Cidades
Feliz Deserto ainda � o mais atingido no Litoral Sul
BLEINE OLIVEIRA Repórter A cada dia mais e mais famílias chegam aos abrigos montados pela prefeitura para dar guarida a todos os atingidos pela chuva intensa e ininterrupta que cai na cidade de Feliz Deserto desde a terça-feira, 3. É certo que o inverno chegou para valer em todo o Litoral Sul do Estado, mas aquele município é o que mais tem sofrido em toda a região. Ontem, mais uma vez, a prefeita Rosiana Beltrão fez um vôo de helicóptero, e pode ver a extensão da calamidade que atinge o município. A expectativa dela agora é receber relatórios oficiais que lhe dêem a noção exata dos recursos financeiros que vai precisar para fazer a cidade voltar à rotina. Chuva até domingo ?A previsão é de que a chuva não pare até domingo, por isso nos mantemos de prontidão. O momento agora é de socorrer as pessoas atingidas. Depois vamos começar a luta pela recuperação da cidade?, disse Rosiana, que visitou escolas e abrigos onde estão os desalojados e desabrigados, acompanhada pelo deputado federal João Lyra e pelo prefeito de Maceió, Cícero Almeida. Almeida disse que foi ao município ?prestar solidariedade a uma amiga e parceira num momento difícil?, e evitou fazer comentários sobre os danos da chuva em Maceió. Valores O trecho da rodovia AL-101 Sul que foi destruído já está sendo recuperado e as obras, segundo técnicos que estavam no local, devem ser concluídas no máximo até a próxima quinta-feira, 12. Um desvio garante a circulação dos veículos. O superintendente da Companhia de Desenvolvimento do São Francisco (Codevasf), em Alagoas, Antônio Nélson, percorreu os trechos inundados em Feliz Deserto. Segundo ele, logo que a chuva parar, serão elaborados relatório para informar ao governo federal. ?Estamos percorrendo todos os municípios atingidos. Vamos apurar os danos para dar valores ao governo federal sobre pontes, casas e estradas atingidas?, disse ele, confirmando ser esta a primeira vez que o município sofre tanto. dilúvio Segundo Antônio Nélson, em 48 horas choveu 600 mil milímetros, ?quase um dilúvio?. A média anual na região é de 1.500 milímetros de água de chuva. Vacinas perdidas Além do crescente número de famílias em apuros, uma das maiores preocupações é com a saúde da população. Em conseqüência da falta de energia, todas as vacinas que estavam na Secretaria Municipal de Saúde, destinada à vacinação de idosos (gripe) e contra o tétano, se perderam. A enfermeira Mônica Maria de Melo Lins disse que o município receberá da Secretaria Estadual de Saúde material para repor todo o estoque , além de outras vacinas, soro oral e hipoclorito, para evitar doenças como diarréia, leptospirose, cólera e hepatite. ?Estamos pedindo à população que evite águas da chuva e ferva toda a água que for consumir, e no caso de diarréia procurar o posto de saúde?, alertou. Em Coruripe, onde já foram registradas três mortes - todas as vítimas fatais foram crianças - a situação continua grave, mas a chuva tem dado trégua à população durante alguns períodos do dia. No povoado Miaí de Baixo, onde casas e bares foram destruídos pelas águas, vivem cerca de mil pessoas, 300 estão desabrigadas. ?Elas perderam tudo?, diz o presidente da Associação Comunitária, José Francisco Ramos. ### Número de vítimas da chuva em Alagoas supera oito mil A chuva que cai desde o início da semana em Alagoas já fez mais de 8 mil vítimas. São pessoas que abandonaram ou viram desabar suas casas, perderam familiares soterrados ou tiveram que recorrer à Defesa Civil para serem abrigadas em escolas públicas, principalmente no litoral sul. Até agora, quatro mortes foram registradas. Todas de crianças. Em Feliz Deserto, que possui uma população aproximada de 4 mil habitantes e distante 156 km de Maceió, 3.500 pessoas estão em abrigos improvisados, entre eles, três escolas e um mercado público. Na parte alta da cidade, um acampamento está sendo montado pelos 15 soldados do 59º Batalhão do Exército, enviados na última quarta-feira, dia 4, para ajudar na organização das famílias. Uma equipe de 10 pessoas da Defesa Civil está de prontidão, com 42 militares do Corpo de Bombeiros. Segundo a Defesa Civil Estadual, a energia foi restabelecida na cidade, na manhã de ontem. Mais de 250 casas foram destruídas e quatro órgãos públicos danificados. O sistema de abastecimento de água ainda não foi normalizado. Técnicos da Vigilância Sanitária municipal estão distribuindo hipoclorito de sódio para evitar doenças. Coruripe Na cidade de Coruripe, a 95km da capital, o número de atingidos é ainda maior. Com uma população estimada em 44 mil pessoas, 4.623 foram vítimas do temporal, entre elas, três crianças que morreram em deslizamentos de barreira. As casas derrubadas e danificadas somam mais de 800. No município, quinze escolas da rede pública estão servindo de moradia. As aulas foram suspensas por tempo indeterminado. Segundo a prefeitura de Coruripe, todos os bairros da cidade foram atingidos. A AL-101 Sul continua interditada, próximo ao povoado Miaí de Baixo. Duas crateras se abriram na rodovia. Funcionários do Departamento de Estradas de Rodagem iniciaram os trabalhos de recuperação do asfalto, mas a previsão para que o trânsito volte ao normal é de 30 dias. Calamidade As duas prefeituras - Feliz Deserto e Coruripe - decretaram estado de calamidade pública e aguardam socorro dos governos estadual e federal. ?O governador Ronaldo Lessa encaminhou 500 cestas básicas para serem divididas entre os dois municípios?, contou o secretário-executivo da Defesa Civil de Alagoas, coronel Antoney Freitas. Segundo ele, a ajuda que foi prometida pela Secretaria Nacional de Defesa Civil de mil cestas básicas e um kit de medicamentos não chegou em Alagoas. Nos municípios do Sertão não foi registrada nenhuma ocorrência até ontem, segundo o Corpo de Bombeiros de Santana do Ipanema. Grotas na capital De acordo com a Defesa Civil de Maceió, a cidade possui 73 áreas de risco. Cerca de 180 famílias correm risco de serem soterradas. Até ontem, uma criança de quatro anos morreu na grota São Rafael. ?Deslocamos 16 pessoas para casa de parentes. Estamos oferecendo transporte, abrigo e alimentação. Mesmo assim, muita gente resiste deixar suas casas?, disse o coordenador da Defesa Civil Municipal, Adriano Augusto Araújo. ?Não podemos fazer mais nada. Três abrigos estão à disposição da população?. Cinco deslizamentos e três desabamentos de casas foram contabilizados em Maceió. Desde julho do ano passado, 780 casas continuam danificadas. CS