Cidades
Alagoana gera crian�a em abdome
BLEINE OLIVEIRA Repórter Natural do município do Pilar, a desempregada Marluce Francisco dos Santos, de 36 anos, é uma das duas únicas alagoanas e uma das poucas no País a enfrentar uma gravidez abdominal, tipo raríssimo de gestação. A própria literatura médica se divide sobre a incidência da gravidez fora do útero. Há especialistas que estimam a ocorrência de um caso a cada 40 mil, enquanto outros acreditam que a proporção é de 1 para 10 mil, em caso de crianças vivas. Numa estimativa ou noutra o nascimento da filha de Marluce Francisco, aos oito meses de gestação, vem engrossar as estatísticas de um tipo de gravidez raro. Ela deu à luz Maria Natalina dos Santos, na noite do último domingo, 7, na Maternidade Santa Mônica. Apesar do parto de alto risco, o estado de saúde da mãe é estável e hoje ela deve ser transferida da UTI para a enfermaria. A menina, que nasceu perfeita, com 1,7 kg, continua na UTI Neonatal por apresentar as complicações naturais da prematuridade. ?Estou viva por um milagre de Deus?, disse a mãe, que tem outros quatro filhos com idade variando entre 4 e 16 anos. Sem condições de trabalhar, pois não tem com quem deixar os filhos, Marluce vive de um pensão de R$ 100 dada pelo segundo marido, de quem se separou recentemente, e do dinheiro que recebe do Bolsa-Família. São R$ 80 que, segundo ela, impedem os filhos de passarem fome. Desde o início Marluce sentiu que essa gravidez seria diferente das outras. Mas não imaginou que sua gestação seria tão rara. Ela própria não entende o que ocorreu, mas diz que ?a menina estava pregada em alguma parte dos meus órgãos?. No setor de obstetrícia da Santa Mônica a informação é de que a placenta estava próxima ao fígado, mas aderida ao útero. Insistência No relato que faz sobre os meses anteriores à cirurgia para a retirada do bebê, a mãe conta que sempre reclamou de dores nas costas. Os médicos que a atenderam, no Pilar, durante o pré-natal, chegaram a se aborrecer com a insistência de Marluce repetindo sempre que sentia que o bebê não estava no útero. ?Eles diziam que isso não existia, que nunca tinham visto menino mexer nas costas?, relata a dona-de-casa. Na semana passada, as dores aumentaram e Marluce procurou atendimento na Santa Mônica. Na maternidade especializada em gravidez de alto risco foi feita uma ultra-sonografia que mostrou a gravidez rara. É quando a fecundação ocorre antes de o óvulo chegar à trompa e o embrião acaba se fixando no abdome. Segundo os especialistas, o risco de morte do bebê, nas primeiras 24 horas, chega a 95%, havendo perigo também para a mãe. Ajuda Não há previsão para que Maria Natalina receba alta e possa ir para casa com a mãe, Marluce Francisco. A médica Alexsandra Eugênia Silva, que ontem acompanhava a recuperação de Marluce, disse que a alta da menina depende de avaliação dos obstetras que lhe dão assistência na UTI Neo-natal. Confiante na recuperação da filha, Marluce teme agora as dificuldades que vai enfrentar quando voltar para casa. Ela sabe que a menina precisará de cuidados especiais. Por isso, considera bem-vinda toda ajuda que puder receber para criá-la. A renda de R$ 180 mensais já não é suficiente para os filhos já crescidos. Será mais difícil ainda administrá-la para atender as necessidades deles e de um bebê-prematuro.