Cidades
Wassu-cocal protesta contra governo
BLEINE OLIVEIRA Repórter Os três mil índios que formam a tribo wassu-cocal, no município de Joaquim Gomes, a 63 quilômetros de Maceió, marcam a passagem do Dia do Índio, hoje, 19, cobrando do governo do Estado as promessas não cumpridas. Para pressionar o governo, eles bloquearam a rodovia BR 101, que corta a área indígena, impedindo totalmente o tráfego em direção ao vizinho Estado de Pernambuco. O bloqueio, iniciado às 5h da manhã de ontem, surpreendeu aos motoristas, principalmente caminhoneiros, que trafegam pela rodovia federal. Patrulheiros rodoviários se mantiveram na área, orientando os motoristas a seguirem pela estrada de acesso a Murici, em direção ao município de Quipapá (PE), o que aumenta o percurso em 51 quilômetros. Há anos aquela comunidade espera por assistência técnico-agrícola e por moradias, compromissos que o Estado assumiu para que os wassu-cocal concordassem com a redução de sua terras, dos 57 mil hectares a que historicamente têm direito, para os 2.758 hectares onde vivem. Segundo um dos líderes indígenas, há mais de 10 anos a tribo espera pela assistência prometida. Diante da situação de pobreza que enfrentam, eles decidiram interditar a rodovia com pedras, para obrigar o governo estadual e a própria Fundação Nacional do Índio (Funai), por quem são tutelados, a atenderem suas reivindicações. ?Só vamos sair com a garantia de que nossas reivindicações serão atendidas?, disse o líder indígena Gérson Camilo dos Santos Poti. A tribo exige um trator, verbas do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) e a construção de 250 casas prometidas pelo governador Ronaldo Lessa. As casas são uma das principais reivindicações das famílias, que sofrem com problemas de saúde resultantes de picadas de insetos. Nas moradias onde vivem atualmente, feitas de taipa (barro), freqüentemente os índios encontram barbeiros e escorpiões. REIVINDICAÇÕES Dois técnicos da Funai estiveram ontem na área indígena, mas nada conseguiram em relação ao desbloqueio da rodovia. ?Viemos saber quais as reivindicações?, disse Hamilton Botelho, administrador substituto. Ele admitiu que não tem autonomia para negociar com os índios, mas encaminhará as reivindicações à direção nacional da Funai. Hoje, os dois técnicos da Fundação voltam para acompanhar a negociação dos índios com representantes do governo estadual. DIFICULDADES São muitas as dificuldades enfrentadas pelas famílias Wassu-Cocal. Como praticam agricultura de subsistência, eles precisam de assistência técnica permanente. Os índios plantam inhame, mandioca, feijão e milho. Abandonados pelos órgãos estaduais, eles praticamente perderam toda a safra. O líder Gérson Camilo Poti reafirmou que a rodovia só será desbloqueada com o atendimento das reivindicações. ?Já estamos cansados de promessas. Queremos ação concreta para o que solicitamos há mais de três anos? - disse ele. A passagem só é liberada para viaturas policiais, ambulâncias e veículos conduzindo estudantes. /// Posse da terra está difícil, diz líder A tribo wassu-cocal reivindicava uma área de 57 mil hectares na região de Joaquim Gomes. Essa área foi reduzida para 2.758 hectares, conforme negociação feita com o governo estadual em 1986. Os índios aceitaram reduzir o tamanho de suas terras, diante da promessa de que receberiam ajuda para produzir. Pouco foi feito no sentido de garantir a eles a subsistência. E nem mesmo a área negociada lhes foi entregue totalmente. A comunidade dispõe de 600 hectares do total de terra a que legalmente tem direito. O restante está invadido por fazendeiros e por usinas, denunciam as lideranças indígenas. Posseiros A área onde vivem os Wassu-Cocal é de conflito. Até hoje o governo não conseguiu reassentar posseiros e devolver a eles a terra que os fazendeiros e usinas invadiram. ?Queremos o que é nosso e assistência, para vivermos em paz?, declara Gérson Camilo Poti. Com o rosto pintado, como faziam seus antepassados, o chefe indígena diz que a tribo manterá o bloqueio por tempo indeterminado.