Cidades
V�timas da chuva tentam um recome�o
MAIKEL MARQUES Repórter Feliz Deserto - A dona-de-casa Maria de Castro Melo (50) escalou o fogão e se refugiou em cima da geladeira de sua casa para sobreviver ao ?mundaréu d?água? que devastou a estrutura do menor município do litoral sul de Alagoas. ?Foi tudo muito rápido. A água arrancou o calçamento e arrastou tudo o que tinha pela frente. Pensei que fosse morrer. Graças a Deus, escapei do pior?, confessou. Embora seu imóvel permaneça de pé, a sorridente Maria de Castro muda de semblante quando lembra da agonia dos vizinhos que perderam a casa e objetos pessoais. ?A vizinha da frente [Maria de Fátima Possidônio] clamava por socorro. Ela criou coragem e saiu do imóvel. Minutos depois, a água derrubou parte de sua casa?, conta a aposentada. Ela vive em residência da Rua Domingos André, uma das mais devastadas do centro de Feliz Deserto. Sua casa fica diante de imensa cratera que tomou o lugar da rua pavimentada com paralelepípedos. Ela não dorme desde terça-feira. Reza dia e noite pelo fim do temporal que espalhou destruição e ?engoliu? a casa de taipa de outra personagem da tragédia no Litoral Sul: a dona-de-casa Maria Betânia dos Santos, 22. Mãe de dois filhos, ela vive o drama de ter perdido o pouco que tinha. ?A chuva levou tudo. Só tive tempo de puxar minhas duas filhas. Ainda vi quando a casa caiu. Perdi geladeira, fogão e TV. Também fiquei sem roupas. Agora, dependo da vontade de Deus?, comentou a dona-de-casa. Ela agora ocupa uma sala de escola da rede municipal com outras quatro famílias. ?Perdemos o conforto, mas ficamos com a vida. Graças a Deus!?, comentou. ?Infeliz deserto? A agonia e o sofrimento das duas Marias reflete o sentimento de tristeza e desolação dos mais de dois mil desabrigados numa cidade cujo nome une palavras contraditórias: Feliz e Deserto. Menor município do Litoral Sul, Feliz Deserto está espremido entre Coruripe, Penedo e Piaçabuçu. A cidade de economia frágil e que depende dos repasses de recursos federais, teve sua estrutura devastada. ?O temporal devastou a estrutura física da cidade?, reconhece a prefeita Rosiana Beltrão (PMDB). Atual presidente da Associação dos Municípios Alagoanos (AMA), Rosiana depende agora da liberação de recursos do governo federal para reconstruir casas, pavimentar ruas e refazer a rede de abastecimento de água potável. ?Os prejuízos são incalculáveis?, reconhece a prefeita, que estima prazo mínimo de 60 dias para recuperação do município. Abrigo na praça Quem não encontrou abrigo na casa de parentes ou amigos vive agora de forma improvisada em três escolas da rede municipal de ensino. Os desabrigados passam dos dois mil. Metade desse contingente (280 famílias) mudará de endereço hoje ou amanhã. Vão se abrigar em praça pública, debaixo da lona preta de abrigo montado pelo Exército Brasileiro com material doado por empresas do ramo açucareiro. Com a transferência para o alojamento, o executivo municipal resolve a questão da educação com a perspectiva de retomada das aulas já na terça-feira. ### Famílias invadem conjunto habitacional A estimativa de permanência dos desabrigados no alojamento construído pelo Exército em Feliz Deserto é de 60 dias, tempo em que o município precisará de ajuda financeira da comunidade alagoana para fornecer comida. ?Além de alimentação, essas pessoas também precisam de agasalhos?, alerta uma funcionária da Secretaria de Assistência Social. Famílias de desabrigados invadiram um conjunto habitacional com 65 casas. Os imóveis seriam entregues, hoje, na festa do Dia das Mães. Quem fazia parte da lista de beneficiados com as casas, ficará onde está. Quem não fazia, terá que sair. O município já tinha garantido recursos para construção de 18 casas, mas precisa de verba para reconstrução de mais de 100 imóveis. Levantamento da prefeitura indica que todas as casas de taipa, por exemplo, estão com estrutura condenada. De olho na perspectiva de lucro, comerciantes do ramo de construção civil investem nos estoques de telha e tijolos. Aguardam a liberação de recursos para faturar com a reconstrução da cidade. Na última sexta-feira, um comerciante descarregava caminhão com 24 mil telhas para venda com desconto caso o pagamento seja feito à vista. Números De acordo com a Defesa Civil, 90% da cidade ficou debaixo d?água. Quatro repartições públicas e mais de 150 casas tiveram sua estrutura física danificada. O município não tem estimativa do montante de recursos necessários à reconstrução de casas. ?O custo da reconstrução é incalculável. Vamos trabalhar com os recursos que o governo federal nos enviar?, explica a prefeita Rosiana Beltrão. A cidade também aguarda o envio de medicamentos por parte do Ministério da Saúde. Os médicos do município encaminharam lista com 80 itens necessários ao trabalho de assistência básica a pacientes com diarréia e problemas respiratórios. Outra preocupação é com a dengue e a leptospirose em locais onde há água acumulada. |MM