Cidades
Major aviador conta�aventuras da 2� Guerra
FELIPE FARIAS Depois de uma passagem pelo Brasil, o genial cineasta Orson Welles escolheu um título até certo ponto curioso para o documentário que fez sobre o País. A frase ?É tudo verdade? parecia traduzir, isso sim, a perplexidade do próprio Welles com o que o surpreendera por aqui. O título até que poderia se aplicar também a uma obra lançada esta semana, em Maceió, que retrata os feitos de um grupo de brasileiros que sobrevoou os céus da Itália numa época em que, às vezes, isso era feito sem a ajuda sequer de um prosaico rádio e, mesmo assim, combateu ? e venceu ? o maior conflito armado da história da humanidade. Esquadrilhas A formação militar certamente impediria o major John William Buyers (pronuncia-se ?baiers?) de usar algo menos formal. Tudo bem. O título sisudo ?A História do 1º Grupo de Caça 1943-1945? corresponde ao que a obra de 412 páginas se propõe: ser um relato histórico fiel e fonte de informações técnicas sobre as esquadrilhas que executaram centenas de missões de combate, abrindo caminho para libertar a Europa do nazismo, no final da Segunda Guerra Mundial. O hoje octogenário major Buyers, da reserva da Força Aérea dos Estados Unidos, que era na época oficial de ligação entre as tropas brasileiras e norte-americanas, vive na Utinga, nos arredores de Rio Largo, e justifica que sua pretensão era contribuir com um relato que eternize a memória daquela campanha, da qual, segundo ele, hoje restam vivos apenas oito pilotos. O lançamento reuniu alguns, além de outros veteranos, trazidos num avião da FAB na companhia de parentes, por causa da idade. Entre eles, Othon Corrêa Netto, primeiro comandante da Base Aérea de Brasília e único alagoano a ser feito prisioneiro de guerra num campo de concentração nazista, em Nuremberg. Seu relato foi publicado em cinco edições pela GAZETA DE ALAGOAS, em 1964, cujos exemplares são guardados até hoje pela família. Do livro de Buyers, não se espere fluidez literária. Para os amantes do tema, isso é apenas um detalhe, compensado pela farta quantidade de informações históricas e técnicas, ilustradas pelas 614 fotografias da época e emoldurado pelo tom de relatório militar dos episódios: dos treinamentos que precederam o embarque para a Europa ao testemunho dos que foram abatidos e aprisionados. Além, é claro, daquele tempero fundamental que só está presente quando a ?estória? é contada por quem realmente ?esteve lá?: é tudo verdade. Curiosidades Para quem sente atração pelo tema, independentemente de ter vivido na época, o livro do major Buyers é repleto de curiosidades. Entre elas, estão reproduções das insígnias das unidades militares norte-americanas que atuaram na região, como a 12th Air Force (12ª Força Aérea), cujas unidades serviram de base para as operações; de medalhas, documentos, diagramas de instalações e aeronaves, como o P-47 pilotado pelos brasileiros, e mapas da época. As mais atraentes, porém, são, de longe ? além do relato, claro ? as fotos do acervo pessoal de Buyers e que ele conseguiu de contemporâneos da campanha. Há aquelas de comandantes nas poses convencionais ? até uma de Franklin Roosevelt, então presidente dos EUA e comandante-chefe das tropas aliadas ? e uma infinidade de pequenas, só de rosto, acompanhando as fichas dos militares que destacaram no 1º Grupo de Caça. Essas compõem o lado, digamos, relatório do livro.