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Benedito Mossor�: gl�ria e decad�ncia do
PLÍNIO LINS Repórter A Rua Jequiá, no Canaã, bairro encravado na região do Tabuleiro, parte alta de Maceió, é maltratada pelo poder público. Agora, no inverno, a rua é só buraco e lama. Fábricas se instalaram por ali nos últimos dez anos. Nem assim, a rua mereceu asfalto ou paralelepípedo. Quem passa, hoje, pela Rua Jequiá e não conhece o seu passado, nem vai desconfiar que durante quase um quarto de século (de 1967 ao início dos anos 90) por ali passavam e estacionavam, durante longas horas, os melhores carros de Maceió, levando empresários, políticos, advogados, jornalistas, literatos, gente de poder e influência. Ali ficava um endereço conhecido em toda Alagoas - a boate Areia Branca. Seu dono era um homem que, ainda em vida, virou folclore, quase lenda: Benedito Alves dos Santos, o Mossoró. APOGEU E DECADÊNCIA Toda cidade tem suas personalidades e seus personagens. As personalidades governam, fazem leis, condenam ou absolvem, montam grandes empresas, são donos de terras, de gado, de prédios e de gente. Têm poder. Os personagens não têm nada disso - mas são esses que dão vida ao lugar. Benedito Mossoró foi um personagem de Maceió que ganhou a camaradagem e o respeito das personalidades da terra. Acabou se tornando parte da cultura popular alagoana. Era o dono do maior e mais prestigiado prostíbulo de Maceió. Negro e praticamente analfabeto, saiu do nada para se tornar um próspero empresário do prazer, o rei da noite. Virou letra de um samba de sucesso nacional, foi tema de tese acadêmica de graduação - em História - na Universidade Federal de Alagoas e foi capaz de transformar uma casa de prostitutas em atração turística. Hoje, quase onze anos após sua morte, só restam pobres lembranças de Benedito Mossoró. A casa no Canaã - onde ele morava, mantinha seu negócio e seu viveiro de passarinhos - não tem mais os 3 mil metros quadrados dos velhos tempos. O terreno foi repartido. Os antigos quartos de prazer, hoje, são alugados para moradia barata. Na casa, moram o filho mais velho de Mossoró, Roberto, e a esposa, Meire. Eles vivem do aluguel dos quartos e dos trocados de uma banquinha de jogo-do-bicho na porta da casa. Os tempos de esplendor e fartura, hoje, são só saudade. ### Mestre-pintor, pé-de-valsa, empresário Se estivesse vivo, Benedito Alves dos Santos completaria 89 anos na próxima sexta-feira. Nasceu em 1º de julho de 1916, no Engenho Ligação, da Usina Utinga Leão, em Rio Largo. Morreu em 14 de dezembro de 1994, aos 78 anos, de complicações causadas por diabetes, em Maceió. Antes de se internar, comprou um carro novo. Carros eram uma de suas paixões, junto com passarinhos e, claro, mulheres. O próprio apelido vem de uma das primeiras que ocuparam seu coração, a potiguar Maria Mossoró, mulher valente como o cão, que dava surras em policiais. Benedito veio a pé de Rio Largo para Maceió em 1931, aos 14 anos. Arrumou ocupação vendendo geladinhas. Foi servente de pedreiro e serviçal, até que aprendeu o ofício de pintor. TINTAS E MULHERES ?Fui só melador de paredes?, disse Mossoró, em sua última entrevista, em 1992. Modéstia dele. Com o tempo, tornou-se um mestre-pintor requisitado em todo o Estado. Pintou desde casas de gente rica até o Palácio dos Martírios e várias igrejas. Ganhou dinheiro com isso, além de amizades importantes e duradouras. Vestia-se bem e tinha muitas namoradas. ?Eu gastava muito com as mulheres, e elas gostavam aqui do negro. Então resolvi que em vez de só gastar, eu ia ganhar dinheiro com elas?. Essa decisão mudou a vida do mestre-pintor. Mal sabia ele que mudaria também a própria vida da cidade. Benedito aprendeu os 32 passos do tango, a dramática e sensual dança argentina. Saber dançar o tango era trunfo valioso nos cabarés. Tornou-se um pé-de-valsa respeitado e disputado pelas mulheres. Então pôs em prática seu projeto: alugou um casarão na Rua Sá e Albuquerque e montou a boate e casa de prostitutas Tabariz. Quem o ajudou foi Gedalva Bezerra dos Santos, sua namorada fixa na época, depois esposa legítima e mãe de dois dos três filhos que Mossoró registrou. Gedalva cuidava da boate e ele, das mulheres. |PL ### Fim da alegria em Jaraguá: o xixi que fechou a zona O Tabariz se estabeleceu em 1955, num dos sobradões da Sá e Albuquerque. O ex-governador Divaldo Suruagy, que pesquisou a respeito, garante que o Tabariz ocupava um dos dois casarões onde hoje funciona a FAL. A zona, como em toda cidade litorânea do mundo, ficava perto do porto (marinheiro desce do navio louco por mulher) e era dividida em duas: na Sá e Albuquerque, os cabarés ?para ricos?, e no ?Duque? ficavam bares mais modestos; por ali batiam pernas as prostitutas de rua. O uísque no Tabariz era honesto, contrabando vindo do Porto, ali pertinho. Os fiscais da alfândega colaboravam: freqüentadores dos cabarés, eles faziam questão de só beber o escocês legítimo. O CORONEL linha-dura Jaraguá fervia nas noites. Os negócios iam bem para os 16 cabarés da área. Até que... Até que numa noite de 1967 - assim reza a lenda - o poderoso coronel Adauto, comandante da PM e secretário de Segurança, passava de carro com a esposa e viu um sujeito urinando. Ordenou que os cabarés saíssem de Jaraguá. ?Por causa de uma mijada, ele mandou fechar a zona?, lembrou Mossoró em 1992. |PL ### Na Areia Branca, os tempos do apogeu O fechamento dos cabarés de prostitutas na Sá e Albuquerque, em 1967, marcou o início da decadência e da agonia de Jaraguá. (O velho bairro boêmio só ensaiaria uma recuperação no início dos anos 90, com a chamada revitalização). Benedito Mossoró tratou de recomeçar a vida no mesmo ramo. Nos 12 anos de Tabariz ele havia juntado dinheiro e comprado um bom pedaço de terreno no Canaã. E subiu com suas ?meninas?. Em 20 de abril de 1967, Mossoró inaugura, com uma festa grandiosa, a ?Churrascaria e Boate Areia Branca?. Os amigos garantiam que o título de ?churrascaria? era sério: afinal, diziam, a principal atividade do estabelecimento era mesmo a venda de carne, só que crua... REI DA NOITE A clientela, cada vez mais seleta, subiu para o Tabuleiro junto com Mossoró. E em pouco tempo, agora praticamente sem concorrentes, Mossoró e sua Areia Branca imperavam absolutos no mundo da prostituição em Maceió. Foi a época do apogeu, das festas memoráveis, de reuniões políticas e de negócios, de banquetes na ampla mesa de madeira de lei, à frente do grande espelho no salão da residência particular de Benedito Alves dos Santos. A Areia Branca, nesses anos dourados - que se estenderam por mais de duas décadas - chegou a ter 80 mulheres, que se revezavam atendendo aos clientes nos 23 quartos da casa. Elegante em seu terno branco, Mossoró recebia quem chegava com um sorriso. As mulheres da casa vinham de várias partes do país. Mossoró as selecionava pessoalmente. Na entrevista à Conversa de Botequim, no bar Casablanca, em 92, Mossoró disse que para trabalhar na Areia Branca, não bastava que uma mulher fosse bonita de rosto e corpo. ?Tinha que saber agradar o cliente?, disse. E quem faz o teste para dar o emprego? - perguntou o entrevistador. ?Ah, o teste é comigo mesmo? - respondeu, rindo. Todos os depoimentos confirmam: ele dormia cada noite com uma mulher diferente. |PL ### Cabaré vira tema de trabalho acadêmico Mossoró tornou-se parte da paisagem humana de Maceió. Ele e suas ?meninas? viraram personagens de histórias que entraram para o anedotário popular de Alagoas. E, recentemente, o Pai Véio (como era chamado pelas jovens prostitutas) foi tema de tese acadêmica na Ufal. Os formandos Nívia Oliveira dos Santos, Marcos Antonio Barros Martins e Marcus Vinícius de Menezes Marques, do curso de História, escolheram Benedito Mossoró como objeto de estudo no seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Orientados pelo professor Julião Marques, eles elaboraram Benedito Mossoró: de cortador de cana a rei da noite, um alentado levantamento de sua vida. FARRA ACABA EM SAMBA Mossoró virou letra de samba de sucesso nacional. O cantor-compositor Martinho da Vila esteve em Maceió, em 1981, para se apresentar. Depois do show, com uma caravana de anfitriões, subiu para o Areia Branca. Foi uma farra monumental. (O publicitário Arlindo Chagas, falecido há três meses, adorava narrar essa esbórnia com detalhes engraçadíssimos). Martinho saiu dali encantado. Voltou para o Rio e compôs o samba Sentimentos, sucesso nacional que virou hino popular em Alagoas: ?E depois vamos vadiar / com as meninas do Mossoró / só em Maceió...?. Passaram, também, pela Areia Branca, em ocasiões diversas, Vera Fischer, Altemar Dutra, Ângela Maria... Mossoró, na sua simplicidade de homem do povo, torcedor fanático do CSA, foi se tornando um ?paizão? no Tabuleiro. Tinha mais de 200 afilhados. Sua boate, nos anos 70 e 80, era sinônimo de diversão e sexo sem aborrecimentos. Eram raras as brigas dentro da casa: Mossoró sabia contornar situações. O garçom, Seu Djalma, um negro forte e sério - cujo passado só uns poucos conheciam - desencorajava os valentes. ?Já matou um?, diziam dele. Quem iria brigar? Talvez por isso, Arlindo Chagas cunhou a frase que resumia o Areia Branca: ?É o puteiro mais família do Brasil!?. |PL