Cidades
�ndices n�o surpreendem governo de AL
CARLA SERQUEIRA Repórter Apesar de revoltar qualquer alagoano, ou brasileiro, os números divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) referentes a Alagoas não causaram surpresa entre cientistas e representantes do governo estadual. ?A gente não tem conseguido modificar esta realidade desde 1960?, afirmou o secretário de Desenvolvimento Econômico, Arnóbio Cavalcante. Alagoas é o Estado mais pobre do Brasil com dois terços da população vivendo com até meio salário mínimo. Para o economista Cícero Péricles, ?esse indicador pode ser explicado por três fortes ausências na economia alagoana: de um conjunto articulado de pequenas e médias empresas, que aumente e distribua a renda; de pólos dinâmicos que sejam capazes de substituir as importações por exportações; e, por último, a falta de setores públicos estadual e municipal com capacidade de investimentos?. A incapacidade alagoana de investir é explicada pela dependência de verbas federais. O município de Pindoba, por exemplo, depende 100% dos repasses e Maceió, 72,1%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). ?É um estado totalmente dependente que faz uma pose de que está encontrando o caminho, mas não existe caminho nenhum?, criticou o sociólogo Alberto Saldanha, dizendo não concordar com a política econômica adotada pelo governo federal. Segundo ele, o maior problema é a retenção dos recursos. ?Para saneamento básico estão autorizados R$ 932 milhões, mas só foram usados R$ 7 milhões até agora; educação, previstos R$ 634 milhões, só foi gasto R$ 1 milhão. Esta é a política econômica que prioriza manter o superávit primário e pagar a dívida externa. E o que acontece? Os programas sociais estão quase todos parados?, observa. ### Miséria é sentida na pele por alagoanos Não precisa ir muito longe para ver a situação de miséria em que vive 62,3% dos alagoanos. Numa breve passagem pela Favela Sururu de Capote, no Dique Estrada, todos os índices negativos de Alagoas revelados pelo Ipea podem ser comprovados sem contestações. Há oito anos, Janecleide Araújo Brandão, 19 anos, mora na favela. Mãe de quatro filhos - o mais novo tem apenas dois meses de idade - ela diz que possui Carteira de Trabalho desde 1985, mas nunca a teve assinada. Sem emprego, sem educação e sem perspectiva, Janecleide vive do que seu esposo consegue apurar como carregador no mercado da produção. ?Tive que vir para cá porque não tinha mais como pagar aluguel?, diz ela, sem saber ao certo com que renda alimenta as crianças. ?Com o que ele consegue, a gente compra comida e come de noite?. Uma legião de pedintes cresce a cada dia nas ruas de Maceió. A família de Maria de Fátima da Silva vive de esmolas. Ela também mora na Favela Sururu de Capote e divide o barraco - sem banheiro e sem cozinha - com seu esposo e mais três filhos. Com 27 anos e grávida de oito meses, Maria diz que nunca estudou. ?Às vezes eu choro. Ninguém sabe o tamanho do meu sofrimento?. De acordo com o Radar Social 2005, Alagoas concentra a maior proporção de negros analfabetos do Brasil. Segundo o secretário de Defesa e Proteção das Minorias, Zezito Araújo, o dado não é novidade. ?Dentro dos grupos sociais mais vulneráveis, os negros são os mais vitimados?, diz ele. ?No Brasil, o racismo é institucional?, critica Zezito, explicando que os negros sempre foram discriminados. ?A própria história negra é negada aos negros. Nas escolas, a origem dos afro-descendentes brasileiros não é tratada devidamente?. A realidade dos negros alagoanos está também impressa nos dados sobre a pobreza divulgados pelo Ipea. Em Alagoas, 67,8% dos negros são pobres - vivem com até meio salário mínimo. ?A iniciativa do governo federal com o programa Primeiro Emprego não atendeu seu maior público que é formado por negros?, disse Zezito, ?muitos sequer têm informações sobre o programa?. |CS ### Maceió é a quarta em taxa de homicídio Sem educação, sem emprego e morando em condições subumanas, o caminho dos pobres alagoanos, quase sempre, se depara com a violência. De acordo com o Radar Social 2005, a cidade de Maceió ficou em quarto lugar em taxa de homicídio. ?Já levei sete facadas dentro de casa?, disse o desempregado Alexandro Nascimento Romário, de 21 anos, ?ele veio para me matar. Uma das facadas levei no pescoço?, contou, referindo-se a um ?conhecido? que quis se vingar por ?causa de ambição?. O secretário de Defesa Social de Alagoas, Robervaldo Davino, afirmou que os crimes de homicídio na capital diminuíram 40% entre os anos de 2002 e 2003 e questionou a valia da pesquisa do Ipea. ?Esta pesquisa é antiga; é de 2003?, disse. Segundo ele, em 2004, uma outra diminuição na taxa de homicídio de Maceió foi contabilizada. ?O número de crimes deste tipo caiu 5%?, anunciou. Para o sociólogo Alberto Saldanha, os índices da pesquisa, por si só, já explicam a posição de Maceió no ?ranking? brasileiro de homicídios. ?Enquanto o motivo maior ainda não é o narcotráfico - como o caso de Vitória que lidera o índice de hominício - os dados sociais já explicam a incidência da violência na cidade?. Robervaldo Davino diz que os índices de homicídio na capital vêm diminuindo devido à política preventiva adotada pelo governo. ?Em três anos, 100 policiais foram presos?, diz ele. José Carlos da Silva tem 34 anos. Há 11 chegou de Arapiraca na esperança de encontrar uma vida melhor. ?Emprego mesmo, nenhum?, disse ele. Hoje José Carlos mora com a esposa, Josefa Maria da Silva, 35, e mais nove filhos, na Favela Sururu de Capote. ?Aqui as crianças vêem coisas que não deviam?, fala, temendo quebrar a lei do silêncio imposta por bandidos da região. Na opinião de Saldanha, enquanto não houver uma política eficaz de combate à violência e a população continuar só assistindo, Maceió vai caminhar progressivamente para a situação em que se encontram as grandes metrópoles. ?Quem pode está se blindando. As capitais estão sofrendo o processo de favelização cada vez mais rápido?. |CS ### Cientistas criticam a política estadual O grande entrave do desenvolvimento social, na visão do sociólogo Alberto Saldanha, é a monocultura da cana-de-açúcar que domina a economia alagoana há séculos. ?Todos os estados do Nordeste têm diversificado suas pautas de exportação. Em Alagoas, 90% da pauta é concentrada no setor sucro-alcooleiro. Então há uma mentalidade conformista. O grande setor econômico se mantém muito bem politicamente e fica por isso?, afirma. O secretário de Desenvolvimento Econômico, Arnóbio Cavalcante, reconhece que é necessário investir na diversificação da economia e lembra a abertura da indústria alagoana para o turismo e para os setores químico e plástico. ?Além da diversidade, precisamos melhorar a infra-estrutura do Estado, mas para isso é vital a participação de verbas federais?, avaliou. ?Alagoas vinha ao lado de Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte como a mais nova potência turística nacional e internacional e o Estado foi capaz de colocar tudo isso abaixo. Hoje, a gente está perdendo para Sergipe. Não temos saneamento básico, o esgoto é jogado direto na praia?, rebateu Saldanha. O estado de inércia da economia alagoana, de acordo com o economista Cícero Péricles, ?se explica pela inexistência de um empresariado numeroso e de um governo capaz de realizar investimentos, independentemente de verbas federais, dando contrapartidas para atrair o capital de outras regiões e apoiar os empreendimentos que já estão instalados?. Já para Alberto Saldanha, o primeiro caminho é a mudança da concepção econômica do governo federal de retenção de verba. ?Ou seja, a aplicação total dos recursos previstos para os programas sociais?, diz ele. ?Esse governo tem muito mais programas que o anterior, mas o dinheiro só sai a conta-gotas?, reclama, criticando a política adotada pelo governo estadual. ?Não adianta ter um monte de programas estatais dizendo: ?projeto empreendedor, aprenda a valorizar o seu negócio? numa sociedade de baixa renda, com pouco poder aquisitivo e um alto índice de analfabetismo. Fica muito complicado?, avalia o sociólogo. |CS