Cidades
Alagoas ainda longe da inclus�o digital
MAIKEL MARQUES Repórter Arapiraca - A exclusão social caminha de braços dados com a exclusão digital em Alagoas. Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FVG) e da Organização Não-Governamental Comitê para Democratização da Informática (CDI) impõe à ?terra dos marechais? a quinta colocação no ranking dos estados com menor nível de inclusão digital. O acesso ao computador é privilégio de 3,6% da população alagoana. Noventa e seis virgula quatro por cento dos residentes no Estado são vítimas de verdadeiro apartheid tecnológico: não conhecem e talvez nunca saibam qual a importância de um computador conectado à internet. Os dados compõem o mapa da exclusão digital no Brasil. A pesquisa foi divulgada em 2003 e ratificou o fosso que separa os incluídos dos excluídos do processo digital, que permite ao cidadão conectado o acesso ao dia a dia de quem vive do outro lado do planeta, por exemplo. ?A pesquisa é atualíssima. Pouca coisa mudou desde então. É baixíssimo o número de alagoanos que têm acesso ao computador?, diz Liliane Moreira Valério, psicóloga carioca responsável pela implantação dos projetos especiais do Comitê para Democratização da Informática (CDI) em Alagoas. Superam Alagoas com baixo índice de inclusão digital quatro estados: Maranhão (2,05%), Piauí (2,78%), Tocantins (2,76%) e Acre (3,42%). Os maiores índices de inclusão estão no Distrito Federal (23,87%), São Paulo (17,98%), Rio de Janeiro (15,51%), Santa Catarina (12,03%) e Paraná (11,59%). A cidade alagoana mais bem colocada no ranking é Maceió, que ocupa posição de nº 377 e tem índice de inclusão de 9,89% de sua população. Perde para Aracaju (SE), 76ª colocada com 16,06% de inclusão e para Recife (PE), 86ª com 15,06%. No mapa nacional da inclusão digital, Arapiraca ficou na posição de nº 2056, com índice de inclusão de 2,94%. A inclusão digital beneficia poucos em São Miguel dos Campos (2,6%), Palmeira dos Índios (2,44%) e Penedo (2,2%). Delmiro Gouveia e Santana do Ipanema, cidades sertanejas, têm índices de inclusão digital de 1,86% e 1,11%, respectivamente. Ibateguara, na Zona da Mata, é o município alagoano com menor índice de inclusão digital. Ocupa posição nº 5081 e somente 0,05% de sua população tem acesso à informática. O retrocesso nos investimentos econômicos e os baixos indicadores de desenvolvimento social também contribuem para o aumento do fosso tecnológico responsável pelo surgimento de poucos incluídos e milhares de excluídos da tecnologia digital. ?O reduzido portfólio industrial de Alagoas contribui para a exclusão digital?, reforça Liliane Moreira, do CDI, talvez a única entidade sem vínculo político que luta para fomentar a inclusão digital nos rincões de pobreza do País. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são vergonhosos: pouco mais de 149,4 milhões (85%) de brasileiros nunca tiveram acesso ao computador. Por outro lado, eis uma boa nova. A cada três meses, diz o IBGE, 1 milhão de brasileiros conseguem acesso ao computador. ### Computador revoluciona vida na roça Igaci - O computador mudou ?para melhor? a vida da universitária Gleice Mary Gomes e de outros 300 filhos de agricultores da Zona Rural de Igaci, município onde a enxada continua na moda, mas a informática avança e, aos poucos, deixa de ser privilégio de quem vive nos grandes centros. ?Vivo na roça, mas conectada ao resto do Planeta?, comenta a estudante. Gleice Mary trabalha como secretária da Associação de Agricultores Alternativos de Igaci (AAGRA) e, quando tem chance, utiliza o único computador conectado à internet na sede da entidade, que fomenta projetos agrícolas desde 1988. Seu atual presidente, o agricultor Genésio Henrique, engrossa uma minguada estatística: a dos 0,98% de camponeses incluídos digitalmente sem sair da zona rural. ?Não posso ficar para trás?, diz o homem que não esconde a alegria de ver os filhos dos colegas camponeses clicando e digitando idéias nos cinco computadores doados à entidade pelo Comitê para Democratização da Informática (CDI). A Associação de Agricultores é o abrigo de uma das nove Escolas de Informática e Cidadania (EIC) criadas pelo CDI em Alagoas. Quatro delas estão na capital e outras cinco espalham conhecimento tecnológico em Palmeira dos Índios, Pão de Açúcar, Senador Rui Palmeira e São José da Tapera. ?Minha mãe sempre diz que todos nós vamos aprender informática até o fim do ano?, comenta Vilma Pereira (18), que vive no povoado Lagoa da Pedra. Ela paga R$ 8,00 ao mês porque é filha de associado mais uma ajuda de custo para que a instrutora Islanda dos Santos Lima (21) percorra 14 quilômetros para repassar seus conhecimentos aos alunos, que lutam pelo acesso à internet. ?Só dispomos de um computador ligado à internet através do telefone. O custo é alto e a utilização é racionada?, justifica Gleice Mary. Em um ano de atividade, a EIC de Igaci já introduziu no mundo digital mais de 300 jovens. No segundo semestre deste ano, a escola deve livrar da exclusão digital outras 54 pessoas cuja renda não lhes permite pagar R$ 30 na escola de informática particular na cidade. MM ### Comitê ajuda a reduzir exclusão em AL Arapiraca - Fundado com o propósito de reduzir a exclusão digital, o Comitê para Democratização da Informática (CDI) completou 10 anos de atuação no Brasil. A ?franquia social? chegou em Alagoas quatro anos atrás. Fundou sua primeira Escola de Informática e Cidadania (EIC) no Benedito Bentes, em Maceió. A semente plantada em 2000 multiplicou seus frutos e, quase cinco anos depois, viabilizou a inclusão digital de 3.500 alagoanos. ?Só não duplicamos o número de pessoas incluídas por falta de apoio?, justifica Adriana Pereira, coordenadora do CDI em Alagoas. A ONG funciona graças a parcerias com as iniciativas pública e privada, organizações não-governamentais e pessoas físicas, que são os principais responsáveis pela doação dos computadores utilizados nas escolas montadas na capital e no interior. doações de sucatas O CDI depende da doação de máquinas para incluir os excluídos do processo digital. O trabalho é lento e esbarra na ?doação de sucatas? sem qualquer condição de uso, mesmo depois da reciclagem e do conserto feito pela própria instituição. Dos 20 computadores enviados ao CDI de Alagoas em 2005, menos da metade tinha condição mínima de uso. ?Geralmente recebemos sucatas?, diz Liliane Moreira, para quem o baixo poder aquisitivo da população e a falta de visão de alguns empresários dificultam o avanço das doações. Ainda assim o CDI continua recebendo qualquer tipo de equipamento. ?É claro que o benefício social de um equipamento em condições de uso seria bem maior?, diz Adriana Pereira, defendendo a profissionalização. Os equipamentos doados com qualidade já garantiram formação de jovens carentes que hoje ocupam postos de trabalho em empresas de todo o Estado. ?Um dos diferenciais para contratação desses jovens é o fato de terem sido beneficiados pelas escolas do CDI?, reforça Liliane Moreira, comemorando a credibilidade da escola. Embora sejam muitas as dificuldades, o CDI rema contra a maré e planeja a inauguração, até o fim deste ano de mais cinco escolas de informática e cidadania nos municípios alagoanos Penedo, Pão de Açúcar (duas unidades), Major Isidoro e até em Japoatã, cidade do interior sergipano. MM ### Provedor tira Maribondo do isolamento Maribondo - A história da Internet no interior de Alagoas coleciona fracasso e algumas experiências bem-sucedidas. Um exemplo está em Maribondo. A cidade tem 17 mil habitantes, mas ?supera? Santana do Ipanema e Delmiro Gouveia, por exemplo, porque dispõe, em seu território, de provedor de acesso à Internet via cabo ou via rádio. FMT é nome do provedor criado cinco anos atrás pelo piloto de avião Federico Mentasti, autodidata em telecomunicações com experiência de mais de 25 anos. Ele é responsável pelo fim do isolamento digital de Maribondo. Seu negócio também garante o acesso de 15 empresas de Palmeira dos Índios à rede mundial de computadores. Embora seja cidade-pólo no Agreste, Palmeira não dispõe de provedor local, o que dificulta o dia-a-dia dos usuários. ?A ausência de provedor também dificulta os negócios?, diz o comerciante Donizete Correia, que gasta mais de R$ 200 por mês com Internet via telefone. Outro empreendedor, Pedro Paulo Luz, não consegue viabilizar aulas de acesso à Internet em sua escola de informática. ?Os custos são altos. A ausência de provedor local encarece o serviço?, argumenta. Resultado: alguns de seus clientes viajam para estudar em Arapiraca. Primeiro e único funcionário de seu provedor, Federico superou dois anos de adversidades, investiu recursos e conseguiu a consolidação de seu negócio. ?Hoje, o poder público de minha cidade está conectado?, diz o empresário. Quando comenta os benefícios sociais da Internet em sua cidade, Federico cita os estudantes de uma escola municipal. ?Estão sempre atualizados com os acontecimentos do planeta?, diz o empresário, que tem outro orgulho: ?Maribondo é a terceira cidade de Alagoas a dispor de seu próprio provedor?. Federico Mentasti investiu o equivalente a 10 mil dólares para montar o provedor. Já recuperou o investimento e tem lucro médio de 30% do faturamento bruto ao mês. MM ### Comércio cresce a todo vapor Arapiraca - O comércio de acesso à Internet em Arapiraca tem potencial de crescimento médio de 10% ao ano. A estimativa é do empresário Claudemon Silveira, proprietário do maior provedor do Interior, o Oops (www.oops.com.br), que mantém mais de 700 clientes em Arapiraca e prepara expansão de serviços para outras três ?campeãs? em exclusão digital: São Sebastião, Coité do Nóia e Limoeiro de Anadia. Do total de clientes da empresa de Claudemon, 38% são residências localizadas nos diversos bairros da cidade e que têm acesso à Internet via cabo ou freqüência de rádio. 72% são empresas de pequeno e médio porte, além de alguns órgãos da administração pública municipal. ?Todos os postos de saúde da cidade estão conectados à rede?, informa Claudemon. A empresa atendia Palmeira, mas desistiu do negócio em virtude da inadimplência elevada e do alto custo da mão-de-obra à disposição da clientela. ?Outra dificuldade era a concorrência com a Internet gratuita?, observa Claudemon. O negócio está agora focado na perspectiva de crescimento da clientela em Arapiraca.