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Os sem-fam�lia no Manic�mio Judici�rio

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FÁTIMA ALMEIDA As terapias no Centro Psiquiátrico Judiciário do Estado (o antigo Manicômio Judiciário), segundo o diretor psicossocial Tyrone Gomes, são constituídas de apoio, evolução psicológica, grupos operativos e terapia ocupacional, onde os pacientes desenham, pintam, fazem trabalhos manuais, participam de jogos, trabalham a expressão corporal e cantam no coral. Ainda faltam muitas etapas. As camas, por exemplo, são em alvenaria, modelo desaconselhado pelo Ministério da Saúde. ?Vamos tentando adaptar, mas não é fácil. Na cama é mais fácil eles utilizarem a madeira ou esconderem objetos embaixo, o que não acontece em alvenaria. Mas já começamos a mudar. Pelo menos em duas alas as camas já são de madeira?, diz Tyrone. Abandono O centro existe há 26 anos e entre os seus pacientes, alguns participam dessa história desde o começo. São pessoas que perderam a referência lá fora. A família, às vezes, ignora ou abandona e o paciente vai ficando, mesmo quando liberado pela Justiça. Dona Deusdina Rodrigues é um exemplo disso. Envelheceu no Manicômio, onde vive há mais de 20 anos. Ela diz que tem muitos familiares em Canapi, mas segundo a diretoria, nunca foi encontrado ninguém. Ela fala com a identidade de uma vida. ?Eu gosto daqui. Só não gosto de gente ruim?. Das boas lembranças mais recentes, ela fala com alegria de um passeio que fez, junto com outros 40 pacientes, para a praia. Foi a primeira vez que viu o mar. ?Queria ir de novo, mas demora muito?, diz ela. Tem pelo menos seis pessoas na situação dela. Foram liberados, mas, sem referência familiar, acabaram retornando, com o consentimento do juiz, segundo garante a diretoria. Avanços psíquicos A maior alegria de Elaine Natália Rodrigues, 55, em tratamento há três anos no Hospital Portugal Ramalho, está sendo a sua participação em cena, como Maria, a Mãe de Jesus, no espetáculo Paixão de Cristo, escrito e montado pelos funcionários do hospital, em parceria com os pacientes. ?É uma emoção muito grande representar a Mãe de Jesus e fazer as cenas defendendo o filho e chorando por ele?, diz ela. Orientados pelas equipes multidisciplinares, os pacientes ocupam o papel principal em todas as tarefas, desde o cenário, montado com painéis produzidos por eles, até a montagem do figurino e a interpretação de todos os personagens, inclusive Jesus Cristo. O espetáculo tem a direção do voluntário Lucas Cobersant. No Centro Psiquiátrico Judiciário, Antônio Denivaldo Silva exercita em plenitude os dons artísticos. Seus trabalhos ocupam vários espaços da sala de terapia ocupacional. Ele já saiu, mas retornou, por decisão judicial, e, segundo ele, por pressão da própria família. ?Procuro sempre estar sozinho como defesa e a arte é minha melhor terapia. Também gosto muito de jogar futebol?, diz ele. Denivaldo já viveu muitas situações difíceis dentro do Manicômio e lembra o caso de estupro de um colega, há alguns anos. O quarto quente e a proximidade com detentos não psicóticos, vindos de presídios, o incomodam. ?A gente dorme e não sabe se amanhece vivo?, diz ele. No mesmo espaço, o violonista Emídio Santos faz planos. Ele avalia que o tratamento foi muito importante e que tem muito a caminhar, mas tem medo do que o espera do lado de fora. Durante sua permanência, deu algumas aulas, exerceu seu lado de músico em algumas ocasiões, mas ficou preso a um universo muito pequeno. ?Os anos se passam lá fora, o mundo passa por mudanças e a gente perde o referencial. Tenho medo de não acompanhar?, reflete ele. Emídio está bem perto de deixar o Centro Psiquiátrico e diz que quando estiver do lado de fora pretende se integrar às causas dos portadores de doença mental.

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