Cidades
Escadarias s�o perigosas, mas necess�rias
| REGINa CARVALHO Repórter Exploradas durante o período eleitoral e instrumentos de projeção política, as escadarias são utilizadas por pelo menos 300 mil habitantes de Maceió. Distribuídas por vários bairros como via normal de circulação da população, existem na capital cerca de 100 delas. A construção das escadarias, há pouco tempo, não passava sequer pelas secretarias municipais responsáveis pela execução das obras. O assunto era tratado apenas dentro dos gabinetes de titulares e do próprio chefe do Executivo, o que demonstra seu caráter mais político que social. SÓ PROMESSA ?Quando é tempo de eleição todos os candidatos vêm aqui, prometendo que vão melhorar as condições dessas escadas, mas é só promessa. Estou acostumado com isso?, lamentou o desempregado Edmilson Pedro da Silva, morador da grota Santo Amaro há 16 anos. ?Toda eleição prometem que vão colocar corrimão aqui nessa escadaria, mas até agora nada?, acrescenta. Na grota Santo Amaro, os degraus são estreitos e boa parte deles tem apenas como alicerce o barro, verdadeiras armadilhas para a comunidade que reside nessa localidade. Áreas de risco As escadarias para pedestres em Maceió representam aproximadamente cinco quilômetros de extensão. Muitas delas estão localizadas em áreas consideradas de risco de desmonoramento, mal iluminadas e de concentração de marginais. Mas a partir delas também é possível usufruir de belas paisagens. Lagoa, áreas nobres da capital e muito verde. O poder público atentou para a necessidade de construir escadarias em Maceió há mais de duas décadas. A maioria delas foi erguida nas gestões dos prefeitos José Bandeira e Djalma Falcão como forma de facilitar a vida de pedestres. Até hoje, segundo a Superintendência Municipal de Obras e Urbanização (Somurb), moradores de comunidades mais carentes solicitam à prefeitura, quase que diariamente, a construção e reparo de escadarias, que significa para eles a garantia de acesso a várias localidades da cidade desde o trabalho ao lazer. Social Para o arquiteto e urbanista Pedro Cabral, as escadarias são muito importante, têm uma função social. ?Essas obras não custam caro. As autoridades devem levar em consideração o custo social delas, pois acidentes nesses locais, sem dúvida, vão causar muito mais prejuízos?, ressaltou. Ele se refere aos prováveis acidentes que podem ocorrer nas grotas pela falta de escadarias. ?Podem vir despesas com hospitais, remédios e ambulância. Sairá mais caro?, disse. ?Todos os dias subo essa escadaria para ir trabalhar. Quando chove a situação fica bem complicada por aqui, pois fica muito escorregadio. Minha mãe, inclusive, já chegou até a cair um dia desses?, relatou André Luís Damasceno, 16 anos, que trabalha num laboratório de prótese dentária e mora no Farol, próximo à escadaria que liga a Rua Aristeu de Andrade à Ladeira Geraldo Melo, responsável por uma bela paisagem, mas também pela ação de marginais que se aproveitam da pouca iluminação do local e do grande fluxo de pedestre. José Wellington da Silva também utiliza a extensa escadaria com quase duzentos degraus da Grota Santo Amaro. Suspendendo a sua bicicleta, ele sobe com dificuldade as escadas para ir ao trabalho no bairro Tabuleiro do Martins. ?Todos os dias subo e desço quando já é noite. Já estou acostumado, porém é muito cansativo?, disse José, que faz manutenção da quadra de tênis no Condomínio Aldebaran e estava visivelmente cansado após mais uma ?escalada?. Perigo Ele conta que no inverno é muito complicado utilizar as escadas. ?Moro aqui há cinco anos e nunca vi qualquer reparo. Sempre pedimos que coloquem corrimão, mas até agora nada. Desse jeito é bem complicado?, acrescentou. A preocupação de José Wellington tem sentido à medida que a escadaria da Grota Santo Amaro é considerada uma das maiores da cidade e que dá acesso dos moradores a várias localidades. ?Meus dois filhos já levaram tombo nessa grota e meu cunhado teve o braço quebrado. Faz muito medo aqui quando está chovendo. Estou acostumado, mas sei que posso cair a qualquer momento?, ressaltou Edmilson Pedro da Silva, morador do Santo Amaro. A chuva e a ação do tempo destruíram parte das escadarias de Maceió tornando o percurso, principalmente a descida de grotas, bastante arriscado. O barro molhado também contribui para quedas e tombos, conforme relato de moradores. O desempregado Luciano Macário de Oliveira, 28 anos, conta que sofreu duas quedas na Grota Santo Amaro e por causa delas teve várias escoriações. ?Eles (as autoridades) têm que colocar corrimão e cimento nessas escadas, porque se a gente cair não tem onde se segurar, é arriscado até sofrer um acidente mais grave caso caia em um buraco desses?, lembra o desempregado, relatando os inúmeros casos de quedas envolvendo os moradores da grota. ### Prefeitura anuncia obra de recuperação O arquiteto e urbanista Pedro Cabral lembra que a construção de escadarias pode ser feita a partir de mão-de-obra local e com material encontrado em abundância e por isso mesmo não existe justificativa para não se realizar esse tipo de obra, que beneficiaria várias comunidades. Ele lembra que na construção desse tipo de obra deveria ser feito um patamar a cada 14 degraus, que serviria para o descanso dos usuários. Situação não encontrada nas escadarias de Maceió. ?Além disso deveria ter corrimão, de preferência dos dois lados?, acrescentou o arquiteto. Na opinião do arquiteto, ?no momento em que a cidade tem ocupação desordenada, com declividade muito acentuada, as escadas são as melhores alternativas; a melhor solução?, acrescentou o arquiteto. Recuperação Clécio Falcão, da Superintendência Municipal de Obras e Urbanização (Somurb), destacou que a prefeitura está realizando um levantamento criterioso das escadarias e com isso dará início à recuperação. ?Estamos fazendo um diagnóstico, pois depois do inverno é o melhor momento para iniciar a recuperação delas, sendo uma preparação para o inverno seguinte?, destacou o superintendente adjunto da Somurb. Clécio Falcão acrescentou que algumas escadarias foram recuperadas ainda no primeiro semestre deste ano para evitar acidentes. ?Foram recuperadas no Vale do Reginaldo e Jacintinho?, disse. Para os próximos dias, a Somurb anuncia o início da recuperação de mais duas escadarias em caráter emergencial, também no Vale do Reginaldo. Na maioria dessas localidades o risco surge, principalmente, da ocupação desordenada das encostas, o que acaba ocasionando no desmoronamento de barreiras. Na escadaria que liga o bairro do Farol à periferia, o fluxo de pedestres é intenso. Estudantes, trabalhadores e moradores do Vale do Reginaldo passam diariamente pelo local. ?Subo aqui pelo menos duas vezes por dia. Fazer o quê? É cansativo, mas é o jeito?, destacou Zete Cícero, 22 anos, que mora no Vale do Reginaldo e trabalha no Farol limpando veículos em um estacionamento. As escadarias também se tornaram locais de ataque de bandidos. Os relatos de pessoas sobre a abordagem de marginais e até tentativa de estupro se repetem. ?Aqui tem muito assalto à noite. Acho que porque é mal iluminado. Uma verdadeira escuridão. Já vi e soube de vários assaltos aqui?, conta o proprietário de uma lanchonete no Farol, que prefere não se identificar. Ele relata que há alguns dias uma senhora havia recebido o salário e resolveu passar pela escadaria, mas foi abordada por marginais. ?Levaram todo o dinheiro dela. Um taxista também foi assaltado aqui. Essa escadaria ajuda a população, mas infelizmente também é uma saída para marginais que se escondem facilmente em casas abandonadas da grota. Até uma garota que tinha saído do colégio foi vítima de estupro?, destacou o proprietário da lanchonete. Na grota do Reginaldo, situada embaixo do viaduto, a escadaria recebeu o reforço de corrimão há quase dois anos, conforme relato de moradores. A localidade é cercada pelos bairros Feitosa, Jacintinho e Farol. A situação nessa localidade é menos caótica do que na maioria das comunidades que precisam das escadarias. ?Antes de colocarem corrimão aqui só vivia caindo gente. Subo e desço de bicicleta nas costas todos os dias. Já me acostumei?, conta o desempregado Beronaldo Salustiano de Queiroz. |RC ### Escadarias são único acesso para pontos de ônibus Em alguns pontos da cidade, as escadarias são o único acesso entre a grota e as principais vias, onde estão os pontos de ônibus. Tamanha é a importância desse equipamento urbano que a construção e reparo de escadarias lideram o ranking de pedidos feitos à prefeitura. Alívio depois da construção, já que significou atalho e acesso para muitas pessoas, elas também se transformaram em problema por estar inseridas, muitas vezes, em percursos arriscados. O arquiteto Pedro Cabral conta que a construção das escadas, intercalando com patamares favorece a população e contribui para outros fatores. ?Além disso também o patamar faz com que a água perca a força, diminuindo o risco de desmoronamento em áreas de risco?, acrescentou. Moradora do município de Santana do Mundaú, a dona-de-casa Josefa Rosa dos Santos, 64 anos, diz que ainda não se acostumou com a escadaria do Reginaldo, onde mora sua filha, embora freqüente a grota quase todas as semanas. ?É muito cansativo subir essa escada com as sacolas, até porque tenho problema na coluna?, disse. Ela lembra que existem outras saídas que dão acesso às principais ruas, mas que para chegar ao ponto de ônibus, a única alternativa é subir as escadas. ?É muito ruim, mas é o jeito. Não tenho dinheiro para pegar um táxi?, acrescentou. Severina Maria dos Santos mora debaixo do viaduto há três anos, onde convive com situações inusitadas e perigosas. Sofrendo de vários problemas de saúde, ela diz que o alívio de não pagar aluguel esbarra na dificuldade de subir tantas escadas. ?Tenho artrose. Minhas pernas doem muito quando subo, mas esse é o jeito que tem?, lamentou a dona-de-casa. RC