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Baixo potencial amea�a Canal do Sert�o

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| BLEINE OILIVEIRA Repórter O Canal do Sertão, projeto anunciado como a redenção para o Sertão e o Agreste de Alagoas, pode enfrentar problemas diante do baixo potencial energético de algumas cidades sertanejas. Mesmo próximas a duas grandes hidrelétricas, Paulo Afonso e Xingó, as populações de Mata Grande, Inhapi, Canapi e Delmiro Gouveia sofrem com os constantes apagões, provocados por ventos fortes e temporais. E o que é pior: a energia que será consumida para fazer funcionar as bombas e puxar a água que será distribuída pelo Canal do Sertão terá uma demanda de energia equivalente ao que recebem hoje, juntas, as cidades de Mata Grande, Canapi e Inhapi. O próprio presidente da Companhia Energética de Alagoas (Ceal), Joaquim Brito, admite que a região dos municípios citados, como também o de Água Branca, está com níveis de tensão abaixo dos aceitáveis. O ideal, revela Brito, é de 220 volts, mas na área a tensão tem variado entre 180 e 190 volts. A Ceal tem o importante papel de garantir a demanda de energia para os municípios que serão atendidos pelo Canal do Sertão. O projeto pretende resolver, em definitivo, como afirmam seus idealizadores, os problemas de abastecimento de água em 43 municípios alagoanos. A obra foi iniciada em 1990, mas passou dez anos paralisada. Após sua retomada, já foram investidos R$ 15 milhões na execução do projeto, cuja primeira etapa vai exigir gastos estimados em R$ 36 milhões. O Canal já tem 30 km, que vêm de uma barragem de Paulo Afonso (BA), e pretende chegar a Arapiraca, passando por dezenas de municípios. ?Posso assegurar que até o final deste ano, o problema de baixa tensão nos municípios citados estará resolvido?, disse Joaquim Brito. A solução, explica ele, está na construção de dois alimentadores para reforçar o abastecimento nas cidades de Mata Grande, Canapi, Inhapi e Água Branca. Essa obra, acredita o presidente da Ceal, estará concluída até o final de julho próximo. Com os alimentadores, o nível de tensão será normalizado, melhorando a qualidade da energia fornecida. Outra importante medida é a construção de uma subestação no município de Inhapi. O projeto será encaminhado à Eletrobrás, cuja diretoria já se comprometeu a analisá-lo e aprová-lo em regime de urgência. Os dois investimentos custarão à Ceal R$ 5 milhões. ### Cidades do Sertão são atingidas por constantes apagões Sucursal Arapiraca - Temporais e ventanias fortes são as principais causas dos apagões que deixam milhares de sertanejos sem energia elétrica em alguns dos oito municípios vinculados ao escritório da Companhia Energética de Alagoas (Ceal) em Delmiro Gouveia. ?Aqui na região é assim: quando chove, geralmente falta energia. É escuridão na certa?, conta Marcelo Lima (PDT), prefeito de Delmiro Gouveia. Para ele, a estrutura da Ceal na região é precária e carece de sólidos investimentos. O escritório regional da Ceal em Delmiro Gouveia é responsável direto pelo fornecimento de energia elétrica para a população de Delmiro e de outros sete municípios: Olho d?Água do Casado, Piranhas, Água Branca, Pariconha, Mata Grande, Inhapi e Canapi. Juntas, as oito cidades têm 34 mil imóveis ligados ao sistema de distribuição da energia elétrica comprada da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), que tem duas usinas na região: uma em Paulo Afonso (BA) e outra em Xingó (AL-SE). Dificuldades A energia chega com potência máxima à subestação montada em Delmiro Gouveia, onde acontece a conversão e conseqüente distribuição, dentro de padrões específicos para atender o consumidor industrial ou residencial. O gerente regional da Ceal em Delmiro, Gilberto Bezerra, confirma a existência de dificuldades técnicas para manter em pleno funcionamento a rede elétrica responsável pelo abastecimento de imóveis na zona rural, por exemplo. Segundo apurou a reportagem da Gazeta, os apagões seriam constantes nas cidades de Mata Grande, Inhapi e Canapi. A principal explicação para a escuridão em dias chuvosos e com forte ventania é a dificuldade de acesso dos técnicos à rede elétrica que abastece as cidades. ?A ruptura de um simples fio de alta-tensão derruba todo o sistema. Aí, precisamos de tempo para ter acesso ao local da ruptura e fazer o reparo?, explica Bezerra. Para reforçar o sistema e evitar apagões, a Ceal decidiu construir uma ?rede de alimentação? à margem da BR-423, que liga Delmiro a Ouro Branco. A origem da rede é o povoado Maria Bode (Delmiro), de onde a fiação de alta tensão levará energia para Água Branca, Inhapi, Canapi e Mata Grande. A previsão de conclusão da nova rede é de 90 dias. Ainda segundo a gerência da Ceal, há pelo menos dois meses os reparos na rede de distribuição estão sendo feitos sem que o fornecimento de energia seja interrompido nas oito cidades. MM /// Entorno das obras do Canal na escuridão Sucursal Arapiraca - A luz elétrica ainda é um sonho distante para pequenas comunidades espalhadas pela zona rural de Delmiro Gouveia, onde fica o canteiro de obras do Canal do Sertão. A população de nove vilarejos do município vive à margem do progresso tecnológico. A absoluta escuridão em pequenos vilarejos é o grande paradoxo de uma região exportadora de energia elétrica para os demais estados nordestinos. ?A rede elétrica de alta tensão passa sobre a cabeça do cidadão que ainda depende do candeeiro para enxergar no período noturno. A região gera e exporta energia, mas ainda há muita gente vivendo no escuro?, diz Antônio Limeira da Cruz, secretário municipal de Agricultura de Delmiro Gouveia. A escuridão imposta ao humilde habitante da zona rural é fato comum em vilarejos com menos de dez residências. A escuridão na região que ganhou notoriedade pela produção e exportação de energia elétrica para todo o Nordeste, tem diversas justificativas - nem sempre convincentes. A principal delas diz respeito ao custo-benefício para montar a rede elétrica responsável para atender quem vive distante dos maiores povoados do município. Luz para poucos ?Para a companhia energética [Ceal], o investimento numa rede elétrica para beneficiar poucas pessoas é considerado alto e pouco rentável?, critica Antônio Limeira. O gerente técnico da Companhia Energética de Alagoas em Delmiro, Gilberto Bezerra de Oliveira, confirma as dificuldades técnico-financeiras de se levar energia elétrica para quem vive em pequenos vilarejos. ?O custo com instalação de uma rede com mais de dois quilômetros, por exemplo, é alto, e o retorno é muito baixo?, alega. Gilberto Bezerra explicou à Gazeta que a escuridão em pequenas comunidades na zona rural de Delmiro pode chegar ao fim, caso o município consiga captar recursos do programa Luz para Todos, do governo federal, que disponibiliza verba específica para custear quaisquer despesas com a compra de material e contratação de empresas para levar e montar a estrutura de iluminação em comunidades com poucos moradores. MM /// Celpe fornece energia para Alagoas Sucursal Arapiraca - O governo do Estado de Alagoas desapropriou, no final da década de 80, uma área de 500 hectares na região do Moxotó (Delmiro Gouveia), onde estão concentradas as obras do Canal do Sertão. Centenas de fazendeiros receberam indenização para desocupar as fazendas. A área fica na divisa com Pernambuco e seria transformada num projeto piloto de irrigação apontado, na época, como ?a redenção da agricultura sertaneja?. A idéia nunca saiu do papel. Abandonadas, as terras foram ocupadas, sete anos atrás, por 120 famílias de agricultores ligados ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). O acampamento Juá é referência na produção e exportação de frutas e verduras para a cidade de Delmiro Gouveia e ainda para cidades de Pernambuco. Eles utilizam a energia elétrica fornecida pela Companhia Energética de Pernambuco (Celpe), mas não pagam a conta de luz há pelo menos cinco anos. Agricultura rudimentar ?Os valores são elevados. Não temos renda suficiente?, justifica o acampado Cleomilton Pereira Oliveira, 52. Nascido em São José da Tapera, ele migrou para a região atraído pela perspectiva de produzir frutas e verduras através da irrigação com água do Rio São Francisco. Os sem-terra do acampamento Juá praticam agricultura rudimentar e sem assistência técnica dos órgãos oficiais. Isso ocorre porque não dispõem de documento de posse da terra em que produzem há sete anos. Sem ajuda Eles também não conseguem contrair empréstimo nos bancos oficiais para investir na mecanização de suas lavouras. ?Mesmo sem dinheiro do governo, a gente conseguiu provar que a irrigação dá certo e é viável aqui nessa região?, diz Luciano Nunes, 28, pai de três filhos. Embora não neguem o calote na companhia energética, eles formaram grupos e conseguiram comprar em Paulo Afonso (BA) bombas de baixa potência e canos suficientes para puxar água da várzea do Moxotó. Resultado: montaram um rudimentar sistema de irrigação de pequenos lotes, onde plantam e colhem coco, milho, jaca, manga, cebola, alface, cenoura, batata e coentro, por exemplo. Criam ainda vacas e ovelhas. E já fabricam até queijo de coalho. A produção garante o sustento básico das 120 famílias. ?A gente só compra na rua [na cidade] o complemento da alimentação?, conta, orgulhoso, Cleomilton Pereira. A organização das famílias também permite a venda de seus produtos no comércio de Delmiro Gouveia e ainda em algumas cidades do interior pernambucano. ?A gente exporta muita fruta e verdura para Jatobá [PE]?, conta outro agricultor. ?O improviso é grande, mas mesmo assim eles conseguem produzir e exportar frutas e verduras?, reconhece Antônio Limeira, secretário de Agricultura de Delmiro Gouveia. A clandestinidade do acampamento é o principal entrave ao seu desenvolvimento. O gerente regional da Ceal em Delmiro reconhece a falta de investimento da companhia na região. ?A lei não nos permite levar energia para uma região clandestina?, explica Gilberto Bezerra. |MM

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