Cidades
Faltam rem�dios para combater doen�as
MAIKEL MARQUES Repórter Feliz Deserto - A Prefeitura de Feliz Deserto cobrou, ontem, do Ministério da Saúde, urgência no envio de medicamentos para assistência básica aos mais de dois mil desabrigados que estão alojados em escolas da rede municipal. O centro de saúde da cidade já registrou, até ontem à tarde, dezenas de casos de crianças com diarréia e problemas respiratórios. Funcionários da Vigilância Sanitária distribuíram recipientes com hipoclorito para tratamento de água para consumo humano. O objetivo da medida é combater o surgimento de casos de dengue ou leptospirose. ?Os casos de diarréia e os problemas respiratórios em crianças desabrigadas são a principal preocupação de nossa equipe médica?, explicou a prefeita Rosiana Beltrão (PMDB). Ontem pela manhã, ela recebeu um telefonema do Ministério da Saúde (MS) e reforçou o pedido de envio ?com grande urgência? de medicamentos de assistência básica para cuidar da população vítima da enchente que devastou centenas de residências no centro da cidade. ?Acredito que até domingo devemos receber o primeiro lote de medicamentos do governo federal?, completou. Listão de remédios O município também encaminhou ao governo do Estado pedido de medicamentos. ?O listão de medicamentos contém mais de 80 itens considerados de primeira necessidade?, explica o médico José Laurindo Prudente, que está de plantão no Centro de Saúde do Município desde a noite de terça-feira, quando começou o temporal que devastou a estrutura física da menor cidade do Litoral Sul. Os mais de dois mil desabrigados ainda estão alojados em três escolas da rede municipal de ensino e no mercado público municipal. ?É uma agonia só. Cinco famílias dividem uma única sala de aula. Todos estão amontoados e vivendo no improviso?, explicava a dona-de-casa Maria Betânia dos Santos, 22. Além dos objetos pessoais, perdeu a casa de taipa em que vivia com os dois filhos. ?A água devastou tudo. Não ficou nada?, lamentou a dona-de-casa. ?Nunca vi coisa semelhante. Perdi tudo o que construí em 56 anos de vida?, chorava Maria Antonice dos Santos. Transferência Embora o município tenha mais de dois mil desabrigados, somente metade será transferida para o alojamento montado pelo Exército no centro da cidade. Dezoito homens trabalham na montagem da estrutura, que deve ficar pronta no domingo. ?O acampamento terá espaço para, no máximo, 280 famílias. A previsão de permanência no alojamento é de 60 dias?, explicou a prefeita Rosiana Beltrão (PMDB), que pediu donativos aos grupos empresariais de Alagoas. O grupo João Lyra enviou centenas de cestas básicas ao município. O alimento compõe o cardápio dos desabrigados, que recebem três refeições por dia. A Usina Coruripe deslocou funcionários e máquinas para limpeza de ruas e resgate de objetos em casas com risco de desabamento. ?Qualquer ajuda será bem-vinda. Nossa cidade nunca esteve tão necessitada. Precisamos da colaboração não apenas dos cidadãos comuns mas também de todos os grupos empresariais de Alagoas?, completou Rosiana Beltrão. Relatório A Prefeitura de Feliz Deserto concluiu, ontem, o relatório com informações detalhadas sobre a destruição provocada pelo temporal da última terça-feira. O documento será repassado à Defesa Civil Estadual e depois enviado ao governo federal. ?Cobramos urgência na liberação de recursos para reconstrução de casas e da estrutura física da cidade. Os prejuízos são incalculáveis?, reforçou a prefeita Rosiana Beltrão, que também é presidente da Associação dos Municípios Alagoanos (AMA). ### Moradores de grotas temem tragédia Na grota do Ouro Preto, próxima ao bairro Gruta de Lourdes, ninguém dorme desde segunda-feira, dia 2, quando começou a chover forte em Maceió. No ano passado, os moradores presenciaram oito pessoas morrerem soterradas: seis crianças e dois adultos. As casas danificadas na época foram marcadas com um ?X? pela prefeitura em janeiro deste ano. ?Não fizeram mais nada além disso?, contou Verônica dos Santos Pereira, de 30 anos, mostrando o que restou de uma escola. ?Derramaram só cimento na encosta, mas ele não segura a água. De nada adiantou?, avaliou a dona-de-casa. De acordo com o coordenador da Defesa Civil Municipal, Adriano Augusto Araújo, em 2004, 34 pessoas morreram, vítimas da chuva. ?Sempre tivemos dificuldades de retirar os moradores das áreas de risco. Este ano, mesmo com a previsão indicando chuvas constantes, ninguém quer deixar suas casas?, contou. Por uma viga Na casa de Tereza da Conceição, de 60 anos, moram sua filha, Silvanete da Silva, 23, e mais três netos com idades entre 7 e 5 anos. ?A parede do quarto desabou ano passado. A casa está toda escorada por uma viga de madeira. A prefeitura manda a gente sair e ir para a casa de parentes, mas não temos a quem recorrer. O jeito é ficar e rezar?, lamentou Conceição. A família de Tereza vive de doações. Entre as casas da grota corre o rio do Osso, como é conhecido na região. ?Com vinte minutos de chuva a água sobe. De noite, ninguém consegue dormir. Ano passado os deslizamentos aconteceram de madrugada. Todo mundo tá com medo de morrer?, revelou Cícero José da Silva, de 44 anos, desempregado. ?Quem mora em cima tem medo de desabar, quem mora em baixo, medo da água invadir a casa?, desabafou. Ontem à noite a prefeitura encaminhou para as grotas São Rafael e Ouro Preto dois ônibus para socorrer os moradores, no caso de algum acidente com vítimas. Vinte pessoas ficarão de plantão durante toda a noite nas duas localidades. Os veículos também vão servir para transportar moradores que queiram deixar suas casas e mudar para residências de familiares. CS ### Casas serão entregues, diz Defesa Civil O governo federal liberou verba no valor de R$ 12 milhões para a recuperação dos danos causados pela chuva que matou 34 pessoas no ano passado e deixou centenas de desabrigados em Maceió. Até hoje, as famílias que tiveram suas casas danificadas continuam na mesma situação. ?Só promessa, até agora?, lamenta a dona-de-casa Maria Fausta da Conceição, de 49 anos, moradora da grota Ouro Preto. Segundo o coordenador da Defesa Civil de Maceió, Adriano Augusto Araújo, até o final do mês serão entregues 200 casas para moradores cadastrados. ?As casas são para as pessoas que tiveram perda total do imóvel. Os reparos nas residências danificadas serão feitos num segundo momento?, explicou. Cerca de 780 casas esperam o conserto prometido pela prefeitura, enquanto os seus moradores temem que elas desabem. Adriano Augusto informou que 18 obras foram feitas na cidade com o recurso do governo federal. ?A prefeitura investiu ainda R$ 600 mil para complementar os reparos?, disse, apontando como principais as obras de drenagem do Graciliano, a contenção de encostas na rodovia MAC 204, a pavimentação e drenagem da grota da Alegria, e a extinção de uma cratera no Benedito Bentes, que já havia engolido 20 casas e ameaçava uma escola. Abrigos Enquanto as casas que correm risco de desabar em Maceió não são recuperadas pela prefeitura, a Defesa Civil oferece três abrigos para os moradores que decidirem deixar suas residências. Um anexo foi montado na Secretaria Municipal de Educação (Semed) onde já se encontram algumas famílias; duas tendas foram armadas na Chã Nova, próximo às grotas Santa Helena e à Rua Monte Alegre, onde estão concentradas casas sob ameaça desde o ano passado. Outro local que poderá servir de abrigo é o ginásio Crispiniano Portal, na ladeira da antiga Rodoviária. ?Mas só vamos remover as famílias em último caso. Inicialmente a orientação é encaminhá-las para casas de parentes?, observou. Um receptivo de 40 homens e oito viaturas da Defesa Civil vai ficar de prontidão no fim de semana. ?Estamos sempre em contato com o departamento de Meteorologia Ufal e a orientação é de que vai continuar chovendo até amanhã?, frisou Araújo. |CS