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O sonho e pesadelo de fazer a Am�rica

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CARLA SERQUEIRA Exibida pela TV GAZETA, a novela América, uma produção da Rede Globo, traz à tona a saga de brasileiros que deixam suas cidades e famílias e embarcam para outros países, alimentados pelo sonho de uma vida melhor, com trabalho, salário em dólar e vida de Primeiro Mundo. A história do alagoano Marcelo Quintella Florêncio, de 30 anos ? que está fora do Brasil desde 1997 ? é um exemplo desta busca. Seu relato pode ser confundido com o de milhares de brasileiros que emigram, a cada ano, para os Estados Unidos, para aperfeiçoar o inglês e terem, quando voltarem, mais chances no universo profissional competitivo e exigente. Marcelo Quintella não voltou mais para Alagoas. Hoje, depois de ter passado por Londres, Califórnia e Nova York, diz que pretende voltar um dia, ?mas ainda não dá para saber quando?. De férias na cidade natal, Marcelo falou sobre como é conviver com outra cultura, outro clima e como é ser brasileiro fora do Brasil. ?Hoje falo inglês fluentemente, mas no início foi um pouco difícil, porque a minha escola foi britânica e logo depois, fui morar nos Estados Unidos, onde a dicção é um pouco diferente?, explicou, ilustrando a diferença entre o português de Portugal e o português do Brasil. Marcelo contou com o apoio financeiro da família nos primeiros meses. ?Depois tive que trabalhar numa lanchonete para pagar meus estudos?. Atualmente, Marcelo vive em Buffalo, Nova York. ?Lá nós temos as quatro estações bem definidas. No inverno os termômetros chegam a registrar 18 graus abaixo de zero?, afirmou, dizendo que já está acostumado. ?Mas nasci em praia e sinto falta?, resumiu, dizendo que, quando pode, viaja para surfar na Califórnia. Arte em vidro Casado há três anos com uma americana ?que sonha em vir morar no Brasil?, Marcelo disse ter encontrado sua vocação em Nova York. ?Numa viagem que fiz para Poços de Caldas [Minas Gerais], aos 9 anos, pude ver o trabalho de designer em vidro e fiquei impressionado, mas não imaginei viver disso um dia?. ?Fiz o curso de Arte Fina, que tinha uma cadeira relacionada ao design em vidro, e me interessei. Nesta época, tive que trabalhar os dois horários para pagar os estudos?, contou, afirmando que nunca teve problemas com vistos. ?Consegui tirar a carteira de motorista e tenho CPF. Até agora, nenhum problema?, afirmou. Hoje, Marcelo estuda no Corning Museum Of Glass [Museu do Vidro], considerado o maior instituto do mundo em estudos em vidro, e pretende, no próximo verão [em julho, nos EUA] abrir para o público o estúdio que montou com amigos, onde exercita o design de taças e jóias. ?Devo a minha estabilidade a três elementos fundamentais: sorte, disciplina e ter decidido viajar na idade certa [23 anos]?, diz. ### PF: 3 mil passaportes em 2004 Em 2003, o Ministério das Relações Exteriores divulgou que cerca de 100 mil brasileiros emigram, todos os anos, à procura de melhores condições de trabalho no mundo. O número global de emigrantes brasileiros ultrapassa dois milhões. Deste total, estima-se que 33% estejam clandestinamente nos países de acolhimento. Segundo as pesquisadoras Ana Cristina Braga Marte e Soraya Fleischer, organizadoras do livro Fronteiras Cruzadas. Etnicidade, Gênero e Redes Sociais, publicado em 2003, pesquisar os brasileiros no exterior é um tema relativamente recente. Apesar de este fluxo migratório ter se acentuado nos anos 80, as primeiras pesquisas só apareceram na década de 90. Em Alagoas, a emigração também acontece em ritmo constante. O destino mais procurado é os Estados Unidos. Só no ano passado, de acordo com os dados da Polícia Federal (PF), 3.063 passaportes foram emitidos em Alagoas. Em janeiro de 2005, outras 340 pessoas solicitaram o documento, que serve de identidade em terras estrangeiras. De acordo com Glenn Hilley Falção Bezerra, especialista em Direito Internacional, a carteira de identificação do imigrante, o passaporte, só tem validade de cinco anos. O visto, que determina a permanência do estrangeiro no país de visita, tem validade variada, dependendo do objetivo da viagem: turismo, estudos, missão religiosa, dentre outros. ?Muita gente extrapola o tempo de permanência. E quando é descoberto, automaticamente, é deportado para o seu país. E quando não tem condições de pagar sua volta para casa, fica preso esperando a família mandar dinheiro. ### Alagoana sustenta família com dólares da Califórnia Para outras pessoas, o sonho americano se torna um pesadelo quando as economias são insignificantes, principalmente quando o tempo de permanência determinado pelo visto se esgota. Ana Carolina Soares, 30 anos, viajou aos Estados Unidos pela quarta vez, sempre com visto de turista ? que permite, no máximo, seis meses de permanência. Sua avó, Rosália Soares, vai fazer 80 anos em dezembro e torce para que a neta esteja em Maceió no dia do seu aniversário. ?Todas as vezes que ela vai, eu adoeço e passo uma semana com dor no estômago?. Segundo dona Rosália, Ana Carolina não tem curso superior e não conseguia emprego que cobrisse as despesas por aqui. Ela disse que sua neta foi criada por ela desde criança. ?Agora é ela quem cuida de mim?, frisou, orgulhosa. A neta de dona Rosália foi aprovada, em 2003, numa faculdade particular. Sem ter como arcar com a mensalidade de R$ 280, Ana Carolina desistiu do curso e resolveu se cadastrar numa agência de empregos dos Estados Unidos. ?A primeira viagem que ela fez foi aos 17 anos, num passeio turístico. De 2003 para cá, ela já voltou aos EUA três vezes?, afirmou dona Rosália. Da última vez que esteve no Brasil, Ana Carolina chegou doente dos Estados Unidos e 10 quilos mais gorda. ?Lá, eles [os americanos] comem muito rápido e tudo é enlatado. Carol chegou aqui bem mais gorda do que quando viajou e veio com problemas de nutrição?, relatou Rosália, afirmando que a ansiedade prejudicou a neta. ?Para disfarçar a solidão e a saudade, ela comia muito?. Economias Com o dinheiro que Ana Carolina economizou durante o tempo que passou nos Estados Unidos, segundo dona Rosália, deu para reformar a antiga casa da Rua Buarque de Macedo, comprar eletrodomésticos, pagar a escola das duas sobrinhas, durante um ano, arcar com os medicamentos da avó, que tem problemas no estômago, mas não foi suficiente para empreender em Alagoas. ?Ela resolveu voltar para melhorar o inglês e juntar dinheiro para se estabelecer por aqui quando voltar, abrindo algum negócio?. Ana retornou aos Estados Unidos no final de fevereiro e pretende estar de volta a Alagoas no final do ano. ?Para nunca mais voltar?, frisou dona Rosália. Hoje, Ana Carolina mora e trabalha na cidade de Tampa, no Estado da Flórida: no primeiro horário, como camareira num hotel, e no segundo, numa padaria. ?Lá ganha-se por hora. Ninguém trabalha em vão como aqui no Brasil?, afirmou dona Rosália, calculando que, por dia, a neta deve ganhar cerca de 64 dólares (CS) ### Migração ilegal pode trazer danos irreparáveis De acordo com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), a migração ilegal pode trazer conseqüências irreparáveis para quem se aventurar sem visto. Cada país possui uma legislação própria para tratar o estrangeiro, inclusive as condições nas quais os imigrantes podem trabalhar. Segundo Glenn Hilley Falcão Bezerra, especialista em direito internacional, o problema mais comum enfrentado pelos brasileiros é com relação ao visto. ?Existem vistos específicos para quem procura turismo, trabalho e estudo em outros países. Cada um determina o tempo de permanência que o viajante terá em território estrangeiro, mas é comum as pessoas ficarem mais tempo que o permitido?, disse Bezerra, explicando que quando são descobertos, automaticamente são deportados. Quando isso ocorre, o deportado tem também seu nome registrado num sistema, ficando proibido de retornar ao país visitado. Segundo o MRE, ?normalmente a pena para uma pessoa detida por estar trabalhando ilegalmente é a deportação ao seu país de origem?. Porém essa deportação não é imediata. Deve-se enfrentar primeiro um processo judicial. Depois, deve-se esperar que o Governo local tenha recursos para comprar a passagem de volta do deportado e também que haja vaga no vôo. Há casos em que o deportado aguarda, preso, vários meses antes ser mandado de volta ao Brasil. ?Alguns países possuem centros de detenção específicos para detidos por razões migratórias, mas em outros o imigrante pode ficar detido em prisões junto com delinqüentes comuns?. Os estrangeiros em situação ilegal também ficam desamparados com relação a direitos trabalhistas e previdenciários e se tornam reféns de indivíduos e empresas que os exploram por não disporem de meios legais para se defender. (CS)

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