Cidades
MTL denuncia viol�ncia no campo em AL
FÁBIA ASSUMPÇÃO Repórter Dezesseis famílias do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL) foram expulsas, no último domingo, da Fazenda Pecuária, no município de Passo do Camaragibe, por ordem do fazendeiro Carlos Ronaldo Melro Cansanção, que afirma ser o proprietário da área. As famílias tiveram os barracos com todos os pertences queimados pelo fazendeiro, que foi ao local acompanhado de policiais civis e militares. Elas foram jogadas dentro de caminhonetas e microônibus e foram deixadas na ponte de Joaquim Gomes, a 58 quilômetros da fazenda. ?Muitas pessoas ainda estão desaparecidas?, disse o coordenador regional do MTL, Gilvan Emídio da Silva. Área da União A denúncia da agressão sofrida pelos sem-terra em Passo do Camaragibe foi feita ontem de manhã pelos dirigentes do MTL ao superintendente do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Gino César. O coordenador estadual do movimento, Rafael Carlos, disse que a área pertence à União e as famílias, que já passaram por várias outras áreas, estavam acampadas na fazenda há dois meses. Mesmo assim, o fazendeiro Carlos Ronaldo Melro Cansanção conseguiu um mandado de reintegração de posse da área, expedido pelo juiz Sóstenes Alves Cota de Andrade, no último dia 20 de julho. Ele alegou no pedido que a área seria uma extensão de terra da Fazenda Castro, de sua propriedade. ?Eles não podiam fazer essa reintegração de posse sem a presença do pessoal do Centro de Gerenciamento de Crises da PM?, advertiu Emídio. Além disso, o juiz havia determinado um prazo de 10 dias para que houvesse a desocupação da área, prazo que só expirava no dia 30 deste mês. ?Ele ameaçou matar todo mundo e disse que só deixaria viva as crianças?, disse Cícero Macário Campos, um dos ocupantes da fazenda. ?Eles invadiram a fazenda por volta das 10 horas do domingo, queimaram as barracas dos trabalhadores com comida e roupa dentro. Agora, estamos sem nada?, relatou a esposa do trabalhador. Cícero contou que levou um tapa na cara e teve o celular quebrado pelo fazendeiro. Ele e a esposa, Maria Terezinha Tenório da Silva e os três filhos foram para a sede do Incra em Maceió porque não tinham para onde ir. Segundo o trabalhador, desde sexta-feira o fazendeiro rondava a fazenda, ameaçando os sem-terra. A área tem pouco mais de 58 hectares e estava ocupada pelas 16 famílias do MTL há apenas dois meses. Dirigentes do Incra confirmaram que a fazenda está numa área pertencente à União e que já existe um processo em andamento em Brasília de cessão da área ao Incra para assentamento de famílias sem-terra. A denúncia feita pelos sem-terra foi encaminhada à Secretaria do Patrimônio da União e o caso deve ser investigado também pela Polícia Federal. ### Agricultores da CPT voltam a ocupar praça Cerca de 1.500 trabalhadores sem-terra da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do MST voltaram a ocupar a Praça Sinimbu e o prédio do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para comemorar, ontem, o Dia do Trabalhador Rural. Camponeses e camponesas, como preferem ser chamados os integrantes da Pastoral da Terra, foram recebidos pelo governador em exercício, Luis Abílio, e entregaram uma pauta de reivindicações com 26 itens, que incluía desde a realização do mapeamento fundiário do Estado (começando pela Mata Norte) até a liberação de ônibus para o transporte de romeiros. ?O governo é que nem feijão, só funciona na panela de pressão?, provocou o coordenador da CPT, Carlos Lima, antes da reunião com o vice-governador Luis Abílio. ?O Carlinhos (Lima) é nosso parceiro e ele vai nos ajudar a mexer essa panela?, respondeu Abílio à provocação. Os sem-terra saíram em passeata da Praça Sinimbu, onde estão acampados desde o domingo, até o Palácio Floriano Peixoto. Com chapéus de palhas, peneiras com feijão, bandeiras e cartazes, eles percorreram as principais ruas do Centro. Ao chegarem ao palácio, houve um princípio de tumulto, porque os portões estavam fechados com cadeados. Depois de uma rápida negociação entre os oficiais do Centro de Gerenciamento de Crise da PM e do Gabinete Militar, os portões foram abertos e os sem-terra puderam entrar no palácio, fazendo um barulho ensurdecedor. Segundo Carlos Lima, a disposição dos sem-terra é só deixar Maceió depois que todas as reivindicações forem atendidas. Luis Abílio garantiu que o governo do Estado iria fazer um estudo da pauta de reivindicações da CPT, para ver o que poderia ser atendido. Ele se queixou da morosidade do governo federal para dar andamento às ações de reforma agrária no Estado. ?O governo federal deve acelerar mais essas ações?, pediu Abílio antes do encontro com uma comissão de trabalhadores da CPT, que só terminou no início da tarde. O governador em exercício afirmou que na medida do possível o governo do Estado pode intermediar algumas questões relacionadas à reforma agrária, como no processo de desapropriação da Fazenda Flor do Bosque. Há mais de sete anos, a fazenda é ocupada por famílias da CPT, que constantemente sofrem ação de despejo. De acordo com Abílio, apesar do processo de desapropriação de terras para reforma agrária ser de responsabilidade do governo federal, o governo estadual pode intermediar essa negociação, já que o proprietário da área disse que só negocia com o Estado. Barracos de lona Por causa da ocupação do prédio sede do Incra, na Praça do Sinimbu, o superintendente do órgão, Gino César, despachou ontem no edifício Walmap, no Centro. Na Praça Sinimbu, os sem-terra montaram barracos de lona. Como os banheiros públicos colocados na praça eram insuficientes para tanta gente, eles acabaram usando o prédio do Incra como apoio para tomar banho, lavar roupas e apanhar água para cozinhar. A ocupação prejudicou o funcionamento do órgão, já que muitos funcionários acharam mais seguro não ir trabalhar. |FAS