Cidades
Centro traz esperan�a para drogados
MARCOS RODRIGUES Repórter A falta de políticas públicas criou um exército de menores e adultos dependentes químicos em Maceió. A cola de sapateiro tem sido o único alimento, fonte de prazer e o combustível, nas ruas, para a prática de furtos que garantem a sobrevivência de mais um dia. A falta de um centro especializado no tratamento da dependência levou, no ano passado, o Núcleo da Criança e do Adolescente do Ministério Público a multar o município de Maceió. Agora, o tratamento pode se tornar realidade com a criação da Casa Recuperação em Ipioca. O projeto é de responsabilidade da Fundação Municipal de Apoio à Criança e ao Adolescente (Funacriad) e tem funcionamento previsto para o próximo mês. A eficácia, porém, virá com a criação de uma casa de passagem, onde será feita a triagem dos adolescentes. O assunto já começou a ser discutido com o prefeito Cícero Almeida (PTB). Para adiantar o trabalho a Funacriad irá fazer incursões pelas ruas para identificar os adolescentes que poderiam ser incorporados ao centro de recuperação. A falta de um local especializado preocupa a Justiça. Para o juiz da 1ª Vara Criminal da Infância e da Juventude de Maceió, Alex Sóstenes, as medidas socioeducativas aplicadas não resolvem o problema da dependência. ?Há uma reincidência alta entre os dependentes, o que mostra a necessidade de a relação adolescente-infrator e droga ser mais profunda?, considera o magistrado. Ele defende o tratamento especializado como única alternativa e lembra que o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente prevê, no ?rol das medidas de proteção, o tratamento para alcoólatras e toxicômanos?. Enquanto isso não vem, os meninos e meninas se reúnem na Praça Deodoro, entre as sedes da Câmara Municipal de Maceió e o Tribunal de Justiça. Estima-se que perambulam pelas ruas da capital cerca de 2.500 crianças, adolescentes e jovens. Parte delas oriunda do interior. Para socorrê-los, entidades filantrópicas, ONGs e voluntários religiosos fazem sua parte. Alimentam sonhos e esperança de uma vida melhor. Mas o resultado desse trabalho está cada vez mais distante de ser o ideal. A compensação espiritual ou oficial não resolve a questão e ainda burocratiza as relações. Um exemplo é a escolha dos conselheiros tutelares. Ela contou com o apoio de vereadores municipais, que raramente apresentam projetos destinados a retirar as crianças das ruas. Ao invés de incentivar a atuação nas situações de risco que envolvem as crianças, infiltraram nos conselhos cabos eleitorais visando ao próximo pleito. O salário dos ?vencedores? é de R$ 1.040,00. ### Sem chances, eles voltam às ruas Segundo o coordenador do Instituto Catarse, Walmar Buarque, o índice de recuperação das crianças é menor do que os daqueles que continuam na marginalidade. ?É lamentável que, por falta de oportunidade, crianças que um dia passaram pelo nosso projeto, hoje, sejam adultos envolvidos nas mais variadas formas de crime e expostos nos programas policiais da TV?, disse. Ele mesmo relembrou uma agressão que testemunhou no cruzamento da Buarque de Macedo com a Comendador Leão, de um menor de idade a uma motorista. O crime da mulher foi não ter trocado para pagar pela limpeza de seu pára-brisa. ?O garoto meteu a mão nela e se mandou, deixando a mulher lá em estado de choque?. Há ainda o caso de um garoto que depois de freqüentar a ONG, largou tudo e foi preso por furto. Walmar diz que alertou o menino para a possibilidade de ele sofrer um estupro, ao que o garoto respondeu: ?Pra mim que não tenho ninguém, agora vou ter comida, lugar para morar e alguém pra me amar, quero mais o quê??. A cola é o maior inimigo. Aliada dos meninos e meninas de rua, ela age no cérebro como estimulante alucinógeno e moderador de apetite. A mudança do comportamento é instantânea. A ação do entorpecente no cérebro provoca uma falsa sensação de euforia. O humor das crianças fica variável. Num segundo, a discordância com um colega de rua pode virar uma briga com socos e tapas. A aquisição da cola também não é problema. A poucos metros da Câmara de Vereadores e do Tribunal de Justiça, comerciantes de material de construção revendem o produto. O principal ponto-de-venda fica próximo ao Colégio de São José, nos limites do Mercado da Produção. Os garotos com físico pouco desenvolvido deixam a tarefa da compra para os mais velhos. Todos se cotizam com os centavos que ganham limpando pára-brisa nos sinais ou vigiando carro para comprar uma lata de 300ml. A divisão é democrática. Cada um ganha quatro dedos do produto, que rapidamente começa a ser consumido. Ação da cola no cérebro é devastadora. Estudos mostram que a droga impede o desenvolvimento das funções cerebrais e em curto espaço de tempo limita o usuário a só agir e pensar no consumo. Distante de afeto, o frasco com a substância é a única coisa que as crianças dão valor. Mesmo quando dormem, ou tombam de cansaço eles não desgrudam da cola.|MR