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Sem merenda: crian�as longe da escola

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BLEINE OLIVEIRA MAIKEL MARQUES Repórteres Em muitas escolas públicas alagoanas, pouca coisa - ou quase nada - mudou após a Operação Guabiru, investigação da Polícia Federal que levou para a cadeia prefeitos, ex-prefeitos e secretários municipais, acusados de desviarem verbas destinadas à merenda escolar. Mas há municípios, principalmente, entre aqueles que não tiveram seus dirigentes atingidos pela investigação da PF, em que o medo provocou mudanças na gestão dos recursos da merenda. O alimento, antes escasso ou inexistente, tem aparecido na hora do lanche. Passados 40 dias da prisão de oito prefeitos, quatro ex-prefeitos, secretários municipais e outros acusados de corrupção é prematuro dizer que a operação Guabiru mudou a face corrupta da merenda escolar em Alagoas. Fome e aprendizado É senso comum a afirmação que, na rede pública, expressiva parcela das crianças vai à escola muito mais em função da merenda que propriamente do aprendizado. A menina Corina Karolina Soares, de seis anos, é um exemplo real de que a esperança de comer é o estímulo que leva milhares de crianças alagoanas a freqüentarem a escola. Filha de pais separados, Corina mora com uma tia num casebre, na zona rural de Feira Grande. Todos os dias, a menina acorda cedo para percorrer vários quilômetros até a escola, no povoado Massapê, onde cursa a 2ª série. Mesmo atenta aos ensinamentos da professora, Corina espera ansiosa pelo toque da campainha que indica a hora do recreio. ?Tia, tem merenda hoje??, pergunta a menina. Mais uma vez a resposta frustra a pequena aluna: ?Não, Corina. Hoje, não tem merenda?. O alimento falta pelas ações do prefeito Fábio Apóstolo Lira, conhecido como Fabinho da Granja, preso pela Operação Guabiru. A Prefeitura de Feira Grande recebeu do governo federal, em março último, R$ 14.505 e em junho R$ 17.406, exclusivamente, para a compra de merenda escolar destinada aos alunos da educação infantil e do ensino fundamental, mas as despensas continuam vazias. Objetivo do PNAE O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) tem o objetivo de ?atender às necessidades nutricionais dos alunos durante sua permanência em sala de aula, contribuindo para o crescimento, o desenvolvimento, a aprendizagem e o rendimento escolar dos estudantes, bem como a formação de hábitos alimentares saudáveis?. Pelo que demonstraram as gravações realizadas pela Polícia Federal, durante a Operação Guabiru, os administradores ignoram completamente esse objetivo, agindo como autênticos guabirus (que o Dicionário Aurélio define como larápio, gatuno, rato). Eles tiram de milhares de crianças como Corina Karolina um direito constitucional, um direito de cidadania. Talvez, temendo o mesmo destino de seus colegas presos, vários prefeitos trataram de providenciar o cumprimento dos objetivos do PNAE. A merenda que antes faltava já está aparecendo em muitas cidades. Mais e melhor ?Temos recebido informações de que em muitas escolas pelo interior a merenda vem sendo distribuída com mais regularidade e até mesmo com melhor qualidade?, revela o presidente do Conselho Estadual do Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), professor Milton Canuto. Ele ressalta que o dado não é oficial, pois não é atribuição do conselho que preside fiscalizar a aplicação das verbas do PNAE. A afirmação é baseada em relato de professores e técnicos da área de educação com os quais mantém contatos freqüentes. Como especialista da área educacional, Canuto confirma a avaliação de que a merenda é um estímulo à freqüência escolar. ?Sem merenda, muitas crianças perdem a capacidade de aprender?. Para ele, a operação teve até mesmo efeito pedagógico, pois com ela muitos prefeitos passaram a ter um procedimento mais adequado e correto em relação ao dinheiro público. ### Crianças furam fila no Peti para garantir alimentação Os mais de 350 alunos do Povoado Massapê, que passam fome na escola municipal de Feira Grande, convivem com situação paradoxal: observam a mesa farta destinada as 265 crianças inscritas no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) do governo federal, num prédio a 30 metros da escola. ?A comida tem qualidade. E eles escolhem o que comer?, explica a professora Raquel Matos. ?Mas, infelizmente, a comida não dá para matar a fome dos alunos que ficam sem merenda?, avisa. Toda regra tem sua exceção. A pequena Corina Karolina Soares, a garota que vai à aula de estômago vazio, é uma das poucas crianças que ignoram a determinação de que somente os alunos do Peti têm direito ao lanche. Ela fica ?quietinha? no final da fila. Quando chega sua vez, avisa que está com fome e que quer comer. ?Eu não seria capaz de negar uma simples bolacha a uma criança carente e que saiu de casa com estômago vazio?, diz Raquel Matos Sobrinho.

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