Cidades
Com energia solar, mas sem eletrodom�sticos
FERNANDO COELHO A antropóloga Maria Madalena Zambi, professora do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas, desenvolveu sua pesquisa de mestrado sobre Pixaim. Ela descobriu o povoado há cinco anos e, desde então, vem visitando a região para conhecer sua gente e suas histórias. ?É uma comunidade muito especial. A areia é um mineral que recobre grande parte da superfície do planeta. Não é todo mundo que aceita viver na areia. E Pixaim aceitou viver assim?, observa. Segundo Madalena Zambi, durante a pesquisa foram feitas buscas exaustivas no Arquivo Público de Alagoas, no Instituto Histórico e ainda na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, mas nada foi encontrado sobre os primórdios da comunidade. ?Somente a partir de registros de memória oral a gente pode estimar um tempo de assentamento de aproximadamente cem anos no território?, especula. Maria da Paixão e Manuel Calisto foram alguns dos primeiros desbravadores a plantarem os pés sob as escaldantes areias do local. Eles formaram a família remanescente e que povoa quase todo Pixaim atualmente. ?Hoje, as pessoas que moram na comunidade são aparentadas, mas antes da queda no plantio do arroz, Pixaim chegou a ter 200 habitações?, explica a pesquisadora. Foi por causa da cultura do arroz em áreas banhadas pelo Rio São Francisco que pessoas de diferentes localidades ? como os povoados de Potengi, Mambaça, Flexeiras, Marituba, Brejo Grande e cidades como Neópolis e Penedo ? passaram a residir em Pixaim para cultivar o cereal em terras alugadas aos proprietários das fazendas no entorno do território. A partir da década de 1980, com a construção de barragens e da hidroelétrica de Xingó, o cultivo do arroz entrou em declínio. As alterações sofridas pelo rio ao longo dos anos diminuíram o pescado e o fluxo regular das marés de água doce que irrigava as lavouras. Atualmente, as famílias resistentes sobrevivem de atividades que em outros tempos eram complementares, como a pesca, a colheita do caju, do coco e a tecelagem de esteira de junco, esta última em escala reduzida. Não existem equipamentos comunitários como postos de saúde ou escolas. Eventualmente, um agente de saúde aparece para vacinar as crianças que estudam no povoado de Potengi ou em Piaçabuçu. Já houve escola na região; hoje, um tímido projeto da prefeitura leva um professor para ensinar os adultos da comunidade. As aulas são ministradas todas as noites, das 19 às 21 horas, na casa de um dos moradores. A penúria só não é maior porque a água é sempre abundante ? basta cavar uma cacimba de um metro para obter o líquido em condição ideal para o consumo humano. Sinais da modernidade, como placas de energia solar ao lado das casas, acentuam o contraste com a extrema pobreza. Como os moradores não possuem eletrodomésticos, a energia tem a exclusiva função de acender as lâmpadas das residências. O projeto Luz do Sol, fruto de um convênio com a Fundação Teotônio Vilela em parceira com a Ceal, foi a única ação social oferecida à população. Por falta de assistência técnica, os dispositivos funcionam precariamente e poucas casas iluminam as noites estreladas do extenso areal.