Cidades
Acampamentos viram barris de p�lvora
CARLA SERQUEIRA Repórter Na última semana houve sangue derramado no campo. Três pessoas foram assassinadas com tiros em assentamentos e acampamentos de sem-terra. As mortes ocorreram no Litoral Norte do Estado e o fato fez com que a Gazeta de Alagoas fosse até Maragogi conferir o clima entre os sem-terra na zona rural do município. A tensão é flagrante. Os agricultores Manoel Alves da Silva e Manoel Cipriano da Silva, de Porto Calvo, e Otoniel Pessoa de Oliveira, de Maragogi, foram assassinados, segundo a polícia, por ?motivos provavelmente fúteis?, já que a bebida foi o estopim para a tragédia nos três casos. O último caso ocorreu na fazenda Buenos Aires, na segunda-feira, dia 11, onde cerca de quarenta homens, ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) vivem acampados, brigando por terra até então improdutiva. O lugar é de difícil acesso. De Maceió para Maragogi são 125 km. Do centro de Maragogi até o acampamento Buenos Aires, são mais 15 km em estrada de barro, por dentro da mata. De acordo com o delegado do município, Valter do Nascimento, ?os policiais tiveram que carregar o corpo de Otoniel, a pé, dentro de uma rede, por 1km?, porque o carro do Instituto Médico Legal não chegava no lugar. A polícia não tem pistas do assassino, identificado apenas como Felipe. Segundo Gedilson Costa, companheiro de Otoniel, Felipe juntou-se ao MST durante a ocupação da Praça Sinimbu, em março. ?Só não sabemos como ele conseguiu a arma. Esse é o grande mistério?, afirmou. A vítima, segundo os acampados, também possuía uma arma. ?Eu sabia que ele tinha, mas não onde ele escondia?, disse Genilson, negando a presença de outras armas de fogo no acampamento. ?A arma que a gente usa é foice, que é, na verdade, o nosso instrumento de trabalho?. No entanto, na mesma conversa, Amaro José da Silva deixou escapar: ?Eu desafio quem aqui não tem uma arma. Quem é que vai morar num lugar desses desprotegido?? Um levantamento feito nos assentamentos e acampamentos de Maragogi, entre 2000 e 2004, revela que a posse ilegal de armas não é tão rara. Entre os processos que tramitaram na Justiça estão 11 homicídios, 15 portes ilegais de arma e dois estupros. O líder do MST, José Roberto, afirmou que a morte de Otoniel Pessoa, dentro do acampamento Buenos Aires, foi um fato isolado. ?O motivo da morte foi pessoal e não teve nada a ver com a reforma agrária?, afirmou, responsabilizando pelo assassinato a demora do governo em cumprir os acordos. ?Se eles estivessem assentados, com terra para trabalhar, não haveria acontecido isso?. Mas José Roberto reconheceu a possibilidade de ocorrerem outros crimes. ?O que podemos esperar de um pai de família desempregado e sem terra para trabalhar? O que pode passar na mente de pessoas assim??, questionou. ### Lideranças admitem falta de controle O líder do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL), Rafael Simão, reconhece a difilculdade de controlar a entrada de pessoas estranhas nos acampamentos. ?A gente hoje perdeu o controle de quantos já colocamos para fora. Se a gente fosse listar, em um livro não cabia?, admitiu, afirmando que, em média, duas pessoas são expulsas do movimento todos os dias. Segundo Rafael Simão, estas pessoas, geralmente, são fugitivos de outras localidades. ?São homens que aprontaram em algum lugar e vêm se apadrinhar dos movimentos sociais?. Com 12 acampamentos e 26 assentamentos, o MTL pensa em adotar novas medidas para controlar a filiação de seus militantes. ?Estamos pensando em colar fotos nos cadastros para fortalecer o nosso controle?, explicou. Com 64 acampamentos e 32 assentamentos espalhados pelo estado, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) assistiu a três mortes entre seus militantes. Na Fazenda Buenos Aires, em Maragogi, o assassino de Otoniel Pessoa estava no grupo havia 15 dias, mas ninguém soube informar à polícia seu nome completo, dificultanto as investigações e expondo a vulnerabilidade da sua segurança. Apesar do fato, para o líder do MST, José Roberto, a falta de controle não existe no movimento. ?O caso do assassinato de Otoniel Pessoa foi isolado. Não acontece com freqüência?, disse, explicando que em cada município há um coordenador do MST responsável pela área, que controla a entrada e saída dos militantes nos acampamentos. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) possui, espalhados por todo o Estado, 14 acampamentos e cinco assentamentos. O líder estadual do movimento, Carlos Lima, também reconhece a dificuldade de manter o controle absoluto das pessoas. ?Não dá, no meio de tanta gente, para perceber a presença de intrusos imediatamente. Já pegamos trabalhadores rurais representantes de fazendeiros em nossos acampamentos?, revelou. Bebida A violência vem ganhando espaço nos acampamentos e assentamentos de sem-terra. O motivo, muitas vezes, é o excesso de bebida e a ociosidade. Segundo o depoimento da ex-esposa de Otoniel Pessoa, morto com um tiro de espingarda na nuca dentro de um acampamento do MST, a vítima era alcoólatra e havia bebido com o assassino durante todo o dia de sua morte. Para o delegado de Maragogi, Valter do Nascimento, que investiga o caso, ?a bebida foi o estopim para o crime?. Carlos Lima, representante da CPT, explicou que a cachaça, no meio rural, é comum. ?É quase cultural?, disse. ?Mas no nosso acampamento, temos regras internas. Uma delas proíbe a entrada de bebida e de bêbados. Quem chega alcoolizado, tem que procurar outro lugar para passar a noite?, assegurou. Segundo ele, já foram expulsas pelo menos três pessoas por causa de bebida. ?companheiros até bons de luta, mas quando bebiam, perdiam o controle?. Bloqueios O Centro de Gerenciamento de Crises da Polícia Militar explicou que os assassinatos ocorridos na semana passada não chegaram a entrar nas estatísticas. ?Foram questões pessoais?, justificou. No entanto, outro tipo de violência é contabilizado pelos policiais: os bloqueios de rodovias que obrigam motoristas a paralisarem suas viagens por 5 horas, em média. Só este ano, o Centro de Gerenciamento de Crises da PM registrou oito bloqueios em Alagoas. Deste total, metade foram provocados por movimentos de sem-terra. O último foi registrado na sexta-feira, dia 15, no município de Flexeiras, pelo Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL), reivindicando cestas básicas. No dia 11 de abril, o MTL fechou a BR-101, na altura do quilômetro 63, em Messias. A negociação durou oito horas. Os militantes estavam armados com foices e facões, em ato de ameaça aos motoristas que arriscassem furar o bloqueio. Segundo um policial que estava acompanhando as negociações, os sem-terra, às vezes, figem liberar as vias com o objetivo de saquear os caminhões que transportam alimentos. ?É uma estratégia deles. Já é de praxe?, afirmou. |CS