Cidades
Suspeito carregava o dinheiro no mei�o
FÁTIMA ALMEIDA Repórter A Polícia Federal (PF) indiciou, ontem, o ex-chefe da contabilidade da Secretaria Executiva da Saúde de Alagoas (Sesau), Eduardo Martins Menezes, seu filho, João Amaral Menezes Neto e a nora Kimberly Lins Mendonça (esposa de Bruno Menezes). Eles foram ouvidos pela manhã, pelo delegado André Santos Costa, no inquérito que investiga o desvio de R$ 3,6 milhões de contas da Sesau no Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. No BB e na Caixa eram depositados os recursos desviados, de forma fraudulenta, do Ministério da Saúde - que seria para a compra de medicamentos - para as contas dos beneficiários de Menezes: seus parentes e uma rede 23 empresas. O esquema montado por Menezes utilizava artifícios que se anteciparam a histórias dos mais recentes escândalos da República. A polícia apurou, por exemplo, que um dos filhos de Eduardo, Bruno Sobral, saiu várias vezes da Caixa Econômica vestido com meiões de jogador de futebol por trás das calças, recheados de dinheiro. ?Ele chegou a levar R$ 50 mil escondidos nas meias?, disse o delegado, André Costa. Outro filho de Menezes, Eduardo Filho, já havia sido indiciado em Sergipe. Também foram indiciadas a mulher do ex-funcionário da Sesau, Maria Auxiliadora Sobral Menezes; a ex-companheira de Eduardo, Maria Lúcia de Siqueira Silva e a nora Jeane Valério de Menezes, esposa de Eduardo Filho e irmã da prefeita de Feliz Deserto, Rosiana Beltrão. Formação de quadrilha Menezes, considerado o mentor do golpe, e quase toda sua família vão responder pelos crimes de peculato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. O dinheiro era transferido em operações simples, fundamentadas em documentos falsos para contas pessoais e de empresas de familiares e amigos. Foram localizados 87 ofícios apresentados por Menezes nos dois bancos, com assinaturas falsas do secretário-adjunto da Saúde, Jorge Villas Boas e do diretor-administrativo Antônio Guedes, autorizando as transações bancárias. O processo de investigação do caso começou em julho de 2004, a partir de uma denúncia do então secretário da Saúde, Álvaro Machado, de um desfalque estimado, inicialmente, em R$ 500 mil. Com as investigações, chegou-se aos valores de R$ 3,6 milhões, sendo R$ 2,5 milhões desviados do Banco do Brasil e R$ 1,1 da Caixa Econômica. ### Conta de neto de 1 ano: R$ 112 mil A quadrilha, segundo o delegado André Costa, também utilizava contas em nome de parentes de menor de idade para despistar a rota do dinheiro roubado. Uma filha de Eduardo, A.M.S.M., que na época tinha apenas 1 ano, foi ?contemplada? com depósitos num total de R$ 112 mil. Também foram encontrados quase R$ 70 mil na conta de uma neta, filha de Eduardo Junior e Jeane, e mais R$ 70 mil distribuídos nas contas de dois outros menores: L.A.L.M., filho de João, e L.S.B., filho de Maria Lúcia. contas de terceiros O dinheiro sacado por Eduardo Martins, através dos ?donos? das contas utilizadas para transferir os recursos desviados, era de pessoas que emprestavam suas contas por confiança e amizade. ?Muitos foram usados, em sua boa-fé, por Eduardo e os filhos. Eles pediam a conta emprestada para receber um pagamento e essas pessoas, por serem amigas, ou por confiarem, emprestavam. Eles só ficavam mesmo com o ressarcimento da CPMF?, destacou o delegado. Pelos cálculos apurados pela Polícia Federal, as transferências feitas diretamente das contas da Sesau para as contas de familiares de Eduardo Menezes totalizaram R$ 1,1 milhão, em 273 operações bancárias. Ocultação de bens A PF também descobriu que depois de denunciado o esquema, a família Menezes tentou esconder alguns bens adquiridos com o dinheiro desviado da Sesau. Uma fazenda de 600 tarefas, com valor estimado em R$ 300 mil, foi transferida para o nome de Marilene Rodrigues Teles, empregada doméstica de Maria Lúcia, ex-mulher de Menezes. Ao ser ouvida pela polícia, Marilene afirmou que assinou os papéis enganada, porque a patroa disse que seria para contratar um plano de saúde, que nunca foi feito. Mais de 100 pessoas já foram ouvidas, algumas foram dispensadas, e outras serão reinquiridas para novos indiciamentos e conclusão do inquérito. Segundo Costa, não restam dúvidas de que o dinheiro saía das contas da Sesau para pessoas e empresas ligadas a Menezes, mas apesar disso, os acusados podem responder ao processo em liberdade. |FA ### Bens da família Menezes já estavam todos indisponíveis A investigação do esquema de desvio de recursos da Saúde já dura um ano e dois meses, mas, segundo o delegado André Costa, está próximo do fim. Ele passou um mês em Sergipe, onde ouviu 32 pessoas, investigou empresas que receberam recursos e a origem de bens da família Martins Menezes. bens indisponíveis Todos os bens encontrados em nome dos envolvidos foram considerados indisponíveis. A Secretaria de Saúde já foi ressarcida dos valores desviados do Banco do Brasil (R$ 2,5 milhões) mas ainda não conseguiu receber de volta R$ 1,1 milhão dos recursos desviados da conta da Caixa Econômica As investigações demonstram que o mesmo dinheiro que era depositado em contas de terceiros era sacado e entregue ao próprio Eduardo Menezes. Confirmam, também, que era ele quem ia, pessoalmente, às agências bancárias e, utilizando-se de sua condição de responsável pelas operações contábeis da Sesau, e do bom conhecimento que tinha nos bancos, efetuava as transações fraudulentas, autorizando, por meio de ofícios com assinaturas falsas, a transferência de recursos da Sesau para contas por ele indicadas. O delegado André Costa não quis adiantar se há envolvimento doloso de funcionários dos bancos no esquema. Inocência Apesar das evidências, o advogado de Eduardo e seus familiares, José Fragoso, diz que seus clientes são inocentes e que vai aguardar o material relativo à denúncia para fazer a defesa na Justiça. Ao deixar a sede da Polícia Federal, ontem pela manhã, Eduardo Menezes tentou evitar a imprensa e não quis comentar sobre o caso e o indiciamento. ?Tudo o que eu tinha a declarar falei para o delegado?, disse ele. O filho e a nora de Eduardo também conseguiram sair sem falar com os jornalistas. O delegado espera concluir o inquérito nas próximas semanas, e assegura que outras pessoas ainda serão indiciadas. Segundo ele, ainda falta reinquirir algumas pessoas que já foram ouvidas, devido a informações novas, e fazer a perícia contábil e econômica de Eduardo e seus familiares. Por enquanto, não há indicação de que alguém será preso pelo envolvimento do ?Rombo da Saúde?, mas o delegado esclareceu que isso será uma decisão da Justiça. |FA