Cidades
Relato mostra poder de fogo dos avi�es de guerra
FELIPE FARIAS Já o lado ?testemunho? reserva verdadeiras relíquias, como as imagens coloridas da pista de pouso e de cenas em Pisa, na Itália, incluindo duas que mostram a famosíssima Torre do Campanário ? a inclinada. Noutra, aparece a major alagoana Elza Cansanção, posando de quepe e jaqueta contra o frio no nariz de um bombardeiro B-52, numa daquelas bolhas de vidro e metal que alojavam os artilheiros e suas metralhadoras ? uma das muitas ameaças que renderam ao avião ser imortalizado como ?Fortaleza Voadora?. Só que, para os apaixonados mesmo, o melhor está nas fotos em preto-e-branco que mostram o dia-a-dia na base, reuniões que preparam missões e, sobretudo, sua execução. Os P-47 eram munidos de câmeras que, já naquela época, registravam o momento em que suas bombas, que chegavam a pouco menos de meia tonelada, atingiam o solo. Elas mostram pontes, campos e estradas; os alvos das missões, conforme a estratégia. A diferença é que, sob o argumento de que eram segredos militares, na época não chegavam ao conhecimento do público. Bem diferente de hoje, quando os ataques não apenas não são mais fotografados como só faltam ser apresentados ao vivo, em tempo real. Entre os documentos estão algumas citações de elogio das autoridades norte-americanas, responsáveis pelo comando das operações. Ainda assim, essa parte é como que um aposto no que o livro tem de mais volumoso: os relatos da campanha. Seja no formato de entrevistas de oficiais, de testemunho ?de próprio punho? ou resgatado da lembrança de Buyers, que, como oficial de ligação, era o elo entre os militares das duas nacionalidades. Munição E aí, para quem gosta de se deliciar com relatos de guerra, não falta munição, com a desculpa do trocadilho. Para ser fiel ao seu aspecto cronológico, o livro começa com a própria criação do então Ministério da Aeronáutica, no início da década de 40, durante o governo de Getúlio Vargas ? descrição que ficou a cargo do historiador e brigadeiro Nelson Wanderley. Ele mostra a conjuntura política da época e o clima de pioneirismo que envolveu a empreitada, tanto na esfera local quanto mundial. Afinal, como lembra, o Brasil não possuía mais que 200 pilotos, número insuficiente para defender o espaço aéreo de um país com essas dimensões ? o que dizer de ainda ir lutar noutro continente. ?Mas os brasileiros demonstraram que querer é poder?, relembra Buyers. Formado o grupo de pilotos que iria combater na Itália, era preciso treiná-los. Essa etapa foi cumprida na base norte-americana de Aguadulce, no Panamá, responsável pelo policiamento aéreo da região do canal, e onde os brasileiros receberam uma advertência nada amistosa dos instrutores. ?Essa é a primeira e última oportunidade para que vocês se preparem para enfrentar um inimigo calejado em guerras, feroz e que não perdoa falhas?. ### Lançamento do livro reúne veteranos e heróis da Segunda Guerra Mundial O lançamento do livro do major John Buyers foi cercado de pompa e circunstância. Parte dos pilotos do 1º Grupo de Caça estava presente, trazida por um avião da FAB, na companhia de familiares e de um médico. A Casa da Palavra foi o local escolhido para o reencontro, que, além da confraternização, teve direito a exibição de filmes da época, feitos pelos militares sobre as campanhas aéreas na Europa ocidental. ?Ele é sempre muito reservado ao comentar isso, tanto devido à postura de militar quanto pelo trauma que essa situação deve ter lhe causado?, contou Cristina Corrêa, filha do brigadeiro Othon Corrêa Netto, único alagoano a ser feito prisioneiro na Segunda Guerra Mundial. Segundo ela, o brigadeiro, que é natural de Viçosa e está com 84 anos, nunca concede entrevistas. Prova disso é que o último relato público que o brigadeiro fez do episódio foi há nada menos que 41 anos, numa série de reportagens publicada pela GAZETA DE ALAGOAS, na época em que ele foi designado comandante da então recém-criada Base Aérea de Brasília. Foi o próprio brigadeiro quem escreveu o relato, publicado em cinco edições da GAZETA, em 1964. Segundo a filha, que o acompanhou a Maceió na última quinta-feira, o brigadeiro só aceitou deixar o Rio de Janeiro, onde mora, porque se tratava do lançamento do livro do major John Buyers. ?Um encontro como este tem uma significação que vai muito além do que nós, que não estivemos lá, podemos apreender. Afinal, hoje eles podem se considerar duplamente sobreviventes: da guerra e da idade?, afirmou o advogado Ricardo Barros, sobrinho do brigadeiro e detentor das edições da GAZETA que trouxeram seu relato.