Cidades
Alagoana descobre fonte de renda nas ruas de Toritama
CARLA SERQUEIRA Repórter Já era domingo, dia 15, mas o sol ainda não tinha nascido. Um grupo de dezesseis pessoas, entre guia, motorista e sacoleiras, marcou viagem para as 4h da madrugada. O ponto de partida foi o condomínio Rosa dos Ventos, no Jaraguá; e o destino, Toritama - uma pequena cidade do agreste pernambucano dona de uma economia de metrópole. É a segunda maior consumidora de tecido do Brasil e responsável por 15% da produção nacional de peças em jeans. São mulheres que perseguem o sonho de uma renda própria; muitas delas, cansadas de se submeterem aos maridos para conquistar algum poder aquisitivo. E é na revenda de confecções que elas vêem a saída. ?Sou artesã. Trabalho com coco; mas não tenho apoio da prefeitura. A minha meta é não depender de meu marido?, disse Tereza Rosália Chagas da Silva, natural de Jequiá da Praia, litoral sul de Alagoas. ?Moro em Jequiá, mas vendo também em Duas Barras?. Tereza tenta, com as vendas, quitar um empréstimo. ?Tirei dinheiro para investir no artesanato, mas não deu certo. Aí resolvi vender roupa?. Pela segunda vez ela viaja para buscar mercadoria. Na poltrona ao lado, viaja a irmã de Tereza, Tânia Chagas, 26. ?Vou ficar com uma parte para ajudar a vender em Maceió?, falou, animada com a nova tarefa. Entre as viajantes, outra característica comum: todas pararam de estudar e as que mais permaneceram na escola concluíram apenas o segundo grau. ?Casei cedo. Com 21 anos tive meu primeiro filho. Hoje me arrependo muito de não ter continuado os estudos. Queria ter uma profissão?, disse Letícia Menezes Rodrigues, uma baiana de 51 anos que está morando em Maceió e pela segunda vez foi a Toritama. ?Meu marido trabalha na área petroquímica. A obra acabou e em breve estaremos voltando para Salvador?, disse, esboçando um desejo: ?Estou planejando uma forma de continuar viajando. Acho que vou começar a revender na Bahia?. Com clientela formada, elas transportam as mercadorias até as mãos dos fregueses, estejam eles em suas residências ou no trabalho. ?Meus clientes são todos de banco. Como sou comerciante, tenho muita amizade?, conta Pâmela Camila Viana, de 23. ?Quem tem credibilidade compra no cheque, parcelado. Mas tem lugar que só com dinheiro mesmo?, diz com um ar de veterana. Há dois anos, Pâmela viaja para recarregar o estoque numa freqüência trimestral. ### Lazer ajuda a passar tempo na excursão Cerca de 270km separam Maceió de Toritama. São quase 4 horas de viagem. ?Pra mim a viagem por si só já vale a pena. Gosto de ficar olhando a paisagem na janela?, comentou Lisabete Reis, 34, que já percorreu o mesmo caminho quatro vezes. ?E sempre vim com Marinalva. É muito bom viajar com ela, porque ela anima a gente e não fica cansativo?. Lisabete se refere à guia Marinalva Batista Damasceno e às brincadeiras que realiza dentro do veículo. ?Organizo bingo, realizo sorteios de brindes. Faço tudo para que o dia também se torne de lazer?, diz ela, que há 20 anos trabalha com turismo e há 3 organiza excursões para Toritama. ?Já trouxe muita gente de Alagoas. Em 2003 e 2004, viajava duas vezes por semana?, contou. Gustavo Morgan é dono de uma locadora de carros em Maceió. Só no ano passado, sua empresa alugou Vans 35 vezes com destino à Toritama. Seu lucro, segundo ele, é de 70% com as viagens. E foi numa Van fretada que as alagoanas chegaram no Parque das Feiras, por volta das 8h30. Cada uma pagou R$ 35 pelo transporte. ?Vou levar umas 200 peças?, disse Pâmela Camila, afirmando investir desta vez R$ 2 mil em mercadorias. ?Sou sacoleira com muito orgulho?, diz ela, explicando as dificuldades de constituir firma. ?É muito imposto?, conta. Pâmela afirma que, a exemplo dela, muitas donas de lojas de grife também compram em Toritama. ?Ninguém mais gasta com avião para comprar roupa em São Paulo tendo Toritama tão perto?. O jeans, hoje, é o forte de Toritama que há duas décadas era referência no comércio calçadista. Às margens do Rio Capibaribe, a cidade possui 3 mil fábricas de confecções e cerca de 70 lavanderias que tratam o tecido. Com taxa de desemprego zero, Toritama tem 30% de seu quadro funcional preenchido com mão-de-obra de outras cidades. As lojas parecem de Primeiro Mundo e algumas têm até praça de alimentação própria. Os preços das peças em jeans não passam de R$ 40 e algumas sacoleiras chegam a lucrar 100% nas revendas. CS ### Maceió já foi Centro para as sacoleiras Há trinta anos o movimento das sacoleiras era o inverso. Muitos ambulantes saíam de Toritama para abastecer o comércio de Maceió. Na época, calçados e algumas peças em malha chegavam de Pernambuco e preenchiam as vitrines do Centro. A família de Ivanize Maria Guimarães nasceu em Toritama e testemunhou seu crescimento. ?Meu pai até hoje traz mercadorias para Maceió?, conta ela, dizendo que muita gente virou milionária na cidade. ?Conheço gente que começou comprando coberturas em Boa Viagem; depois em São Paulo; e agora investe em imóveis em Nova York?. Ivanize é toritamense. ?Quando eu era criança, já trabalhava com confecções. Toda mocinha aprendia logo a costurar?. Com 14 anos, ela assistiu à chegada do jeans em Toritama. ?O tecido vinha de São Paulo. Muita gente começou a fazer calças em casa?. Ivanize hoje é psicóloga e mora em Maceió há 24 anos. ?Me apaixonei por um alagoano e vim para cá. Talvez se eu tivesse ficado, hoje estivesse rica?. Com o nome Toritama ela batizou sua loja na Avenida Jatiúca. As confecções que vende são todas fabricadas por familiares e amigos. ?O nome chama atenção. Procuro manter os preços baixos para que valha mais a pena comprar aqui do que viajar para lá?, diz. Edson Tavares é dono de uma fábrica e uma loja em Toritama. Ao todo emprega 80 pessoas. Sua empresa fabrica todos os meses 15 mil peças. Ele afirma que algumas fábricas já exportam. ?A minha ainda não, mas já estamos negociando com alguns países?. Kil Dong Oh é um coreano que há 7 anos está no Brasil. Em novembro do ano passado inaugurou sua loja em Toritama e em fevereiro deste ano, sua fábrica. Um boliviano também já começou a investir na cidade. |CS ### Região fatura R$ 2,1 bilhões por ano Junto com Toritama, Santa Cruz do Capibaribe e Caruaru formam o chamado Pólo de Confecções do Agreste. De acordo com a Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (Addiper), a região fatura R$ 180 milhões todos os meses, o equivalente a R$ 2,1 bilhões por ano. Em todo o Estado pernambucano são produzidas 850 milhões de peças de roupas; deste total, o pólo fabrica 693 milhões e emprega 77 mil pessoas. Só em Toritama, dos 25.400 habitantes, 95% trabalham diretamente com a produção de confecções. A Secretaria da Fazenda de Pernambuco informou que, por mês, só de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços), Toritama arrecadou R$ 360 mil apenas no mês de abril. Em dezembro, quando o movimento for maior, a arrecadação chegou a R$ 550 mil. Para se ter uma idéia, a Secretaria da Fazenda de Alagoas, durante todo o ano de 2004, arrecadou R$ 667 mil com o setor têxtil, que é representado por 24 empresas, entre elas, três fábricas de grande porte. O gerente de fiscalização da Sefaz de Pernambuco, Benedito Santos, reconhece que ainda existem muitas empresas na informalidade. ?Há centenas de fábricas que funcionam em residências?, diz ele. Para quem compra sem nota, a aventura pode acabar em multa proporcional ao valor da compra. ?Se a mercadoria for em grande quantidade, é feita a apreensão?, afirma Benedito, dizendo que no ato é cobrado o ICMS e mais 60% em cima do valor do imposto. Para as sacoleiras, o diretor de Mercadorias em Trânsito da Secretaria da Fazenda de Alagoas, José Arnaldo, sugere que se cadastrem como ambulantes. ?Elas podem tirar visto de ambulantes utilizando apenas o CPF [o Certificado de Pessoa Física]?, afirma, explicando que esta foi a maneira que a Sefaz em Alagoas arranjou para iniciar um controle desta atividade. ?É um problema constante, mas sabemos que passa por uma questão social. Estas pessoas não têm empregos e resolvem se tornar sacoleiras?. De Alagoas para Toritama, um posto fiscal fica entre União dos Palmares e São José da Lage. Segundo José Arnaldo, cerca de 2 mil termos de apreensão de mercadorias são expedidos todos os meses no Estado. CS