Cidades
Capit�o CB � preso por criticar governo
FELIPE FARIAS Repórter A divulgação de um e-mail com críticas ao governo do Estado pela falta de estrutura no Corpo de Bombeiros (CB) desencadeou um grande mal-estar na corporação, que levou ao anúncio da prisão de um oficial, da exoneração de outro e a uma espécie de ?lei do silêncio? no quartel do comando. Procurado pela reportagem, o autor da mensagem, capitão BM Carlos Buriti, disse não poder dar entrevista. Apenas o comandante-geral, coronel BM Jadir Ferreira Cunha, falou pelos Bombeiros. ?Eu destaco a coragem e a hombridade dele ao assumir o documento e suas conseqüências, mas discordo dessa manifestação, porque há outras formas de reivindicar e já o comuniquei de que, pelo regulamento, ele sofrerá punição?, informou. Ele criticou ainda o oficial de relações públicas, major BM Paulo Marques, que também passou informações à imprensa sobre a mesma situação e, que, por isso, segundo o comandante, deverá ser transferido de função. O presidente da Associação dos Oficiais da PM e CB, major PM Eduardo Lucena, disse que a entidade vai se solidarizar com Buriti: ?O que ele falou é verdade. Ele foi apenas o ?alto-falante? dos insatisfeitos e não pode ser crucificado por isso?. Desabafo O e-mail foi redigido após a entrega solene de 150 viaturas para as polícias Civil e Militar, na última segunda-feira, porque nenhuma foi destinada ao CB. Nele, o oficial detalha situações como o fato de um de seus comandados, durante o combate a um incêndio, ter sido obrigado a revezar o capacete com outro bombeiro, porque não havia equipamento para ambos, o que o fez acabar inalando fumaça e ser levado para a Unidade de Emergência (UE), ?um hospital onde só o que é belo é a propaganda paga pela Secom [Secretaria de Comunicação, responsável pela publicidade oficial do governo]?. E critica os gastos com a reforma do Trapichão para o jogo da seleção brasileira, no ano passado, comparando com o fato de um sargento ter adquirido câncer de pele após 29 anos de exposição ao sol no trabalho de guarda-vidas, para cujo tratamento não há os mesmos recursos. ### E-mail expõe fragilidade da corporação A seguir, trechos da mensagem escrita pelo oficial Carlos Buriti do Corpo de Bombeiros e distribuída pela internet. ?Jamais conseguirei explicar a sensação de ser acordado a qualquer hora, tempo ou local para cumprir o meu juramento e pedir a Deus que, caso venha a morrer, seja salvando uma vida!!? ?Jamais conseguirei entender por que tenho que passar pela frustração de não conseguir explicar a meus homens o motivo pelo qual, num investimento de 10 milhões de reais em viaturas, não virá nada para o Corpo de Bombeiros!! ?Jamais conseguirei explicar para meu soldado o porquê de num incêndio ele precisar revezar o capacete e respirar fumaça ao invés de ter o seu próprio equipamento de segurança, e quando passa mal ser atendido nos corredores lotados de um hospital onde só o que é belo é a propaganda paga pela Secom às empresas e que, com certeza, pagaria o equipamento de segurança do bombeiro!!? ?Jamais conseguirei explicar para os meus homens o motivo pelo qual, em uma noite de futebol, onde a milionária Confederação Brasileira de Futebol (CBF) apresenta seus milionários craques, o estádio Rei Pelé passa por uma reforma de 500 mil reais enquanto que o Sgt. Everaldo começa a enfrentar o câncer de pele adquirido nos 29 anos salvando vidas nas praias e sabendo que com muito menos que 500 mil reais eu construo postos cobertos e protejo aqueles que se orgulham de enfrentar a natureza para salvar vidas?. ?Jamais conseguirei explicar para meus homens que não conseguirei transmitir para o mundo isso que escrevo, e é o sentimento deles e de todo o Corpo de Bombeiros, porque serei preso por pensar na segurança da comunidade, sem ter cometido nenhum crime (...). Autorizo comentários porque dez dias de prisão são dez de serviço?, diz Buriti. ### Comando rebate posição de oficial O comandante-geral do Corpo de Bombeiros, coronel BM Jadir Ferreira Cunha, disse ter comunicado ao oficial autor da mensagem com as críticas ao governo pela falta de estrutura da corporação que ele sofrerá punições. ?Eu o preveni. Disse: ?se contenha, porque há outras formas de reivindicar. Eu lamentei porque é uma pessoa próxima de todos nós, mas já o comuniquei de que ele ficará recolhido ao quartel por uns seis a oito dias?, relatou. Segundo o comandante, o caso também será encaminhado à Corregedoria, o setor responsável por fiscalizar a conduta dos bombeiros militares. O coronel disse ainda que as punições serão estendidas ao oficial de relações públicas, major BM Paulo Marques. Após a divulgação do e-mail, Paulo Marques recebeu a imprensa por indicação do comandante, mas, segundo o coronel, contrariando suas instruções, apresentou apenas situações que endossavam o conteúdo da mensagem com críticas à falta de condições dos Bombeiros. A reportagem com essas situações foi apresentada nesta quarta-feira. ?Apresentaram uma viatura dizendo que estava sucateada, quando, na verdade, estava apenas em manutenção?. Ferreira informou que Marques será transferido para outra função. O comandante da corporação chegou a elogiar a coragem do oficial ao assumir a responsabilidade pela divulgação da mensagem, mas alegou o rigor do regimento no trato dessas questões. ?E é bom que fique claro que essas são posições pessoais dele; não institucionais?, salientou o comandante dos Bombeiros. O presidente da Associação dos Oficiais da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, major PM Eduardo Lucena, disse que a entidade vai prestar solidariedade ao capitão Carlos Buriti. ?Ele [Buriti] não cometeu nenhum crime; apenas falou uma verdade: o Corpo de Bombeiros sempre é preterido na entrega de viaturas pelo governo?. O representante dos oficiais fez questão de destacar a postura do comandante dos Bombeiros na defesa da corporação, mas defendeu o autor da mensagem por seu envolvimento com a atividade: ?Ele [Buriti] respira o CB?. Procurado pela Gazeta para comentar o caso, o oficial alegou que não poderia dar entrevistas. ?Tudo o que eu tinha para dizer, disse no e-mail?, se limitou a dizer. O capitão deu expediente normal ontem, como coordenador de operações, mas no próprio e-mail admitia que será preso. O comando do CB informou que vai adquirir motos e viaturas para salvamento com os R$ 400 mil apurados com a taxa de incêndio, paga no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). Mas elas só poderão atuar em Maceió, porque a taxa é municipal. ?A Secretaria Nacional de Segurança Pública destinou R$ 1,2 milhão para Alagoas, com o qual vamos adquirir quatro caminhões com bombas, tanques e equipamentos de salvamento, que deverão chegar até o meio do ano?, informou o comandante.