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Caatinga vira carv�o no Sert�o e Agreste

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MAIKEL MARQUES Repórter Arapiraca - A circulação de caminhões transportando madeira retirada de forma clandestina da caatinga sertaneja é fato cotidiano na região Agreste e, principalmente, em Arapiraca, município pólo e principal consumidor da matéria-prima que alimenta fornos de pizzarias e padarias. O comércio clandestino que acentua a devastação da caatinga ganhou força depois da desativação do posto do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) em Arapiraca. Criado em 1991, o posto ?morreu? uma década depois, em 2001. COMÉRCIO CLANDESTINO ?Depois da desativação, o comércio clandestino de madeira corre solto na região de Arapiraca?, afirma Helaelson Almeida, analista ambiental que trabalhou como chefe do posto do Ibama em Arapiraca e hoje cumpre com sua missão profissional em Quebrangulo. O escritório mantinha 8 funcionários que cuidavam da fiscalização ambiental em 53 cidades do Agreste, Sertão e Baixo São Francisco. Eles combatiam o transporte clandestino e sem licença ambiental de produtos e subprodutos da fauna e flora da região. Bem distante Depois da extinção da representação do Ibama em Arapiraca, o trabalho de fiscalização para manter viva a caatinga sertaneja ficou sob responsabilidade da gerência executiva do órgão, em Maceió. ?A estrutura era precária, mas conseguíamos chegar com rapidez e flagrar os devastadores?, recorda Helaelson Almeida, que trabalha desde 2001 na unidade de conservação Pedra Talhada, uma reserva ecológica situada em Quebrangulo. Antes do ?enterro? do posto do Ibama em Arapiraca, a gerência do órgão já tinha desativado os postos de Penedo e São Miguel dos Campos. O distanciamento dos fiscais das áreas de preservação da caatinga facilitou a ação dos grandes predadores. Eles retiram madeira em grande quantidade e contribuem para a devastação de bioma que já sofre as agruras do período de estiagem. O desmatamento silencioso e cotidiano ocorre principalmente na região de Major Isidoro e Alto Sertão, segundo dados da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Pizza e pão ?Eles [os predadores] só poderiam retirar a madeira depois de vistoria de técnicos do Ibama?, orienta Helaelson Almeida, segundo o qual a devastação ?corre frouxa? e ganha impulso diante da avidez de empresários que dependem da madeira para movimentar, por exemplo, os fornos de padarias e pizzarias. ?O comércio clandestino de madeira retirada da caatinga é muito grande. Também não temos estrutura suficiente para coibi-lo?, afirma o tenente coronel Neuton de Lima, comandante do Batalhão Ambiental da Polícia Militar, que mantém postos de fiscalização em 11 municípios do interior. Tráfico O coronel da PM também concorda com a necessidade de reforço de fiscalização na região ao redor de Arapiraca. ?O município é rota não apenas de madeira clandestina como também de animais silvestres capturados em nossas reservas ambientais?, alerta Neuton de Lima. Ao todo, a PM conta com 140 policiais para cuidar de reservas ambientais nas seguintes cidades: São Miguel dos Milagres, Marechal Deodoro, Coruripe, Jequiá da Praia, Penedo, Traipu, Piranhas, Palmeira dos Índios e Quebrangulo. ### Ibama reclama da falta de verba e fiscais O Departamento de Fiscalização do Ibama em Alagoas planeja combate à devastação da caatinga e aos compradores da madeira retirada de forma clandestina para abastecer os fornos de padarias e pizzarias. Para que viajem ao interior, os fiscais dependem da liberação de verba para custear uma operação de 15 dias de fiscalização. ?A fiscalização no interior do Estado é complexa. Os funcionários só se deslocam com o pagamento de diárias. A mobilização desse pessoal por 15 dias seguidos não sai por menos de R$ 20 mil?, explica Eduardo Toledo, chefe da fiscalização do Ibama em Alagoas. O órgão do governo federal conta com apenas oitos fiscais no interior do Estado. Próximo alvo Para suprir a precariedade de sua estrutura, conta com auxílio do Batalhão Ambiental da PM e Polícia Rodoviária Federal (PRF). ?Nosso quadro de fiscais é muito reduzido?, reconhece o chefe da fiscalização. Questionado sobre a devastação da caatinga, Eduardo Toledo afirmou que o alvo da próxima fiscalização serão as padarias que compram e queimam madeira clandestina no Sertão e Agreste. O diretor de fiscalização também confirmou a dificuldade de fiscalização da origem da madeira comercializada em Arapiraca, cidade pólo da região Agreste. Antes do fechamento do escritório, a fiscalização era diária. ?Atuávamos nas entradas e saídas da cidade. Hoje, dependemos de recursos para o deslocamento ao interior?, justifica. Devastação Bioma especificamente nordestino, a caatinga ocupa 7% do território nacional. Estende-se pelos estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe e Alagoas. Dados atualizados mostram que sua área ultrapassa 1 milhão de quilômetros quadrados. Apenas 6% de sua área original está preservada, segundo dados da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Geralmente devastada com finalidade comercial, a caatinga também é fonte de sobrevivência de sertanejos que geralmente utilizam os gravetos para cozinhar alimentos já que não têm poder aquisitivo para pagar R$ 32 pelo botijão de gás. ?Se não utilizarem os gravetos, como vão preparar seus alimentos??, questiona o tenente-coronel Neuton Lima, comandante do Batalhão Ambiental da Polícia Militar. A coleta dos gravetos da caatinga faz parte do cotidiano de milhares de agricultores que vivem nos municípios do Alto Sertão. |MM ### Madeira usada como lenha por agricultores Quem trafega pela rodovia AL- 220, que liga Arapiraca ao Sertão, geralmente encontra camponesas equilibrando na cabeça pesados feixes de madeira retirada da caatinga. ?Se não utilizar a madeira, como posso preparar a alimentação da família? E a fogueira de São João? Você acha que a gente vai ficar sem fogueira??, questiona a agricultora Iracilda Maria da Conceição (56), que vive no povoado Bacurau, na zona rural de Jaramataia. Lenha A agricultora Francisca Maria da Silva (54) alimentou os nove filhos - hoje maiores de idade - utilizando lenha para o cozimento de arroz e feijão. Sua justificativa é conhecida: ela não tem poder aquisitivo para pagar R$ 32 pelo botijão de gás. Iracilda Maria da Conceição e Francisca Maria da Silva recolhem madeira duas vezes por dia. O agricultor José da Conceição, também do povoado Bacurau, utiliza madeira da caatinga para cozinhar em sua residência. ?Recolho gravetos duas vezes por dia?, explica. Fogueira junina Os agricultores que vivem nos diversos povoados do interior não fugirão à tradição dos festejos juninos. Para tal, arrancarão da caatinga os gravetos necessários à tradicional fogueira. Para o chefe da fiscalização do Ibama, Eduardo Toledo, a utilização da madeira da caatinga para fins de subsistência não é crime, mas acentua ainda mais a devastação da vegetação. ?O consumo é pouco, mas constante. Isso nos preocupa. O ideal seria que os agricultores tivessem outras alternativas de combustível?, afirma. A madeira retirada da caatinga sertaneja também alimenta centenas de carvoarias clandestinas espalhadas por propriedades rurais de difícil acesso. Os fiscais do Batalhão Ambiental da Polícia Militar de Alagoas dificilmente conseguem fiscalizar a queima da vegetação. ?A população do interior dificilmente denuncia a queima clandestina de madeira. Isso dificulta nosso trabalho?, revela o coronel Neuton de Lima. |MM

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