Cidades
Faixas apagadas preocupam pedestres
NIVIANE RODRIGUES Repórter Maceió, 18 horas. Nas ruas, o trânsito é confuso, marcado por congestionamentos que parecem não ter fim. O vaivém de carros aumenta a tensão entre motoristas e pedestres, que se arriscam na difícil travessia das vias públicas da cidade. O pior: em Maceió, quase todas as faixas de pedestre estão mal conservadas ou até mesmo apagadas. As faixas são sinalização que torna obrigatória a parada de veículo sempre que o condutor perceber a intenção do pedestre em atravessar a via. Elas inexistem em praticamente todas as ruas e avenidas, inclusive nas mais perigosas. Sem manutenção na pintura, as faixas desapareceram e nos poucos pontos onde ainda são vistas, estão quase imperceptíveis. Em outros locais, sequer foram pintadas. Sem manutenção O superintendente municipal de Transportes e Trânsito (SMTT), Ivan Vilela, reconhece o problema, diz que há muito tempo não há manutenção na pintura das faixas, mas revela que um processo de licitação está em fase de conclusão para escolha da empresa que ficará responsável por este serviço. Em parte ele atribui a estação chuvosa ao motivo pelo qual a sinalização continua apagada, porém divide a situação com a falta de dinheiro. ?Estamos esperando São Pedro dar uma trégua na chuva para começarmos a pintura das faixas. Além disso, foi colocada como prioridade a recuperação da malha viária porque não adianta pintar as faixas com o asfalto danificado?, afirma. Infração gravíssima Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estabelece que deixar de dar preferência de passagem ao pedestre quando ele está na faixa é infração gravíssima. Parar o automóvel em cima da faixa de pedestre na mudança de sinal também incide em pena. Além de pagar multa, o infrator tem sua carteira suspensa, o veículo é retido e o documento de habilitação recolhido pela autoridade de trânsito. ### Escola quer faixa contra transtorno Rua Cônego Costa, no bairro de Bebedouro. Escola Nossa Senhora do Bom Conselho, uma das mais antigas de Maceió, cuja construção data de 1903, diariamente crianças de seis, sete anos enfrentam o perigo ao atravessar a pista sem nenhuma sinalização. Histórias de atropelamentos são comuns entre os estudantes e moradores da região. Quando a campainha toca, indicando o fim das atividades na escola, começa uma verdadeira batalha entre pais, professores, funcionários e comerciantes instalados nas calçadas do colégio para ajudar os alunos a atravessarem a pista. Muitas vezes é preciso ?se jogar? no meio da rua para obrigar os carros a pararem. ?Há sete anos que a gente pede à prefeitura para colocar uma faixa e um semáforo aqui; já encaminhamos até abaixo-assinado para o Detran, Batalhão Escolar, SMTT mas não tem jeito?, diz a diretora da escola Délia Maria Lira, que atende 2.560 alunos. ?Para não ver os meninos correndo tanto risco, eu mesmo dou uma de guarda de trânsito e fico no meio da rua pedindo aos motoristas para pararem. No mês passado morreu um rapaz atropelado porque não tem faixa de pedestre aqui?, revela o ambulante Ernandes Marcos da Silva. Centro e orla O mesmo destino não tiveram as faixas dos cruzamentos da Rua do Sol, com a Ladeira dos Martírios; Rua do Sol com a Ladeira da Catedral; vários cruzamentos da Rua do Imperador; no Centro; avenidas Dom Antônio Brandão com Tomás Espíndola; Dom Antônio Brandão com a Rua Comendador Palmeira e na esquina da Embratel, no Farol. Todas estão apagadas. Nem mesmo na orla marítima de Maceió, para onde costumam ser destinados os maiores investimentos em infra-estrutura, a situação é diferente. Várias avenidas estão sem a sinalização horizontal e onde elas existem, motoristas costumam não respeitar a parada obrigatória na travessia. |NR ### Passarela perde preferência para a travessia Subindo para o Barro Duro, o problema se repete na Avenida Presidente Roosevelt, uma das mais movimentadas de Maceió. Mais à frente, na Avenida Menino Marcelo, as faixas também estão quase imperceptíveis. O percurso pela Via Expressa, que já foi considerada a ?rodovia da morte?, é ainda mais perigoso. Em frente a conjuntos habitacionais, como o Residencial Tabuleiro do Martins e ao Graciliano Ramos, os acidentes são tão freqüentes quanto os protestos de moradores exigindo segurança no trânsito. Faixa de pedestre, ninguém vê. No maior conjunto habitacional de Maceió, o Benedito Bentes, o medo e a insegurança na hora da travessia acompanham a população. Quem segue pelo Tabuleiro do Martins, na Avenida Durval de Góes Monteiro, também dificilmente encontra uma faixa pintada. Fernandes lima Mas é na Avenida Fernandes Lima, o principal ponto de entrada e saída de veículos da capital, que a situação é considerada mais grave. São poucos os trechos onde as faixas ainda existem e que podem ser visualizadas. A avenida concentra inúmeros pontos comerciais, bancos, shoppings, supermercados e o maior centro educacional de Alagoas, o Cepa. Por ela passam diariamente cerca de 3 mil a 3.500 veículos por hora nos dois sentidos, segundo a Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (SMTT). Atravessá-la em pontos sem sinalização pode ser fatal. ?Mesmo passando na faixa a gente corre risco porque os carros nem sempre param. Outro dia ia ser atropelada ali adiante e aí fiz uma jura a Deus que só atravessava no sinal?, lembra a atendente de enfermagem Josefa da Conceição, que atravessa diariamente o semáforo em frente ao Shopping Cidade, um dos poucos pontos a dispor de faixa de pedestre na Fernandes Lima. No local, a correria é para conseguir atravessar a pista dupla em 16 segundos, tempo que o semáforo permanece aberto para o pedestre. Em frente ao Cepa, a correria e o risco aumentam. Jovens, crianças e idosos aguardam a hora ?exata? de correr até o canteiro no meio da avenida e dali para o outro lado da pista dupla. Sem a faixa de pedestre, os carros sequer diminuem a velocidade. Se por um lado as faixas estão apagadas, por outro, a travessia perigosa encontra respaldo, muitas vezes, nos próprios pedestres, que preferem se arriscar a ter que gastar uns minutos a mais utilizando as passarelas construídas na Avenida Fernandes Lima, no Canaã e Ufal, no Tabuleiro. Mas, segundo o ex-engenheiro do antigo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), o empresário do ramo de projetos rodoviários que participou da construção da passarela, Nabucodonosor Aquino Barbosa, ?por questão cultural as pessoas não se habituaram a utilizá-la?. Outro projeto da década de 90 previa a construção de oito passarelas ao longo das avenidas Fernandes Lima e Durval de Góes Monteiro, no entanto apenas as do Canaã e Ufal foram viabilizadas. ?O problema é que o Ministério Público embargou a construção porque o projeto original não dispunha de rampas para os deficientes, uma exigência da lei?, revela o engenheiro Nabucodonosor. Para ele, dificilmente esse projeto, com defasagem de mais de dez anos, sairá do papel. ?Isso porque, para ser posto em prática, é preciso desapropriar vários imóveis ao longo do percurso?, afirma. |NR ### Faixa não evita os atropelamentos Em Alagoas, não há estatística do número de pessoas atropeladas ao atravessar faixa de pedestre, mas nos bairros o que se ouve são relatos freqüentes de vítimas sobre a falta de respeito no trânsito e ausência de sinalização. A aposentada Eurides Nogueira, 73, moradora do Jacintinho, jamais esquecerá a tarde em que foi visitar o irmão no Barro Duro e acabou atropelada por uma moto ao tentar atravessar a faixa de pedestre na pista de acesso ao bairro do Feitosa, em frente a um supermercado. ?Quando pisei na faixa, mesmo com o sinal aberto para a travessia, veio uma moto, em alta velocidade, e me atropelou. O motorista sequer parou para me socorrer?, recorda. Com fratura em uma das pernas, ela foi levada para a Unidade de Emergência (UE) de Maceió e do acidente restaram seqüelas até hoje. ?Fiquei quatro meses de cadeira de rodas e só não passei necessidade porque tenho minha aposentadoria?, lamenta. ACIDENTE O curioso é que o atropelamento ocorreu oito anos após o primeiro acidente com dona Eurides, que aconteceu no mesmo lugar. ?Um carro da Telasa [a antiga companhia telefônica de Alagoas] me atropelou quando passava na faixa de pedestre. Dessa vez bati a cabeça no asfalto e fiquei internada?, revela a aposentada para quem ?os motoristas não respeitam faixa de pedestre?. RESPONSABILIDADES O comandante do Batalhão de Policiamento de Trânsito (BPtran) em Maceió, coronel PM Marcos Pinheiro, também atribui à SMTT a responsabilidade pela pintura das faixas e a disponibilização de guardas municipais nas ruas da cidade. ?Nosso efetivo, de 210 homens, é suficiente para as missões que nos compete, mas não para esse tipo de ação nos semáforos e faixas de pedestre?. Para amenizar a situação, ele revela que policiais do BPTran estão ajudando na travessia de pedestre em áreas consideradas de alto risco. O diretor-geral do Detran, Eugênio Barros, afirma que com o processo de municipalização a responsabilidade pela sinalização das vias compete à SMTT. |NR