 31 anos, conta que aceitou viajar durante quatro dias, com mais 47 trabalhadores, acreditando que iria receber R$ 1 mil por mês, durante sete meses. ?Depois que saímos de Alagoas, nada do que foi prometido foi feito?. Segundo Paulo Roberto, um rapaz, identificado apenas como João, foi quem fez as promessas. ?Ele é pago pela empresa para reunir os trabalhadores, recolher as carteiras de trabalho e fazer as promessas. O trabalho dele acaba quando a gente deixa a cidade?, declarou. Este é o ?gato?. João teria prometido alimentação durante a viagem. ?Só tivemos um almoço pago pela usina. Para quem levou dinheiro, tudo bem, mas quem não levou, passou necessidade na estrada?, afirmou Roberto. Quem acompanhou o grupo na viagem foi outro empregado da usina, chamado Pedro Gato (ex-morador de Murici e hoje residente em Nova Olímpia, no Mato Grosso). Quando chegou à Usina Alcopan, o grupo se juntou a outros 400 trabalhadores provenientes de vários estados, entre eles Bahia, Minas Gerais, Paraná e Alagoas. Logo perceberam que as promessas não iriam se concretizar. ?Além dos salários, ficou combinado o pagamento de R$ 0,25 pelo metro de corte de cana. Quando chegamos lá, eles estavam pagando R$ 0,09?, contou Paulo, indignado com a humilhação. ?Eles ainda tiraram onda da nossa cara, dizendo que o preço do metro não era mais de 10 centavos e nem menos que nove?. No mesmo dia que chegou àusina, o grupo resolveu protestar e voltar para casa. *** ?Nunca passei por tanta humilhação? Durante os quatro dias em que permaneceram na Usina Alcopan, no Mato Grosso, os 48 alagoanos fizeram manifestações exigindo que a usina viabilizasse um transporte para que eles pudessem voltar para casa. Sem receberem atenção da usina, os trabalhadores resolveram bloquear a rodovia em frente à indústria. Cerca de 50 homens que trabalhavam na empresa há meses aderiram aos protestos. Segundo Edmilson dos Santos, um carro-pipa da empresa, que molhava a terra para evitar poeira, jogou água nos trabalhadores, aumentando a revolta do grupo. Depois de um tempo, quando um caminhão quis entrar na usina e foi impedido pelos manifestantes, um pistoleiro, segundo Edmilson, sacou uma espingarda 12 e apontou para o grupo, puxando o gatilho duas vezes. ?A nossa sorte foi que a arma quebrou coco [não funcionou], senão tinha morrido uns quatro?. Durante o episódio, Jorge Izídio da Silva, 31 anos, que sofre de pressão alta, passou mal e desmaiou, colocando sangue pelo nariz. ?Fui parar no hospital?, contou. Só no terceiro dia, a usina resolveu negociar com os trabalhadores. ?Ofereceram R$ 50 para cada e o ônibus para a gente voltar?. Paulo Roberto disse que nunca tinha sofrido tanta humilhação. ?Tiraram muita onda da nossa cara?. Na Usina Alcopan os cortadores de cana são submetidos a um carga de 12 horas de trabalho por dia. ?O almoço que chegava para a gente vinha azedo. Cansei de jogar quentinha fora?, revelou José Simões da Silva, que trabalhou seis meses na indústria, em 1987, e nunca recebeu nenhum centavo. ?Fui falar do meu dinheiro e disseram que se eu cobrasse, ia apanhar?. José Simões conseguiu fugir e voltou para União dos Palmares de carona. O grupo de Edmilson dos Santos está processando a indústria por danos morais e cada um pretende receber R$ 2 mil de indenização. *** Com fim da safra, trabalhadores buscam ocupação FÁTIMA ALMEIDA A movimentação já começou. A safra, em Alagoas, terminou mais cedo este ano por causa da seca, e muitos trabalhadores já caíram em campo em busca de outras áreas para trabalhar. Todos os anos a situação se repete: mal termina a safra por aqui, começa em outros estados, e para muitos trabalhadores é tempo de pegar a estrada. Esse é o círculo necessário para se manter empregado. Alguns agenciadores são funcionários de usinas, com carteira assinada e atividade definida. ?Sou cabo volante?, declara Severino Militão, que todos os anos leva trabalhadores para trabalhar no Estado do Mato Grosso. Ele faz isso há 10 anos. ?Não estou fazendo nada de errado. Pelo contrário, ofereço oportunidade de trabalho para quem não tem emprego. Essas pessoas saem daqui para um destino certo. A empresa me pede 50 trabalhadores e eu consigo. Este ano já levei 150. Todos eles, quando chegam lá, têm a carteira assinada, todos os direitos assegurados e um salário melhor do que recebem aqui?, argumenta ele. Outros se apresentam como empresários de turismo. ?Tenho uma agência de viagem. Faço pacotes de turismo. Não recruto trabalhadores. Eles compram a passagem e viajam. Não pergunto o que vão fazer nem quanto tempo vão ficar. Eles iriam de qualquer jeito. Se não fosse pela minha empresa, comprariam passagem em ônibus de linha?, diz o agenciador, conhecido como Cícero Técnico. ?Só que eles não são turistas, são trabalhadores viajando para trabalhar fora do Estado, sem passagem de volta?, rebate o procurador Antônio Oliveira. Trabalho degradante Embora Alagoas seja uma grande exportadora de mão-de-obra, não existem flagrantes recentes de mão-de-obra escrava no Estado, asseguram os representantes da PRT e da DRT. ?Existem usinas e outras empresas aqui, como lá, que tentam driblar os direitos trabalhistas, mas isso constitui, no máximo, trabalho degradante. As distâncias por aqui são muito pequenas. O trabalhador consegue sair de uma situação que não lhe satisfaz. Por isso não se caracteriza trabalho escravo?, esclarece o procurador Antônio Oliveira. Mas há trabalho degradante, em que o trabalhador se submete a situações aviltantes, aceita trabalhar sem contrato e sem garantias, sem equipamentos em jornadas exaustivas. ?Eles alegam que não têm alternativa para sobreviver, que preferem trabalhar sem contrato para receber no final do dia, que se livram dos descontos que afetam quem trabalha fichado?, diz o procurador. O perfil de quem se submete ao trabalho degradante é basicamente o mesmo: trabalhadores rurais, sem capacitação para outra atividade, analfabetos e, quanto mais excluídos do mercado do trabalho, por falta de experiência ou por baixa produtividade, mais vulneráveis. ?As pessoas mais velhas, ou jovens sem experiência, até menores, compõem esse grupo com mais freqüência?, diz Antônio Oliveira Lima. Nos últimos dois meses, cerca de 500 trabalhadores foram encontrados pela PRT, em usinas alagoanas, em condições ilegais de trabalho. Segundo a procuradoria, esses trabalhadores atuavam no corte de cana nas usinas Santa Clotilde, Cachoeira do Meirim e Uruba. Em todas as operações, os trabalhadores estavam sem carteira assinada, sem equipamentos de proteção individual e ganhavam menos de um salário mínimo.

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