Cidades
Estudo aponta morte precoce de �ndios
REGINA CARVALHO Repórter Palmeira dos Índios - Vítimas da miséria e do descaso, índios da tribo xucuru-kariri, aldeamento da Fazenda Canto, em Palmeira dos Índios, estão morrendo mais cedo. Instituições oficiais não dispõem de dados precisos sobre a informação, mas pesquisadores confirmam que a expectativa de vida dessa população é menor do que a média nacional. O problema foi constatado depois de pesquisa realizada no período de 2001 a 2003, por professores doutores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e médicos de várias especialidades. Um dos fatos que mais chamaram a atenção de pesquisadores é que foram encontrados poucos idosos na Fazenda Canto, onde a média de idade é de 25 anos e que 50% da população de xucurus-kariris na localidade tem menos de 19 anos. ?Os mais velhos que encontramos tinham em torno de 37 anos?, acrescentou a médica hematologista Rosana Brandão Vilela. Esse resultado vai na contramão do que diz o IBGE, que já informou a tendência do aumento expressivo do número de idosos no País nos próximos anos. Segundo pesquisa divulgada pelo instituto, o Brasil vai ocupar a 6ª posição em população com mais de 60 anos no mundo. Doença e morte Embora com insuficiência de informações oficiais sobre o assunto, relatório divulgado durante a 3ª Conferência Nacional de Saúde aponta que as taxas de morbidade e mortalidade entre índios são três a quatro vezes maiores que as encontradas na população brasileira em geral. Em relação à morbidade, foi verificada no relatório a alta incidência de infecções respiratórias e gastrointestinais agudas, malárias, tuberculose, doenças sexualmente transmissíveis, desnutrição e doenças preveníveis por vacinas que poderiam ser reduzidas com o estabelecimento de ações sistemáticas de saúde. A situação dos índios se agrava ainda mais porque não existe acompanhamento médico. ?Eles recebem a visita de especialistas apenas uma vez por semana?, esclareceu Rosana Vilela. Pesquisa O grupo de pesquisadores realizou entrevistas, exames de sangue e fezes e medidas de peso e altura na maioria dos 550 índios que vivem na Fazenda Canto. Um dos resultados que mais chamaram a atenção foi a grande presença de verminoses nos índios. Na aldeia foram realizados 192 exames de fezes. Desses, 143 pessoas tinham o problema. Ou seja a cada 100 examinados, setenta e cinco tinham infecção provocada por vermes. No universo de 100 pesquisados, trinta e duas pessoas tinham anemia, sendo a maior parte formada por crianças de até dois anos. Trinta índios adultos, dos cem analisados, também apresentavam gordura no sangue e em 21 crianças e adolescentes da tribo na Fazenda Canto. O professor e pesquisador Luís Sávio de Almeida, que lidera o grupo de estudos sobre ?Índios de Alagoas: cotidiano e etnohistória?, destacou que na pesquisa realizada na tribo xucuru-kariri foram observados aspectos socioeconômicos e saúde, tendo como eixo principal a questão de nutrição. ?Nosso objetivo era fazer um diagnóstico que permitisse que o índio falasse, respaldado por uma universidade, sobre sua situação?, informou Luís Sávio. De acordo com ele, a tribo na Fazenda Canto foi escolhida por motivos triviais. ?Pela proximidade e por não exigir grandes despesas, escolhemos a xucuru-kariri. A questão da miséria que eles vivem é muito contundente?, acrescentou o professor e pesquisador. Luís Sávio destacou que os índios da localidade têm consciência de que estão num ambiente não saudável, principalmente por conta de parasitas presentes na água parada que fica na aldeia, consumida por eles. ?Esse problema da parasitose nos chamou muito a atenção?, ressaltou. Essa situação é agravada pela ausência do abastecimento de água no local. ### Tribo alagoana entre as mais pobres do NE O professor Luís Sávio enfatizou ainda que a situação dos índios é bastante delicada. Segundo ele, esse grupo vive pressionado pelos ricos por causa da terra e pelos pobres que acreditam que eles (os índios) são favorecidos (por conta da terra que têm). ?Os índios formam uma população extremamente pobre?, ressaltou o professor. Ele confirmou que a miséria acaba acarretando em sérios problemas de saúde e, por sua vez, na morte de índios. ?Na verdade a miséria é uma máscara?, destacou. A questão da terra também foi ressaltada pelo membro do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Jorge Vieira. ?Temos consciência desse problema?, disse Vieira. Luís Sávio citou como exemplo a tribo kariri-xocó, de Porto Real do Colégio, considerada uma das mais pobres do Nordeste, que também foi fonte de pesquisa. ?Eles tinham o artesanato de porte, que não existe mais e a pesca também está comprometida?, ressaltou. |RC