Cidades
Alagoas torce por santifica��o de padre
FÁTIMA ALMEIDA Repórter Uma alegria sem tamanho começa a tomar conta dos milhões de fiéis devotos de Padre Cícero Romão Batista, entre eles, as beatas alagoanas Dilma Pereira - que já contou 58 romarias anuais a Juazeiro do Norte, e Ivanildes Batista, a Dóia. Elas estão a um passo do paraíso, já que o ?padroeiro do Nordeste?, conforme já anunciou o papa Bento XVI, retomou o processo definitivo de canonização do Padim. A santificação já foi decretada há anos pelo povo que o venera, protagonistas das famosas romarias ao Juazeiro do Ceará, cidade que o padre viveu, evangelizou, militou politicamente e morreu, em 1934, sem o reconhecimento da Igreja ao imenso desempenho pastoral que o transformou no maior e mais duradouro fenômeno religioso do Brasil. O reforço na esperança, que sempre existiu, fundamenta-se em dois fatos concretos: há cerca de dois anos a Diocese do Crato (CE), a mesma que tirou os direitos sacerdotais do Padre Cícero, deu início aos estudos visando a sua reabilitação eclesial e histórica. O outro fato, revelado pelo bispo de Penedo (AL), dom Valério Breda, é que o papa Bento XVI tem conhecimento da história e do processo do Padre Cícero e demonstrou boa vontade com a questão, quando ainda era o cardeal Joseph Ratzinger, presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, conhecida como Santo Ofício da Inquisição, função que ocupou até ser escolhido papa. ?O bispo de Crato já nomeou um pesquisador com autorização de Roma para vasculhar todos os documentos do Tribunal Eclesiástico sobre o processo canônico de Padre Cícero, e estudar os fatos com objetividade histórica. Isso é um primeiro passo importantíssimo. O segundo é, baseado nesses estudos, fazer a reabilitação da figura de Padre Cícero, perante a Igreja e a sociedade. Por aí podemos chegar a um passo seguinte, que este, acredito, seja a longo prazo, de beatificação?, arrisca dom Valério. ?Padre Murilo (pároco de Juazeiro, que sempre visita Alagoas) disse que está perto a canonização de Padre Cícero?, alegra-se a romeira alagoana Ivanilde Batista, organizadora de romarias, mais conhecida como Dóia. EMPENHO PESSOAL Antes de ser bisco de Penedo, dom Valério ocupou o cargo de Provincial dos Salesianos do Nordeste, e, como tal, conheceu mais a fundo a história do Padre Cícero. Foi assim que o bispo de Penedo tornou-se um defensor, dentro da Igreja Católica Romana, de que seja revisto o processo que resultou na cassação dos direitos sacerdotais do Padre Cícero pelo Tribunal Eclesiástico de Roma. O próprio dom Valério teve oportunidade de falar sobre o assunto com o então cardeal Joseph Ratzinger, quando esteve no Vaticano, há três anos. O contato foi feito por meio de um arcebispo de Roma, que foi seu professor. ?Descobri que um dos últimos documentos na pasta de Padre Cícero é uma carta que enviei contando a sua história, há cerca de 15 anos, e pedindo a reabertura dos arquivos?, diz dom Valério. Isso significa, no mínimo, que a carta não foi ignorada. Tudo isso, aliado ao empenho do atual bispo de Crato, a cuja Diocese é ligada à cidade do Juazeiro, leva o bispo penedense a acreditar que desta vez o processo deve caminhar para a reabilitação do Padre Cícero, em breve. Na avaliação de dom Valério, ninguém que conheça a história pode ignorar o histórico espiritual criado pelo Padre Cícero. ?Eu vi a devoção dessas multidões que vão ao Juazeiro. E eles vivem, nos tempos de romaria, um tempo de grande intensidade espiritual marcado pela confissão, pela comunhão e pela devoção a Nossa Senhora das Dores. Onde há devoto do Padre Cícero não há abandono da fé católica, pelo contrário?, afirma. Para dom Valério, se ele (Padre Cícero) deixou esse legado, sua história tem que ser revista. ?Não se pode condenar uma planta que dá bons frutos?, assinala dom Valério. ### Romeiro enfrenta dureza para chegar a Juazeiro do Norte Todos os anos a doméstica Dilma Ferreira faz o percurso de 750km entre Maceió e Juazeiro do Norte, integrando um grupo de romaria do ?Padrinho Cícero?. Já fez isso 58 vezes. Na primeira viagem tinha apenas 12 anos e foi de caminhão. O pai organizava as romarias. ?Eram três dias de viagem, muita estrada de barro. A gente dormia ao relento, era só forrar a esteira no chão e fazer um travesseiro de pedras?, lembra. As primeiras impressões de Dilma, ela nunca esqueceu: ?Juazeiro era como uma terra encantada, uma cidade santa. Hoje cresceu, tem muito comércio, mas continua santa. Feliz de quem bota os pés no Juazeiro?, diz ela. Dilma, agora, vai de ônibus, a gasta cerca de 12 horas. E sempre que pode, ajuda um novo romeiro a chegar lá. Relíquia Dona Mocinha (Zélia Ferreira), a mãe de Dilma, ensinou-lhe a devoção. Ela já foi 55 vezes ao Juazeiro, e, até hoje, aos 91 anos, prepara-se, animada, para a próxima viagem, em setembro, na festa de Nossa Senhora das Dores. ?A fé do romeiro faz ele sempre voltar?, diz ela. Já viajou com a filha, os netos e bisnetos. Tem orgulho da devoção da família. No pescoço de dona Mocinha, o símbolo da fé é uma relíquia. Romeiro que se preza tem sempre um rosário da Mãe de Deus no pescoço, hábito introduzido pelo Padre Cícero. Mas o dela tem um valor especial. Foi benzido pelo próprio padre, em pessoa. ?Não tiro ele para nada?, diz dona Mocinha, entoando versos de um bendito (cântico religioso) das romarias. ?Eu tenho o meu Rosário; a ninguém entregaria. Só entregarei no céu, a Conceição de Maria?. No Juazeiro, garante que cumpre todas as obrigações de romeiro, apesar da idade. ?O primeiro compromisso, quando chega, ainda com a roupa da viagem, é se apresentar a Nossa Senhora das Dores, na Igreja?, ensina Dilma. Antigamente, quando o Juazeiro era pequeno, os caminhões davam três voltas na Igreja, com os romeiros dando vivas, lembra dona Mocinha. Hoje, o trânsito não oferece mais condições para isso. FA ### Romeiro reza, passeia e sonha com milagres A visita ao Horto, à Casa de Padre Cícero e ao Museu também são obrigações tão sagradas quanto os benditos e as orações, mesmo para quem esteve no local por mais de 50 vezes. E o que o romeiro leva na bagagem? ?O Rosário, o caderno de benditos, recados de quem não pode ir, e muitas cartas para o ?Padrinho Cícero?, responde Dilma. As pessoas pedem orientação, falam de seus problemas e esperam um milagre. Quando era vivo, Padre Cícero respondia a todas elas. A mãe de Dona Mocinha tinha pelo menos duas cartas-respostas recebidas do padre, relíquias, que acabaram destruídas pelo tempo. Na bagagem de volta, o romeiro traz medalhinhas, fitas, retratos, estatuetas e uma infinidade de souvenirs lançados e renovados pelo mercado da fé. Convicção Mas toda a romaria não tem a força do milagre. Perguntar a um romeiro se Padre Cícero é santo, é ter a certeza de que a resposta é uma só. ?Padre Cícero é santo, e faz muitos milagres!?, sintetiza Dona Mocinha. E começa a contar a todos que, acredita, aconteceram milagres em sua própria vida. Dá um Rosário. Ela garante que Padre Cícero lhe aconselhou, em sonho, sobre o seu casamento. ?Não parecia sonho. Eu estava angustiada. Tinha sido pedida por um homem bem mais velho do que eu (ela tinha 18 e ele 32 anos). Todo dia pedia com fé a meu padrinho Cícero para me dizer se eu deveria aceitar o pedido. Um dia eu estava sentada, cochilando, e um homem chegou na porta. Parecia um mendigo. Aí perguntou: é a senhora que quer casar com seu Porfírio Ferreira Leite? Pode casar. Na hora eu acordei e vi que era Padre Cícero. Corri para ele, mas desapareceu?, relata. Na época, Padre Cícero era vivo, mas a fama de seus milagres já corria pelos quatro cantos do Nordeste. Outra vez, segundo o relato de Dona Mocinha, o Padre celebrava para uma multidão e de repente interrompeu a pregação, perguntando quem, ali, se chamava Deocleciano. ?O homem se identificou, meio temeroso. Mas Padre Cícero disse: pegue três homens e vá lá na mata, em tal lugar, que sua mulher deu a luz e a amiga dela está aperreada sem saber o que fazer. O rapaz foi e lá estava, exatamente como o padre disse?.