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Artes�s s�o capacitadas para exportar

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CARLA SERQUEIRA Repórter Marechal Deodoro - A beleza do artesanato de Marechal Deodoro está enchendo os olhos da Europa. As roupas de filé, as toalhas de labirinto e até móveis feitos com palha têm conquistado espaço no mercado internacional. E é apostando no sucesso em outros países que as artesãs da pequena cidade fundada em 1636 estão se capacitando. Há três meses, cerca de 200 mulheres vêm recebendo instruções nas áreas de contabilidade e autogestão. Aulas de designer, informática e espanhol também estão agendadas entre os afazeres das artesãs, pelo menos até fevereiro de 2006, quando a Petrobras poderá estender por mais um ano o patrocínio que destina ao projeto ?Encantos do Artesanato?, uma iniciativa da Organização Não-Governamental (ONG) Associação Novo Encanto de Desenvolvimento Ecológico que atua em todo o País e também na Espanha. Fundada em 1990, a entidade tem como primeira preocupação a relação do homem com a natureza. Seus projetos objetivam a conservação do patrimônio natural e o desenvolvimento sustentável. ?Estamos trabalhando com as artesãs de baixa renda em atividades de conscientização quanto à seriedade da crise social e ambiental que a humanidade está inserida hoje?, explica o coordenador da ONG em Alagoas, Hudson Cavalcante Filho. ?Com isso, através da arte que produzem, as artesãs vão sendo incluídas na sociedade, aumentando, inclusive a sua renda?, observou. Segundo ele, muitas bordadeiras não sabem negociar seus produtos. ?Às vezes vendem mais barato que o próprio custo?, disse, ilustrando a necessidade de capacitá-las para participarem, efetivamente, do mercado globalizado. Intercâmbio No próximo mês, Hudson Cavalcante viaja para a Espanha onde Manoel Garcia já trabalha distribuindo peças do artesanato alagoano. Em abril, comprou R$ 5 mil de roupas produzidas em Marechal Deodoro e, na Europa, começou a comercializar o material. ?Vou me juntar a ele e tentar ampliar os pedidos?, disse. Manoel Garcia é espanhol, mas vive também no Brasil. De três em três meses Garcia visita lojas na Espanha, negociando artesanato. Um dos principais produtos dos artesãos de Marechal Deodoro é o labirinto, uma espécie de bordado, com o qual se fazem toalhas e roupas. Mas a idéia é aproveitar todos os tipos de artesanato feitos pelos artistas. ?A comunidade é muito carente, por isso, queremos ajudá-la a se ajustar ao mercado e ter uma qualidade de vida melhor?, justifica Hudson. ?Durante os cursos, os artesãos receberão matéria-prima, como forma de compensar o tempo em que não estarão produzindo?. As idas e vindas de Garcia estão ajudando as artesãs de Marechal Deodoro a adaptarem sua mercadoria para o gosto espanhol. ?O artesanato alagoano, como o filé, é muito colorido e o espanhol está mais habituado a vestir tom sobre tom, cores não muito vivas?, diz Hudson, justificando as aulas de designer que as artesãs serão submetidas. O projeto foi iniciado com a alfabetização de 92 artesãs para que pudessem participar das etapas seguintes da capacitação. ### Estilista ensina o equilíbrio das cores a artesãs Na última segunda-feira, dia 20, o estilista Fernando Perdigão iniciou as aulas de designer com as artesãs. Um dos mais renomados profissionais da moda no Brasil, o alagoano Perdigão é pioneiro no Estado. Desde 1983 ele realiza desfiles nos quais assina da sonoplastia até a peças usadas pelas modelos. ?O desafio é colocar os produtos de Marechal Deodoro dentro do mercado internacional. O filé tem um custo operacional muito alto e não merece ficar sendo comercializado apenas em feiras para turistas, onde, muitas vezes, não é valorizado?, comenta. Perdigão fala do declínio das rendeiras do Pontal para ilustrar o perigo que as artesãs correm em Marechal Deodoro se não forem capacitadas. ?No Brasil inteiro todo mundo conhecia as rendeiras do Pontal. Com o passar do tempo, elas não fizeram um acompanhamento de mercado. O turista vinha hoje, comprava; dois anos depois ele voltava e deixava de comprar porque encontrava o mesmo produto, sem novidade?, explica. ?A nossa meta é trazer de volta o centro do filé para Marechal, que foi onde ele se desenvolveu?, afirma o estilista, que também é pesquisador de matéria-prima. Segundo Fernando Perdigão, o mercado internacional é muito exigente e o produto de Marechal precisa estar apto para competir. ?As expectativas e chances são muitas, agora para se tornar real a conquista do mercado, a gente vai ter que trabalhar muito. Se uma loja faz um pedido de mil peças e uma estiver fora do padrão, ela nunca mais vai comprar. A blusa de filé pode ser linda, mas o consumidor quer saber se ela vai resistir a uma máquina de lavar?. |CS ### Labirinto, uma arte sem imitação As artesãs Maria Aparecida, de 35 anos, e Maria do Nascimento de Souza, de 43, estão otimistas com a capacitação. Elas produzem a arte do filé desde criança e sustentam suas famílias com o que ganham do bordado. ?Aprendi com minha mãe a trabalhar com o filé?, conta Aparecida. ?Minha filha de 10 anos também já sabe fazer peças, está aprendendo os pontos?. De acordo com o estilista Fernando Perdigão, só o filé tem mais de 30 pontos. ?Isso determina a variação de textura, define a transparência que as peças terão?, ensina. Maria do Nascimento deixa fluir um brilho de satisfação no olhar quando se fala em exportação do material que produz. Segundo ela, ver pessoas vestindo o filé é motivo de orgulho. ?Quando vejo algum artista na televisão com filé, fico muito feliz?, conta. Para fazer uma blusa de mangas compridas, Maria gasta três dias. Uma peça custa em torno de R$ 50. ?Nós recebemos muita gente aqui, muitos turistas vêm só para comprar o filé?, afirma, se referindo ao Espaço Cultural Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul, um prédio no Centro de Marechal Deodoro onde as artesãs podem comercializar seus produtos. Casa do Labirinto É neste espaço que está instalada a Casa do Labirinto, uma cooperativa formada por 17 artesãs. Este tipo de bordado é uma herança portuguesa e está em extinção no Brasil por causa da falta da linha de linho, original, que não é mais fabricada. ?A gente vem adaptando com outro tipo de linha?, conta Maria Cícera que começou a fazer o bordado com 7 anos de idade. ?A maioria das mulheres que faz o labirinto começou com esta idade?, diz. A produção da Casa do Labirinto já começou a ser exportada para os Estados Unidos e Portugal, além de estados brasileiros como São Paulo e Rio de Janeiro. A última venda que as artesãs realizaram foi para Miami, para onde 200 peças em labirinto foram enviadas. Josefa Lourinto tem 61 anos e desde os sete produz o labirinto em Marechal Deodoro. ?Esta é uma arte que nenhum japonês consegiu, até hoje, imitar?, diz, se referindo à complexidade para bordar uma peça. Grande parte dos produtos bordados é toalhas de mesa e roupas. A capacitação realizada pela ONG Associação Novo Encanto de Desenvolvimento Ecológico vai se estender até o ano que vem. ?Estou gostando muito porque estamos aprendendo a calcular melhor o nosso lucro. Estamos aprendendo contabilidade e isso vai ajudar na hora de colocar o preço na mercadoria?, disse uma das artesãs, durante o intervalo de uma palestra sobre financiamento em bancos. Linhas e agulhas O projeto Encantos do Artesanato, por meio do patrocínio da Petrobras, está disponilizando linhas e agulhas para que as artesãs não fiquem sem produzir enquanto participam da capacitação. ?Outra coisa positiva é que a Petrobras também está comprando a produção. Quando vai haver um evento, a empresa encomenda artesanato para dar de brinde?, diz o coordenador da ONG em Alagoas, Hudson Cavalcante. ?Pretendemos formar um grupo de 10 a 20 pessoas, que funcionarão, no futuro, como agentes multiplicadores?. |CS

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