Cidades
Tecnologia social muda destino de comunidades
Bleine Oliveira Repórter Embora muitos possam estar praticando o conceito, poucos sabem o que significa a expressão tecnologia social. Ela está na linguagem dos especialistas em consultoria econômica e pode variar de uma idéia simples, como o soro caseiro, até as cisternas que reduzem os danos da seca. A revista virtual Consciência.net conceitua tecnologia social como ?proposta inovadora de desenvolvimento, baseada na disseminação de solução para problemas, voltados a demandas de água, alimentação, educação, energia, habitação, renda, saúde, meio ambiente, entre outras, que atendam aos quesitos de simplicidade, baixo custo, fácil aplicabilidade e impacto social comprovado?. Especialista na aplicação prática do conceito, o economista Fábio Leão, consultor do Sebrae/Alagoas, cita alguns exemplos bem-sucedidos onde a tecnologia social provocou mudanças na vida das pessoas envolvidas. Antes de citar esses exemplos, Fábio ressalta que o sucesso dessa prática é a valorização do ambiente onde será implantada. Cultura local Ou seja, ?o conceito se insere no ambiente e aproveita a cultura local, preservando e respeitando os valores das comunidades onde vamos trabalhar?, completa o economista. Como exemplo da aplicação bem-sucedida, ele cita o Arranjo Produtivo Local (APL) de Ovinocaprinocultura do Sertão de Alagoas, iniciativa do governo do Estado, com o apoio do Sebrae/AL e parceiros como o BNB, Ufal, Senai, Federação das Indústrias, Senar, Banco do Brasil, Caixa Econômica e prefeituras de oito municípios. O projeto foi tão bem-sucedido que, segundo Fábio Leão, será inscrito na terceira edição do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social. Com a distribuição de R$ 400 mil em prêmios, o concurso pretende identificar e selecionar soluções efetivas de transformação social que possam ser reaplicadas em outras regiões do País. Leite de cabra ?A experiência do APL do Sertão é fantástica? - afirma Fábio Leão, relembrando a total falta de perspectivas dos pequenos agricultores dos assentamentos Pacu e Selma Bandeira, em Pão de Açúcar, que viviam dos recursos de programas federais como Bolsa-Escola, vale-gás, Bolsa-Família e da venda de leite de cabra ao preço de R$ 0,20 o litro. Estimulados pela transferência de tecnologias sociais, treinamento e capacitação, ?os assentados desenvolveram autonomia suficiente para introjetar a cultura da cooperação e tocarem seus próprios destinos? - revela o consultor do Sebrae. Hoje, além do aumento na produção do leite, eles serão capacitados na produção de iogurte e licor à base de leite caprino. ### Soro caseiro e multimistura: tecnologia que salva vidas Com possibilidade também de ser inscrito no concurso Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social está o trabalho das costureiras da comunidade Juvenópolis, em Maceió. Elas receberam treinamento oferecido pelo Sebrae e seus parceiros e, hoje, as 12 profissionais envolvidas no projeto têm renda média mensal de até R$ 330,00. O prêmio é considerado um dos principais instrumentos disponíveis para identificar e selecionar tecnologias sociais para difusão e reaplicação. No Juvenópolis, as costureiras, que produzem fardamentos, adquiriram máquinas industriais para desenvolver um projeto comercial. Crianças desnutridas Outro bom exemplo de tecnologia social, termo que a princípio nos remete a algo grandioso e caro, é o soro caseiro, a simples mistura de uma pitada de sal com dois punhados de açúcar em um copo d?água que tem salvado milhares de vidas de canto a canto do País. O soro caseiro, todos sabem, combate a desidratação e reduz a mortalidade infantil. Mas é preciso salientar que os números positivos da mortalidade por meio do controle da diarréia não podem ser creditados unicamente aos efeitos terapêuticos do soro caseiro. Profissionais de saúde destacam também aspectos como educação sanitária, água de boa qualidade e rede sanitária. Alimentação enriquecida Ainda no campo saúde, a conhecida multimistura distribuída pela Pastoral da Criança, ação da Igreja Católica para recuperar crianças desnutridas, atende perfeitamente ao conceito de tecnologia social. Com uma técnica bastante simples, que pode até ser definida como artesanal, as voluntárias da Pastoral preparam um produto que, inclusive, vem sendo prescrito por pediatras que reconhecem seu valor nutricional. Em Maceió, a mistura é feita no Centro Comunitário do bairro do Sanatório. A instrutora Guiomar Borges Nascimento, que está na Pastoral há mais de 20 anos, mostra total habilidade na escolha das sementes, em seguida na torrefação e trituração dos componentes do alimento. Mistura de sementes A alimentação enriquecida, ensina Guiomar, é feita misturando-se sementes torradas de gergelim, linhaça, girassol, melão, melancia e abóbora, folhas de macaxeira, soja, farelo, gérmen de trigo e casca de ovo. Mas, como ressalta Maria do Amparo Torres, coordenadora da Pastoral, o que tem ajudado no combate à mortalidade infantil não é apenas a multimistura, mas o conjunto de ações desenvolvidas com a distribuição do complemento alimentar. Incentivo ao pré-natal, ao aleitamento materno, aproveitamento adequado dos alimentos e noções de higiene são ensinamentos que as voluntárias levam às comunidades carentes. Sem saber, elas estão disseminando tecnologia social.