Cidades
Professor desconhece a Mata Atl�ntica
FÁTIMA ALMEIDA Repórter Uma pesquisa realizada por amostragem, em 15 escolas alagoanas, revelou o baixo nível de conhecimento de professores das redes pública e privada em relação à Mata Atlântica. Ao responderem a um questionário com sete perguntas de múltipla escolha, sobre aspectos específicos do principal bioma da nossa região e um dos mais ricos do mundo em biodiversidadede, 70% dos professores ficaram numa margem entre zero e um acerto. Apenas 3% dos 155 professores que participaram, acertaram entre quatro e cinco questões e nenhum respondeu a todas corretamente. A maioria dos que tiveram mais acertos leciona disciplinas de áreas afins à questão ambiental (geografia, biologia ou ciências). Além do questionário, alunos e professores das escolas pesquisadas participaram de uma dinâmica aplicada pelo pesquisador, onde deveriam escrever nomes de animais e espécies vegetais que habitam a Mata Atlântica. O Mutum-de-Alagoas, espécie que somente existia na área ocupada pela mata em nosso Estado, não foi citado. E o Pau d´arco, denominação nordestina do Ipê, foi lembrado apenas duas vezes, apesar de aparecer mais vezes com a denominação de Ipê. erro do leão O Muriqui, considerado pela ONU uma reserva da biosfera da Mata Atlântica, também não foi lembrado. O Sabiá, outro símbolo nacional, só foi citado por dois alunos e um professor. Em compensação, o Leão, que não é típico das nossas matas, ficou em terceiro lugar nas citações dos alunos e foi mencionado, também, por vários professores. Outro aspecto interessante nessa etapa da pesquisa, é que 52% dos animais e árvores referenciados como sendo da Mata Atlântica pertencem a outros biomas brasileiros, ou são de outras partes do planeta. A pesquisa serviu de base para a dissertação de mestrado em Gestão e Auditoria Ambiental do engenheiro civil Rogério Araújo e pode servir de modelo para trabalhar, também, em outros Estados, por meio do Instituto para Preservação da Mata Atlântica (IPMA), organização não-governamental com a qual Rogério trabalha desde 2002, com projetos de educação ambiental. O trabalho do pesquisador alagoano também foi selecionado para ser apresentado durante o Encontro de Integração da Fundação Universitária Ibero-Americano, em Florianópolis ( SC), no final do ano. universo pesquisado Para realizar a pesquisa, Rogério escolheu seis escolas estaduais, sendo três na capital e três situadas em áreas dedomínio da Mata Atlântica, no interior do Estado; seis municipais, distribuídas da mesma maneira; e mais três escolas particulares, com diferentes valores de mensalidade. A escolha da comunidade escolar como ambiente da pesquisa, segundo ele, foi porque, sendo instituições onde o conhecimento é produzido, várias referências poderiam ser aproveitadas, como o grau de instrução dos entrevistados, a relação com o meio e aspectos sócio-econômicos. As escolas municipais do interior, escolhidas para a amostragem, participam de um Programa de Educação Ambiental (PEA) voltado para a Mata Atlântica, mas não foram detectadas, nos resultados, diferenças significativas entre elas e as demais escolas pesquisadas, embora o melhor desempenho, tenha sido da Escola Nossa Senhora do Livramento, pertencente à rede municipal de Cajueiro. Segundo Rogério, foram analisadas 10.260 respostas dos questionários aplicados aos professores e coordenadores escolares e de fichas distribuídas com alunos da 7ª série de todas as escolas e professores de todas as disciplinas. Desafios Na avaliação do pesquisador, a mudança desse perfil é o grande desafio apontado pelo estudo, e o caminho, na sua opinião, está na abordagem da educação ambiental, com ações integradas, de caráter permanente. ?Educação ambiental exige contextualização e tem que ser transversal e integrada, com diversas áreas do conhecimento abordando o aspecto social, econômico, ambiental, cultural, histórico...?, diz Rogério Araújo. Ele pretende que a sua pesquisa se transforme num instrumento para essa mudança de comportamento, mostrando às instituições públicas estaduais e municipais que é preciso promover um maior conhecimento da Mata Atlântica. Esse conhecimento, na sua opinião, passaria, necessariamente, por mudanças de estratégia, como capacitação dos professores de todas as disciplinas para as questões ambientais, planejamento e adequação do material didático. ?Isso é possível, desde a alfabetização. Ao invés do ?Z? de zebra; do ?L? de leão; do ?G? de girafa, as crianças poderiam aprender com o ?Z? de zabelê; o ?L? de lontra e o ?G? de gato-do-mato, que são animais da Mata Atlântica?, sugere Rodério. ### Devastação acaba com mata em Alagoas O pesquisador Rogério Arapujo destaca a Mata Atlântica como um dos mais importantes e ameaçados biomas brasileiros, responsável pela regulagem do fluxo de importantes mananciais hídricos; pelo controle do clima; fertilidade do solo; e estabilização das encostas em boa parte do território nacional. ?Nas suas áreas desenvolvem-se atividades econômicas diversas, que representam 80% do PIB nacional?, diz ele. Mesmo abrigando a maioria das áreas protegidas do País, a devastação fez estragos, antes da conscientização sobre a necessidade de preservação. Na época da colonização, a vegetação da Mata Atlântica cobria 15% do território nacional. Hoje, a cobertura original ocupa uma área de aproximadamente 7%. Em Alagoas, a devastação é ainda mais expressiva. Da vegetação original, que ocupava 57% do território estadual, hoje restam apenas 3%. A importância da Mata está também na sobrevivência de muitas espécies. Segundo Rogério, das 473 espécies de animais ameaçados de extinção nos sete biomas brasileiros, 57% vivem em suas áreas. A área de domínio da Floresta estende-se por 17 estados brasileiros, passando por 50% dos seus municípios. ?Além disso, a Mata Atlântica detém o recorde mundial de espécies arbóreas por hectare e os mais altos índices de espécies animais e vegetais típicos, que somente ocorrem em seu ambiente?, diz o pesquisador. Projeto Calipso Na avaliação de Rogério Araújo, que também desenvolve um projeto pioneiro interdisciplinar em educação ambiental no complexo estuarino lagunar Mundaú-Manguaba (o Projeto Calipso), o processo de devastação diminuiu consideravelmente nos últimos anos, inclusive com empenho de grupos privados na recuperação de algumas áreas. ?Isso foi possível graças a uma legislação ambiental forte, que impõe restrições penais, e a atuação de organismos governamentais e não-governamentais na questão ambiental?, concluiu. Pelo Brasil A mata atlântica originalmente percorria o litoral brasileiro de ponta a ponta. Estendia-se do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, e ocupava uma área de 1,3 milhão de quilômetros quadrados. Tratava-se da segunda maior floresta tropical úmida do Brasil, só comparável à Floresta Amazônica. O grande destaque da mata original era o pau-brasil, que deu origem ao nome do nosso País. Alguns exemplares eram tão grossos que três homens não conseguiam abraçar seus troncos. O pau-brasil hoje é quase uma relíquia, existindo apenas alguns exemplares no Sul da Bahia. FA ### Desmatamento é ameaça constante ao que sobrou Mesmo reduzida a 7,3% de seu território original e muito fragmentada, a Mata Atlântica possui uma importância social e ambiental enorme. Para cerca de 70% da população brasileira que vive em seu domínio, ela regula o fluxo dos mananciais hídricos, assegura a fertilidade do solo, controla o clima e protege escarpas e encostas das serras, além de preservar um patrimônio histórico e cultural imenso. Na Mata Atlântica nascem diversos rios que abastecem as cidades e metrópoles brasileiras. Originalmente, a Mata Atlântica ocupava 1.290.000 Km2, ou seja, cerca de 12% do território brasileiro. Sua extensão levou à formação de diferentes ecossistemas, que incluem as faixas litorâneas do Atlântico, florestas de baixada e de encosta da Serra do Mar, florestas interioranas e matas de Araucária. Essa grande diversificação ambiental proporcionou à Mata Atlântica uma enorme diversidade biológica. O total de mamíferos, aves, répteis e anfíbios que ali ocorrem alcança 1361 espécies, sendo que 567 são endêmicas (só ocorrem ali), representando 2% de todas as espécies do planeta, somente para esses grupos de vertebrados. A Mata Atlântica ainda possui 20.000 espécies de plantas - das quais 8.000 são endêmicas - e é o segundo maior bloco de floresta tropical do País. Um levantamento realizado em 1996 na Estação Biológica de Santa Lúcia, no Espírito Santo, mostrou que, em apenas um hectare de Mata Atlântica, foram encontradas 476 espécies arbóreas, pertencentes a 178 gêneros e 66 famílias. É a maior diversidade de árvores do mundo, superando todos os valores conhecidos da Amazônia e demais florestas tropicais no mundo. Apesar dessa grande biodiversidade, a situação é extremamente grave, pois das 202 espécies animais ameaçadas de extinção no Brasil, 171 são da Mata Atlântica. Um estudo da organização ambientalista Conservation International (CI) coloca a Mata Atlântica entre os cinco primeiros colocados na lista dos Hot Spots, áreas de alta biodiversidade mais ameaçadas do planeta e prioritárias para ações urgentes de conservação. O motivo é o desmatamento - e a conseqüente perda de hábitat - ainda acelerado e fora do controle dos órgãos públicos responsáveis. Desde 1988, a Constituição Federal declara a Mata Atlântica patrimônio nacional e, em 1993, através do decreto 750, definiu-se legalmente o domínio da Mata Atlântica e a proteção aos remanescentes florestais e matas em regeneração. O monitoramento desse ecossistema realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e o Instituto Socioambiental (ISA), mostrou que, somente entre 1990 e 1995, mais de meio milhão de hectares de florestas foram destruídos em nove estados nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, que concentram aproximadamente 90% do resto da Mata Atlântica no País. Esse valor é equivalente a mais de 714 mil campos de futebol eliminados do mapa em apenas cinco anos, a uma velocidade de um campo de futebol derrubado a cada quatro minutos.