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Comunidade � pobre, mas cultiva seus jardins

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FERNANDO COELHO Existem duas opções para chegar ao Pixaim: encarar uma caminhada de cinco horas a partir do Pontal do Peba ou fazer uma viagem de 15 minutos, de barco, saindo do povoado Potengi. Na chegada, as dunas dão as boas-vindas. Imponentes, elas se fazem e desfazem ao sopro constante do vento. Ao subir o primeiro morro de areia, o mar aponta distante, no horizonte, como um filete azulado. Logo abaixo, as primeiras casas são avistadas, distantes aproximadamente trezentos metros umas das outras. Cajueiros e coqueiros temperam a paisagem escaldada pelo sol a pino, amaciada por pequenas vargens que mantêm a vegetação remanescente do alagadiço acumulado durante os meses de inverno. Esta é a visão apreciada pela janela da casa de José Wilson Calisto, o Wilsinho. Ele é filho de ?seu? Dié e neto de um dos fundadores da comunidade, Manuel Calisto. O casebre no alto de uma duna e à frente de um cajueiro é, há dois anos, o lar da simpática figura de 45 anos. O feijão do almoço é esquentado em uma bóia trazida pelo mar e adaptada como panela. ?A vida não tá tão ruim, mas já foi muito melhor antes, quando tinha trabalho, fartura e eu plantava arroz?, lembra. A falta de ocupação e de oportunidades em Pixaim regula o cotidiano do lugar. Wilsinho acorda diariamente às cinco da manhã, faz o café e vai ?pensar no que fazer?: sair para pescar ou tentar arrumar um trabalho com os donos das fazendas de coqueiro e gado. ?Já tive momentos bons aqui. Tinha muita mulher, muito divertimento, hoje não tem mais. Quem foi embora não quer voltar porque não tem como sobreviver. Eu tenho vontade de sair?. Disposto, o descendente da família Calisto afirma que pega todo tipo de serviço e revela a especialização: ?Eu tenho uma profissão, sou servente. Trabalhei na construção do farol que fica no lado de Sergipe, na foz do São Francisco?, assegura. Fogão de barro Os jovens moradores da comunidade também não estão satisfeitos com a vida no povoado. ?Não tem nada de bom e tem tudo de ruim. Se eu pudesse, saía pra qualquer outro lugar?, afirma Talvane Calisto, 16 anos, que não foi à escola nesse dia porque chegou tarde da pesca. Para os mais velhos, o tempo parou e só teima em trazer saudade. Maria do Carmo mora com a neta. Teve dois filhos, mas um morreu. O outro ainda mora na comunidade. Mesmo com a idade avançada ? ?sei que tenho mais de 60 anos? ? ela ainda pesca camarão com um puçá confeccionado por suas mãos já calejadas. Em Pixaim, são as mulheres que fazem o fogão de barro instalado na cozinha. Dona Maria do Carmo mostra o seu com orgulho e faz o mesmo com a casa, de chão limpo e cômodos organizados. O peixe seca no varal sobre um jardim onde são cultivadas plantas e flores. ?Mesmo que a casa dure pouco, eles cultivam jardins. Um costume encontrado em todo lugar do mundo?, explica a antropóloga Madalena Zambi. *** ?Aqui no Pixaim não tem maldade? Na parte baixa do Pixaim, uma modesta casa, situada entre as enormes dunas e em frente a uma várzea, é a residência do morador mais antigo do povoado: Manuel Calisto, o filho, mais conhecido como ?seu? Dié. Sem deixar de lado o copo de cachaça e cercado da companhia dos netos, o ex-lavrador de arroz não trabalha mais, mora sozinho e não recorda a idade ao certo, ?mas deve ser uns setenta e poucos?, suspeita. Muitos dos seus dez irmãos, dez filhos e trinta e três netos nascidos no Pixaim já não moram mais por lá. A renda vem de uma aposentadoria e de algumas cabeças de gado e ovelhas. ?Falta muita coisa, não tem trabalho? reclama, mas, fiel às origens e acostumado com o modo de vida local, ?seu Dié? revela que, embora tenha uma casa em Piaçabuçu, prefere morar no povoado. ?Já estou numa idade dessa, para onde é que eu vou?? ? indaga. A generosidade é outra marca estampada no jeito pacato deste povo, sempre preocupado em oferecer algo ao visitante ? frutas, peixes ou mesmo um copo d?água. ?Aqui vocês podem entrar e sair que não tem maldade. Pode ter violência pra lá, mas por aqui, nunca vi?, diz ?seu Dié?. Numa casa mais acima mora Deda, 39 anos, sobrinha de Aladim, filha de João Trindade. Casada há 20 anos, nunca teve filhos e insiste em esconder o nome de batismo. A sobrevivência é garantida pela pesca na costa. Como não tem geladeira, o peixe é armazenado em um isopor com gelo comprado em Piaçabuçu. A alimentação da manhã é peixe torrado e cuscuz. ?Macaxeira e batata a gente compra sempre no sábado, quando tem dinheiro, mas só dura dois ou três dias?, diz. Deda aponta a casa ao lado, abandonada por uma família que não resistiu à falta de estrutura para permanecer no povoado. ?No meu caso é mais fácil, porque é somente eu e meu marido, a gente se aperta e passa. Mas tem pai de família que sofre para alimentar os filhos, muitas vezes tem que comprar fiado?, diz. Diversão para ela, só em alguns fins de semana. ?Quando sobra um dinheiro e a gente vai para Piaçabuçu. Ou então nas noites de lua. A gente dorme mais tarde, chega um parente ou um vizinho. Moro aqui porque sou obrigada?, revela.

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